Triste engano

Não lembro o que estava lendo na internet, mas lembro da piada. Num anúncio que vi na página me surpreendi com o título do livro. As pessoas que me conhecem sabem que sou apaixonada por cor. Na faculdade tentei uma iniciação cientifica sobre o tema, mas…

Tudo relacionado ao assunto me fascina. Tenho livros, matérias, um banco de imagens, trabalhei com Neza César que admiro… No futuro publico uma matéria sobre ela. Enfim, achei curioso o nome e me perguntei “que tipo de pessoa escreve sobre 50 tons de cinza?” Cai num engano. Mas até aí não sabia que era um engano. Já ouvi falar que os esquimós consegue enxergar mais de 75 tonalidades de branco, então pensei não ser impossível.

50 tons de cinza inovou? Achille Jacques-Jean-Marie Devéria 1800-1857

50 tons de cinza inovou? Achille Jacques-Jean-Marie Devéria 1800-1857

Fui guiada por esse raciocínio que durou pouco tempo, ainda bem, senão poderia ter comprado o livro. Logo fui trazida a realidade. Lendo outra matéria, desse vez lembro bem e era sobre literatura, que falava desse “fenômeno”.  Muitas editoras mandaram voltar livros que estavam quase saindo da gráfica para uma revisão de capa. Elas teriam que seguir a linha “elegante chic” do livro em questão. Textos foram revisados e as editoras saíram a caça de romances ao estilo do “porno para mamães”. Numa entrevista  a convite do G1, Wanderléa de 60 anos descreveu o apelido dado ao livro da seguinte maneira:

“As mães brasileiras da minha geração já não são assim, tão sem cor. Sua sensualidade já é mais exuberante e colorida”.

Ilustração de Achille Deveria, por um sexo mais colorido

Ilustração de Achille Deveria. Por um sexo mais colorido

Colorida. Uma das minhas maiores crises de criação é justamente relacionado a cor. O por que do não uso da cor. Em meados do seculo XX a arquitetura foi se apartando lentamente das nuances, formando um abismo entre essas duas expressões uma artística e a outra física. Os que pouco uso faziam desse elemento natural da luz, tinham uma visão mais voltada para arte. Vide trabalhos de Oscar Niemeyer em parceria com Athos Bulcão e Cândido Portinari (Osirarte) ou mesmo o trabalho do mineiro Éolo Maia. De alguns outros modernistas, ou pôs-modernos como preferir, as cores primarias as vezes apareciam. A arquitetura tomou um distanciamento grande da coloração com o passar dos anos trabalhando a luz apenas na volumetria. A cor tornou-se objeto de mal gosto e cafona. Porém um detalhe foi perdido e não mais recuperado, a composição da cor. Mal gosto, cafona ou incapacidade em executar essa linha de composição?

Hoje nas pálidas faculdades de arquitetura, é um elemento perdido, não recuperado. Pelo simples fato que os professores não são capazes de uma base mínima para uma introdução a luz física, fenômeno do qual descende a cor. Por pura falta de conhecimento grande maioria.

Vemos refletido nisso uma cidade cinza, bege e descorada numa clara afirmativa desse problema. Sim, considero um problema. Você saber usar a cor para composição de um volume ou cenário e optar por não usa-lá é válido. Mas não saber usar e um dia optar por usar é um problema não solucionado por 5 anos de arquitetura.

Na verdade antes de entrar na faculdade, é um elemento perdido quando o ser humano deixa a infância. Seguindo por apatia, falta de conhecimento e por fim receio na fase adulta. Seria isso cromofobia? Não, o nome da doença ou distúrbio é Chromatophobia. Transcrevo a resposta que uma leitora chamada Layla dá à uma internauta do Yahoo:

Medo! Três interpretações de O grito de Edvard Munch (1863-1944). A foto do meio é de autoria do artista italiano Marco Pece onde ele faz releituras de obras de arte conhecidas e filmes com Lego

Medo! Três interpretações de O grito de Edvard Munch (1863-1944). A foto do meio é de autoria do artista italiano Marco Pece onde ele faz releituras de obras de arte conhecidas e filmes com Lego

“Chromatophobia é o nome dado à fobia das cores e é causada por algum trauma do passado. A fobia a cada cor tem o seu próprio nome, por exemplo, medo do laranja Chrysophobia, medo do azul Cyanophobia,…. Existe também outros medos que podem trazer fobia às cores, medo de palhaços pode criar fobia a muitas cores, Coulrophobia, ou o medo de agulhas que pode trazer a fobia do vermelho, por causa do sangue, Trypanophobia, entre outras”.

De tantas cores e receios ficamos apenas com as cores bege, as ditas cores sóbrias,  tonalidades de cinza, amarelinho ou se quiser ousar um pouquinho, um vermelho. Falando sobre o vermelho, hoje ele é considerado cor neutra justamente pela falsa ousadia que ele dá aos muitos usuários que apostam nele.

Pergunto, além dessas cores, quantas cores o ser humano consegue enxergar? Deixo a resposta mais uma vez com um leitor do Yahoo chamado Apolo  onde seu interlocutor faz a mesma pergunta:

Categoria: Pilares da criação Subcategoria: Telefones pretos Sobre: Teoria e estudo da cor

Categoria: Pilares da criação
Subcategoria: Telefones pretos
Sobre: Teoria e estudo da cor

No escuro, nenhuma!

No claro, um monte.

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