Saudações a Cassandra Rios

“Senhorita Eudemônia, todos aqueles que quiseram se libertar do instinto pervertido foram bem sucedidos em nossas clinicas. Tornaram-se criaturas normais e muitos deles hoje possuem seu próprio lar e até filhos”. Trecho do livro Eudemônia de 1956. Essas palavras lembram algo?

Outro dia assisti uma das adaptações para o cinema de um livro de Cassandra Rios (1932-2002), fiquei chocada. Não pelo teor erótico, pois adoro um pornô e nivelo as trizes desse gênero como o de qualquer outro, a questão é, o Snoopy foi usado como objeto masturbatório. Ariella foi dirigido por John Herbert (1929 -2011) e estrelado por Nicole Puzzi, Herson Capri, John Herbert e Christiane Torloni em seu primeiro papel em longa metragem. Não achei o filme ruim, ao contrário gostei mais dele, em comparação a Toda nudez será castiga, adaptação feita por Arnaldo Jabor da obra de Nelson Rodrigues.

Capas dos livros de Cassandra Rios

Capas dos livros de Cassandra Rios

Falar da obra de Cassandra Rios é mais difícil que a censura em dizer sim ou não. Para Jorge Amado, era a melhor escritora do país, já Marcelo Rubens Paiva diz que, para entender Cassandra Rios devemos levar em consideração sua época e ambiente.

005-CASSANDRAEntão vamos para 1948, uma adolescente de 16 anos com um livro intitulado A volúpia do pecado. 1948? Ela tornou-se percursora da literatura homossexual brasileira. O primeiro romance de temática lésbica a alcançar repercussão nacional foi seu livro de estreia.  Cassandra Rios chegou a vender mais de 300 mil exemplares em 1 ano, um verdadeiro best seller para a época, feito alcançado décadas depois por Paulo Coelho. Segundo Adriane Piovezan “a homossexualidade só aparecia, na literatura do final do século XIX e na primeira metade do século XX associada a três tabus: o pecado, a patologia e o crime. Esses elementos não estão na narrativa de Cassandra; pelo contrario; aparecem como forma de repressão e (ou) preconceito que suas personagens enfrentam. Por isso, as minorias sexuais, que não eram sequer pensadas como tal no Brasil daquela época, perceberam naqueles livros uma oportunidade de terem retratados aspectos de seu cotidiano em uma obra literária”. Ver matéria completa aquianúncio-dos-livros-da-Cassandra-Rios

Uma questão abordada em uma das ultimas entrevistas de Cassandra Rios para a revista TPM é a pornografia. Afinal seu nome é automaticamente associado a pornografia. Há uma barreira e inúmeras teorias sobre onde termina o erótico e inicia o pornográfico. Para ser erótico ele precisa estar amparado em algumas premissas, um contexto, um texto explicativo, uma visão “poética” qualquer. O que se considera pornográfico é o ato pelo ato, sem preliminares. Mas eu pergunto, uma mulher pelada X difere em que de uma mulher pelada Y?  A Y tem duas xoxotas?

“Ah, prefiro obscena! É uma palavra bonita, sensual. “Pornográfica” já é outra coisa. Devia ser “porco-gráfica”! [Risos] Meus livros não são pornográficos. São livros de amor. Falam da atração que uma pessoa exerce sobre a outra. Há aquele processo de se interessar, de namorar” diz a escritora.

Mas isso não é importante. Importante é o seguinte: Cassandra Rios escreveu quase cinquenta livros e não encontramos nem um décimo de sua obra reeditada. Foi em seu tempo, um dos escritores mais lidos no Brasil, levando em conta que vivemos num país de não leitores, para não dizer analfabetos funcionais. Como mencionei, foi pioneira em retratar o submundo gay. Em sua obra era recorrente fazer alusão a lugares e comportamentos típicos homossexuais. Em uma de suas obras faz referencia ao Ferro’s bar, que em seu livro ficou como Aços bar, frequentado por mulheres que amavam mulheres.Cópia de Cassandra Rios-vedetes

Cassandra Rios: A Safo de Perdizes – Entrevista com Hanna Korich

Mesmo levando em consideração as palavras de Waldenyr Caldas:

“Tanto Cassandra Rios como Adelaide Carraro tiveram todos os seus livros publicados censurados e impedidos de serem comercializados . Mas o recolhimento dessas obras pela censura federal não representava uma preocupação estética ou algo semelhante para com a cultura brasileira. Significava, isto sim, apenas um comportamento político do Estado. Essas apreensões deveram-se, fundamentalmente, ao fato de que essa literatura fere os valores da cultura afirmativa ao apresentar o corpo enquanto instrumento de prazer. Porém, é bom que se diga, não se trata propriamente do prazer; mas de um pseudoprazer, do prazer fetichizado. E “a proibição de oferecer o corpo no mercado, como instrumento de prazer, em vez de instrumento de trabalho, é uma das raízes sociais e psíquicas fundamentais da ideologia burguesa-patriarcal”. Assim, a sub-literatura, enquanto pseudoprazer, assume mais uma vez a função de engodo, do grande público, na medida em que passa a servir de “válvula de escape” aos instintos sexuais reprimidos em virtude da instrumentalização do corpo, imprescindível ao modo de produção capitalista”. 50 tons de cinza?

Mais capas de Cassandra Rios

Mais capas de Cassandra Rios

Entre lançar um livro ruim, repleto de clichês lésbicos e não publicar nada, qual a leitora lésbica prefere?

“A partir de 1990, a literatura homossexual feminina assume um perfil engajado, de afirmação positiva dessa minoria. Ao privilegiar protagonistas atraentes e bem sucedidas, acabam assim, enquadrando o lesbianismo nos padrões hegemônicos da sociedade, com seus valores heterossexuais e mercadológicos. Um discurso que pode ter boas intenções políticas, mas faz alusão a um mundo artificial, distante do cotidiano concreto dos homossexuais”, diz Adriane Piovezan.

O tempo passa e eles sumiram das prateleiras...

O tempo passa e eles sumiram das prateleiras…

Interessante mencionar a forma com que o homossexual deve ser apresentado numa obra. A diferença da obra de Cassandra Rios para a literatura gay feita hoje, não parte apenas de heterossexuais preocupados em vender uma história, mas o mais interessante é ver veículos feitos por homossexuais com pensamentos idealizados e irreais sobre o mundo gay. Basta verificarmos no site da editora Malagueta as inúmeras “preferências” sobre como deve ser um livro lésbico. Com finais felizes? Pensei que essa questão cabia apenas ao escritor, isso quando a literatura é vista como expressão artística e não mercadológica. Não sei o que seria apresentar personagens como pessoas e não como objetos (pornografia). Tá, sei que você tem uma teoria sobre isso.

Cassandra Riso foi boa escritora? Olha, há controvérsias  Digo que, sua obra é melhor do que a maioria dos livros com temática lésbica lançados nos últimos anos. Não é possível dizer que é alta literatura, mas não deixa de fazer um retrato comportamental da sociedade da época. O que o torna válido.

Ozzy Osbourne em show beneficente para angariar fundos para Gay & Lesbian Center

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Categoria: Cunnilingues Sobre: LGBT, Gêneros, identidade sexual

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Sobre: LGBT, Gêneros, identidade sexual

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