Duas maneiras de ser

Texto de Guy Franco

Foto de Ellen von Unwerth

Foto de Ellen von Unwerth

Poucos comentam, mas quando você é um homossexual, a cada dois meses chega à sua casa uma cartinha da comunidade LGBT com uma lista detalhada de tudo o que você fez de certo e de errado pela causa. Nos últimos anos, vieram tantas coisas na lista do que fiz de errado, que hoje já nem abro mais essas cartinhas. Deixo tudo jogado pelos cantos da casa e no porão, junto com os bolivianos que trabalham na minha confecção de macacão infantil.
É muito difícil agradar a comunidade LGBT. Pago o sindicato há mais de 10 anos e ainda preciso atender a uma série de obrigações, como falar bem de quem eles pedem, votar nos deputados que defendem a causa, compartilhar vídeos de geneticistas, aparar os pelos do peito, chamar Laerte de gênio e ignorar solenemente aquele filme J. Edgar, do 1Clint Eastwood. Podem me chamar de Heloísa Périssé, mas não é porque eu optei por uma sexualidade que sou obrigado a seguir nada disso.
Quando eu decidi me tornar um homossexual, no inverno de 1999, pensei que fosse ter maior liberdade do que os heterossexuais. Se eu soubesse que haveria tantas restrições, teria me filiado a outra minoria desfavorecida, como a das domésticas ou a dos neopentecostais. Sim, eu sei que a vida de uma doméstica não é tão extravagante quanto a de um homossexual médio (aquele que tira foto em frente ao espelho), mas pelo menos as domésticas podem compartilhar imagens com mensagens edificantes no Facebook sem serem julgadas por isso.
Afinal, o que queremos quando assinamos um contrato de homossexualidade? Homens, sem dúvida. E praticidade – sexo fácil. Como também o direito de não precisar pagar a conta da pessoa com quem estamos ficando.
Eu não tenho dinheiro para ser um heterossexual. Vim de uma família humilde e não tive a sorte de encontrar um homem maduro (de preferência gringo e peludo) que me sustentasse. Se eu fosse um velho rico, deixaria toda a minha herança para um homossexual mais jovem que não tivesse como se sustentar sozinho também. Essa, aliás, era a ideia por trás da homossexualidade na antiguidade (quando ainda chamavam de homossexualismo) – um meio de facilitar a ascensão de jovens sem condições financeiras. A homossexualidade foi um dos primeiros programas de assistência social do mundo.
Quando me perguntam se eu não teria vergonha de ser sustentado por um homem maduro (de preferência gringo e peludo), respondo que não, imagina, nunca leu os clássicos? Antes um acordo voluntário entre dois adultos do que ser sustentado por um sistema coercivo que tira dinheiro de quem eu não conheço.
Por isso, sempre que perguntarem a você por que assinou aquele contrato de homossexualidade, no inverno de 1999, responda que não é da sua conta. E, mais importante, peça para ler os clássicos – pode começar com Petrônio.
Quanto às cartinhas da comunidade LGBT, jogue tudo no lixo. Pode parecer incrível, mas há homossexuais que sabem pensar por si e não dependem dos neurônios dos outros para tomar uma decisão. Ser gay é ser livre.

Categoria: Cunnilingues Sobre: LGBT, Gêneros, identidade sexual

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