Mais um texto de André Forastieri

Nossos escritores em Paris, nossas contas na Suíça: nada a dizer, tudo a perder

Eddie foi abandonado pequeno pelo pai. A mãe morreu de pobre, tuberculosa. Ele tinha cinco anos e ela, 24. Adotado, ganha uma fresta de oportunidade. O pouco tempo de escola lhe garante uma educação.

Então perde a madrasta, o prumo, o apoio de quem chama pai. O futuro lhe escapa. Segue sem patrono nem patrão. Falta dinheiro para comer. Tem um único casaco para enfrentar o frio.

A necessidade leva Eddie à escrita. Escreve de tudo. Artigos, resenhas, curiosidades, poemas, contos. Qualquer coisa para arrancar algum de editores muquiranas. Escreve para vender. Histórias sórdidas de sangue, de assassinos, dementes, belas à beira da morte, monstros à espreita.

Um presente inesperado: o amor incondicional de uma mulher. Mas Eddie nasceu com o signo dos malditos. Deturpa toda amizade, desperdiça toda chance. Só não trai o amigo mais perigoso: o álcool. A bandalheira leva sua carreira, a tuberculose leva sua esposa.

Aos quarenta anos some por seis dias. É encontrado estuporado de bêbado, numa taverna imunda de uma cidade distante da sua. Termina sua vida infeliz no dia seguinte, em um hospital de Baltimore, sete de outubro de 1849.

A história de Edgar Allan Poe – poeta do surreal, precursor do Simbolismo, inventor do conto policial, pioneiro da ficção-científica, maior clássico da literatura americana, tesouro da juventude e velhice – é tão terrível quanto banal. As biografias de grandes e pequenos artistas estão repletas de desesperadas necessidades existenciais e materiais. Vidas que queimam, lenha na fogueira da criação.

É preciso mesmo sofrer para criar? Nascesse Poe herdeiro, com comforto e tempo livre para escrever, teria produzido mais ou melhor? Em 2015: salário, seguro-saúde e plano de previdência privada é boa base para boa arte? Se sim, porque não pagamos salários para os criadores criar?

Escritor profissional é invenção tão americana quanto Poe. “Working writer”, no preciso termo ianque, “operário da escrita”. Escreve para vender, porque é o que lhe sustenta. Romance, conto, artigo, ensaio, biografia, orelha de livro.

O outro tipo de escritor também trabalha, mas em outra coisa. Diplomata como Guimarães Rosa. Bancário como T.S. Elliot. Médico como Moacyr Scliar. Funcionário público como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade. J.D. Salinger invadiu a Normandia carregando o rascunho de “O Apanhador no Campo de Centeio”. E Charles Dickens aos 12 anos labutava numa fábrica de sapatos, para ajudar a pagar dívidas contraídas pelo pai.

Tantas vezes abandonar o emprego e viver de escrever era um sonho – o único sonho. É noite na periferia: espie pela janela da casinha. Ouve o barulho da máquina de escrever? É o zelador do colégio aqui perto. Mora com a mulher e dois filhos pequenos. Escovão de dia, máquina de escrever madrugada adentro. Poe como inspiração e as crianças ali chorando, depois ressonando, e enfim acordando, e ele que se apronta para mais um dia limpando privadas: Stephen King.

Dá um livro as histórias tristes sobre escritores. Os que tinham que trabalhar em outras coisas. E os que tinham que escrever qualquer coisa, porque era seu trabalho.

Mal terminava eu a sofrida biografia de Poe escrita por Peter Ackroyd, coração em frangalhos, vai pros infernos com tanta desgraça, e pinga na caixa de e-mails a manchete enviada por um amigo:

“Autores Brasileiros Se Queixam da falta de cachê em Salão do Livro de Paris”. O Brasil é o país homenageado no Salão de Paris este ano. Uma comitiva de escritores nacionais foi para lá, com tudo pago.

Luiz Ruffato disse que se sente “como um imbecil que vai trabalhar de graça”,”é um escárnio com o papel do intelectual do Brasil”. Mas vir a um evento desse porte, com tudo pago, não compensa? Paulo Lins responde: “meus livros não vão vender muito mais pelo fato de eu ter vindo. As críticas que saírem aqui podem ajudar, mas isso não é o suficiente.”

A declaração definitiva é de Rodrigo Ciríaco, ator de “Te Pego Lá Fora”: “não se deveria nem falar em cachê, mas em salário. É uma atividade profissional, um exercício físico e intelectual. E não é um trabalho para mim. Estou trazendo a literatura da periferia de São Paulo, dos saraus, estou falando de uma cena.”

Rodrigo nasceu e cresceu na periferia. Conseguiu se formar em História na USP. É professor da rede municipal em São Paulo. É pedir muito pingar uma grana para Rodrigo? Não é isso que vai quebrar o Tesouro Nacional. Qual o problema de pagar um cachêzinho?

O problema de desembolsar dinheiro público para escritor frequentar evento literário é exatamente o mesmo de atores famosos terem contas na Suíça. Esses dias saiu uma listinha de famosos que protegem seus dólares em bancos no exterior, enquanto bancam seus negócios no Brasil usando dinheiro público, via lei de incentivo. Tudo dentro da lei. Tudo errado.

É passar recibo de coadjuvante um escritor almejar salário público. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros que pegam dinheiro do governo para gritar contra o sistema.

Cada um se vira como pode. Escritor não tem esse direito. Nossos pobres escritores em Paris e nossos ricos artistas com contas na Suíça são a mesma face da mesma moeda.

Mas ator diz o que outros escreveram. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística.

Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.

Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam o norte. E sem eles, nos perdemos.

Onde estão os escritores que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna?

Depender do poder político e econômico é se assumir subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. E as exceções reforçam a regra.

Literatura é dissenso, discórdia, danação. Graham Greene cravou: “A Itália, durante trinta anos sob os Bórgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz – e o que produziram? O relógio de cuco.”

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro O dia em que o Rock morreu

Categoria: Vai ser pra mim
Sobre: Textos de outros autores
Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro O dia em que o Rock morreu

E as contas na Suíça, claro.

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