Como a Internet está jogando a ciência nas trevas

Texto de André Barcinski.

Clérigos estudam astronomia e geometria (França, iluminura de inícios do século XV).

Clérigos estudam astronomia e geometria (França, iluminura de inícios do século XV)

Grande parte das informações científicas publicadas em revistas e sites é falsa. O número pode chegar a 50%.

Quem divulgou esse dado assustador não foi nenhum site de teorias da conspiração ou um lunático qualquer, mas Richard Horton, há 20 anos editor da “The Lancet”, fundada na Inglaterra em 1823 e considerada uma das mais importantes revistas médicas e científicas do mundo.

No editorial de 11 de abril (leia aqui, em inglês), Horton descreveu um simpósio, realizado em Londres, sobre a confiabilidade de pesquisas médicas. A conclusão é alarmante: “O caso contra a ciência é claro: boa parte da literatura científica, talvez metade, pode simplesmente ser falsa. Prejudicada por estudos com mostras qualitativas pequenas, efeitos diminutos, análises exploratórias sem validade e flagrantes conflitos de interesses, (…) a ciência tem mergulhado rumo à escuridão. Como disse um dos participantes: ‘Métodos pobres dão resultado’.”

Na última década, houve na Internet uma profusão de revistas “open access” (“acesso aberto”), que publicam trabalhos científicos. Elas são gratuitas para o público, mas não para o autor do trabalho, que paga para tê-lo publicado. Isso criou um verdadeiro comércio online de informações médicas e científicas.

Como o acesso é livre, muitas dessas revistas têm grande número de acessos, e os artigos publicados ganham uma chancela de respeitabilidade.

Em 2013, o jornalista John Bohannon, da Universidade Harvard, enviou um trabalho científico para 304 dessas revistas “open access”. Mais da metade aceitou publicar o trabalho, que descrevia uma nova droga capaz de diminuir o crescimento de células cancerosas.

Só havia um problema: o trabalho era totalmente inventado. Um trote.

Bohannon publicou a história na revista “Science” (leia aqui, é sensacional). “Qualquer revisor com um conhecimento ginasial de química (…) deveria ser capaz de perceber os erros imediatamente. Os experimentos são tão absurdos que os resultados são inúteis,”, escreveu.

A única revista de acesso aberto que alertou Bohannon para os erros encontrados no trabalho foi justamente uma das poucas que se destaca pela seriedade e credibilidade, a PLOS ONE – Public Library of Science.

Continua Bohannon: “De começos modestos e idealistas, mais de uma década atrás, as revistas científicas de acesso aberto têm se multiplicado numa indústria global, guiada por taxas de publicação para autores e não por assinaturas para leitores. A maioria dos participantes é suspeita. A identidade e localização dos editores dessas revistas são, muitas vezes, propositalmente escondidas. (…) Buscas pelos IPs e dados bancários têm jogado luz sobre o assunto e revelado uma rede de contas localizada, principalmente, em países em desenvolvimento.”

Resumindo: boa parte da publicação de trabalhos científicos, hoje, é tão picareta quanto os e-mails que recebemos todos os dias avisando de uma herança a receber na África ou pedindo ajuda para crianças famintas no Afeganistão.

O maior problema não é o trambique de que muitos autores são vítimas (e cúmplices), mas o fato de que a maior prejudicada, no fim das contas, é a ciência.

A publicação de trabalhos falsos ou cientificamente irrelevantes tem disseminado informações erradas e que por vezes são usadas como base para que pacientes tomem decisões médicas. É um assunto de vida e morte.

A Internet prometeu um mundo “livre de filtros” e aberto a todos, mas se transformou, com algumas exceções, num balcão de negócios comandado por interesses escusos, juntando o crescente analfabetismo funcional dos usuários com a multiplicação de “especialistas” em todo tipo de assunto. A única forma que o público tem para se defender é buscar informação nas fontes mais confiáveis e credíveis.

E isso acontece em todas as áreas.

Acesse agora o site da Amazon e tente achar UM livro que tenha recebido nota menor que quatro estrelas em cinco. Difícil. Sabe por quê? Porque a Amazon tem uma equipe imensa de “críticos” para escrever os textos que acompanham a descrição dos livros. Para simular isenção, a  PLOS ONE costuma publicar críticas de um site de leitores chamado Goodreads, que sempre traz textos elogiosos aos livros. O que a Amazon não informa é que comprou a Goodreads em 2013.

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil. Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por "Barulho - Uma Viagem ao Underground do Rock Americano" (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário "Maldito" (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins.

Categoria: Vai ser pra mim
Sobre: Textos de outros autores
Autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil.
Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por “Barulho – Uma Viagem ao Underground do Rock Americano” (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário “Maldito” (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins.

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