Puff ou Pooh

Faz tempo.

Nem sei quanto tempo faz.

Uns 8 anos, mais ou menos.

Estava na casa de meu melhor amigo. Nos preparávamos para ver o filme do Tigrão. Era esse nosso maior defeito, assistir desenhos.

É só ler a sinopse

É só ler a sinopse

Pasmem, tínhamos na época, ele uns 25 eu uns 32, ele uma tatuagem do Demônio da Tasmânia no abdome, eu uma tatuagem do Snoopy nas costas. E nessa época vagabundávamos muito.

Quantas vezes fiz sessão desenho apenas com VHS do Snoopy na década de 90? De vários desenhos, sabia as falas de cor.

As décadas passaram…

Mesmo assim…

Acordávamos cedo para assistir e depois ainda conversar sobre. Em São Paulo, em pleno centro onde as pessoas fervilham aos nossos pés para trabalhar nadávamos contra correnteza. Não queríamos saber, não queríamos ver e nem tomar partido. Nossa estória era outra. Vivíamos num oásis ditando nossas regras.

Em total inércia, ficávamos na cama dias e dias conversando e assistindo desenhos, filmes e… Conversando, comendo, frequentado as boates gays mais fuleiras. O namorado desse meu amigo era o provedor da casa. Cuidava dele e de quem mais estivesse por perto. Quando buscava a paz que não tinha, corria para seu apartamento na Rua Aurora, uma kitch de uns 36 m². Eu e mais um monte. Tudo que nos cercava era barra pesada. O álcool, o sexo, a violência, as crianças fumando crack, a falta de dinheiro, as drogas, a solidão mal administrada, o ciúme doentio, as doenças, o amor e o ódio…

Então a gente ia para o quarto assistir desenho, para sala assistir desenho e tentar se agarrar a uma réstia da infância.

Puff, sempre chamo Puff, afinal foi assim que conheci o ursinho quando devorava gibis. De todas as personagens Disney, este é o mais bucólico e que mais amansava a gente.

Contracapa de um caderno que comprei em 2003. Parte de um livro que escrevi na época está em suas folhas

Contracapa de um caderno que comprei em 2003. Parte de um livro que escrevi na época está em suas folhas

Sobre o nome real do personagem transcrevo a resposta de um internauta chamado Rafael G:

“Porque a tendência atual é a de manter os nomes originais dos personagens estrangeiros, opção mais econômica que traduzi-los – inclusive os logotipos. Assim, por exemplo, o super-homem passou a ser conhecido, a partir de algum tempo atrás, de Superman. E Pooh é o nome original do Ursinho Puff, embora muita gente tenha o conhecido assim e continue chamando-o assim. Começou depois da estréia de “Tigrão, o Filme”, que ajudou a tirar o personagem e sua turma do provável ostracismo em que eles estavam ameaçados de cair. Questões de economia, é bem melhor manter os nomes originais que traduzir tudo, não concorda?
Ah, sim: sabia que o Ursinho Pooh (ou Puff) não foi criado pela Disney? Ele é criação literária, do início do século XX, do escritor Alan Milne, inspirado numa ursa de um zoológico que seu filho alimentava. Mais tarde, a Disney comprou os direitos de adaptação das obras de Milne e o transformou em sucesso mundial – a série original é belíssima, principalmente porque os conceitos mantêm as ilustrações originais do livro de Milne”.

O desenho do Tigrão do qual esperávamos desde manhãzinha para assistir foi mais um golpe duro que entretenimento, não que isso fosse ruim. Ao contrário, por isso mesmo muito bom. Entenda, meu amigo ficou órfão de mãe aos 12 anos e de pai aos 17 anos, depois foi morar com um policial. Em resumo, a família dele era os amigos. Pois é justamente sobre essa questão que trata o filme.

Tigrão não tem família, sua família são seus amigos. Eu chorei, o Carlinhos, sei que também chorou, mas não tive coragem de olhar para o lado, ele era muito fechado em relação a sentimentos. A estória é mais ou menos assim:

Após constatar que ninguém pula como ele, resolve procurar alguém de sua espécie para brincar. Recebe cartas de supostos parentes que na verdade fora escrita por seus amigos para alegrá-lo, porém ele resolve ir atrás de sua família. Nessa aventura ele salva seus amigos que salvam ele.

Não faz tanto tempo assim quando prestei vestibular para arquitetura.

Ainda trabalhando com o Puff

Ainda trabalhando com o Puff

Em algumas faculdades é exigido além da prova com questões uma prava de habilidade. Normalmente uma prova de desenho. Lá estava eu numa dessas provas de desenho.

Pediram para eu desenhar uma cadeira, desenhei.

Pediram para eu desenhar uma pedra, desenhei.

Pediram para eu desenhar uma garrafa de vidro, desenhei.

Pediram para eu desenhar uma rosa e cheguei a conclusão que seria difícil. Uma rosa tem seu caule com espinhos, até aí…

Uma rosa tem folhas com dentinhos, sem muitos problemas, mas e o botão? Pétalas sobrepostas, se fechando ou se abrindo. Tentei vários desenhos e todos ficaram bem ruins. Uma rosa tem um design complexo e eu queria que ela ficasse linda, afinal era uma prova de admissão.

Sou louca por materiais escolares, principalmente aqueles dos desenhos que gosto. Eu tinha um lápis do Puff e entre ele e seus amigos varias rosas. Pensei porque não fazer a representação de uma rosa ao invés de uma rosa realista? Minha rosa surgiu diferente, assim como Puff e seus amigos, representações que ficam entre o real e os bichinhos de pelúcia. Hoje uso aquela rosa como logomarca de trabalho, se alguém disser que é infantil, peço que a pessoa sente pegue um lapis e desenhe uma rosa.

Meu amigo morreu em Agosto de 2010, um mês antes de completar 30 anos.

Eu continuo comprando material escolar com personagens que amo e assistindo desenho, agora com os meus sobrinhos.

Categoria: Gardênia, a essência da flor Subcategoria: Fernanda Machado de Farias Sobre: Trabalhos que realizei na área de arquitetura Em destaque desenho Winnie The Pooh de Alan Alexander Milne

Categoria: Gardênia, a essência da flor
Subcategoria: Fernanda Machado de Farias
Sobre: Trabalhos que realizei na área de arquitetura
Em destaque desenho Winnie The Pooh de Alan Alexander Milne

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