Eu não leio livro escrito por mulher

Texto escrito por André Forastieri onde você pode ler no blog do jornalista aqui.

Fiquei besta quando percebi. Arrumava as estantes de casa e pela primeira vez enxerguei o que devia estar na cara. Eu não leio livro escrito por mulher. Dos zilhões de livros de casa, uns 99,5% foram escritos por homens. O que é que há de errado comigo? E, pensando bem, tem algo de errado comigo?
Encasquetado, me ocorreu a pergunta óbvia: eu sempre fui assim, ou é recente? Resposta: eu sempre fui assim. Os livros da minha infância e adolescência que continuam comigo, muitos, são quase todos obras de homens. Certo que troquei muitos em sebo, na faculdade, do que me arrependo muito, inclusive todas as minhas Agatha Christie. Mas o que sobrou da época é só macho. Em ficção científica, é Joan D. Vinge aqui,  R.A. McAvoy e Ursula K. LeGuin acolá. Entre tantos livros policiais, Patricia Highsmith. Vamos ver a estante com ficção americana: Mary McCarthy, Lilian Hellman, Carson McCullers, Harper Lee. Recente e muito bom, o  livro de autoajuda disfarçado de biografia de Montaigne, de Sarah Bakewell, How to Live. Em quadrinhos, quase nada.  Autoras brasileiras, menos ainda. Clara Averbuck, Márcia Denser, Lilian Moritz Schwarz, um querido de Leyla Perrone-Moisés, Vinte Luas. Mais esse, mais aquele. Um pinga-pinga de autoras num oceano de machos.
Por que não leio livros escritos por mulher? Não sei. Nunca pensei nisso. Talvez mulheres não sejam tão atuantes nos meus gêneros favoritos? Mas em qualquer gênero tem muita autora boa (imagino,  não sei, porque não leio). Escolho livro pelo sexo do autor? Imagina, nem entra na equação. Compro livro pelo autor, pelo tema, pelo cheiro. Esse Vinte Luas me botou para ler sobre a era das navegações, li uns vinte livros por causa dele. Preconceito? Nenhum. Dou de barato que mulher tem os mesmos direitos que homem, inclusive sexuais (e o mesmo desafio de defende-los, claro). E tenho zilhas de livros escritos por gays. Quanto se trata de prazeres literários, sou polimorfo perverso.
Qualquer livreiro vai te contar: a maioria das pessoas que entram em livrarias, e compram livros, são mulheres. No Brasil e em qualquer lugar do mundo. Regra geral, a lista de best-sellers é a lista dos livros que estão sendo mais lidos por mulher naquela semana. Mais ainda em ficção, que não-ficção sempre tem também aquelas auto-ajuda pra homem, livro de carreira, gestão, como ficar rico etc.
Donde que muito livro é escrito especificamente para agradar leitoras. E muitos desses são escritos por mulher, naturalmente. Existe isso de leitor homem e leitora mulher? Bem, sim. Tem livro que é pra ser lido por qualquer um, qualquer dos 16 sexos, conforme dizia um velho amigo. E tem livro, e filme, e música que tem alvo certo. 50 Tons de Cinza pode até ter leitor homem, mas foi feito para mulher. Mesma coisa A Culpa é das Estrelas, ou A Menina que Roubava Livros, pra ficar em três que estão na lista dos mais vendidos esta semana. Vamos para os Estados Unidos? A lista de best-sellers do New York Times dessa semana tem cinco autoras no Top 5, dominação total. Claro que não vou ler esses livros. Eles foram especificamente não-feitos para mim.

Arrisco uma outra teoria para a ausência de mulher entre meus autores favoritos. Não leio literatura contemporânea, dessas que vendem pouco e ganham prêmios literários, gênero em que as minas arrasam. Leio pouca ficção. Sempre do século 20 ou antes, períodos em que pouca mulher escrevia, ou escrevia sobre assunto exclusivo de mulher, porque era a isto que tinham acesso, socialmente. OK, sei que Jane Austen não é só isso. Mas na boa, é muito mulherzinha pra  mim. Tentei ler, parei e não tentarei de novo.

Pode ser que isso seja comum. Que eu esteja dentro da norma. Que a maioria dos homens que leem leiam principalmente outros homens, e igual com mulher. Nunca ouvi falar de nada parecido, mas não me parece absurdo. De qualquer forma, fazer ou não parte da maioria  não é prova de nada. Nem explicação de porque eu sou assim. Jornalista, simplesmente reporto o fato: não leio livro escrito por mulher.

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro O dia em que o Rock morreu

Categoria: Vai ser pra mim
Sobre: Textos de outros autores
Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro “O dia em que o Rock morreu”

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