Tolerância de ficção. A alarmante hipocrisia do Oscar

Negro dá prêmio a branco, falsa transexual é indicada… Oscar e a falsa tolerância de Hollywood

Tolerância de ficção. A alarmante hipocrisia do Oscar

Tudo pelas minorias, mas sem as minorias. O lema do despotismo esclarecido parece ter sido modernizado na moderníssima e politicamente correta Hollywood, e a frase resume o ambiente dominante na próxima cerimônia de entrega do prêmio Oscar. A mais recente voz crítica foi a prodigiosa de Anohni, cantora transgênero antes conhecida como Antony, de Antony and the Johnsons. A primeira transgênero a conseguir uma indicação para o Oscar anunciou em carta pública que não comparecerá à festa porque não deixaram que ela se apresentasse. A Academia achou que faz muito mais sentido pular sua interpretação para que um grupo mais mainstream tenha tempo de se apresentar à vontade, mesmo que não tenha sido indicado, como aconteceu com o Foo Fighters. É chover no molhado. Sua crítica se soma às feitas pela comunidade afro-americana devido à ausência de atores negros entre os indicados, pelo segundo ano consecutivo.

Vai se criar um grande paradoxo. A 88ª edição do prêmio Oscar vai ser apresentada por um negro, Chris Rock, que entregará prêmios a brancos. O público vai aplaudir a brava interpretação de Eddie Redmayne como primeira transexual da história (em “A Garota Dinamarquesa”) consciente de que os organizadores vetaram a ida ao palco da primeira transgênero a conseguir uma indicação. Tudo muito politicamente correto na aparência, com sua dose certa de diversidade racial, sexual e de gênero. Tudo muda para que tudo continue igual.

A cantora Anohni

A cantora Anohni

Mais de uma publicação viu na presença conjunta de “Carol” e “A Garota Dinamarquesa” entre os filmes indicados uma vitória para lésbicas e transexuais, as comunidades menos visíveis contidas na sigla LGBT. Pode ter havido algum avanço nos últimos anos, mas essas indicações, longe de serem revolucionárias, confirmam uma tendência repetida no setor nos últimos anos sem muito alarde.

Interpretar um papel de transexual é uma vantagem no Oscar, no caso de intérpretes hétero cuja sexualidade não esteja em dúvida. O fenômeno é semelhante ao de atrizes bonitas que se enfeiam para um filme (Cameron Díaz, Nicole Kidman, Charlize Theron, para dar alguns exemplos). Tudo começou com a brilhante Hilary Swank e sua atuação em “Meninos não Choram”. Felicity Huffman não ganhou o prêmio por seu papel em “Transamérica”, mas teve uma merecida indicação. Este ano foi a vez de Redmayne. Nenhum desses três filmes, todos de grande qualidade, obteve indicação como filme do ano. Não se quer premiar a bravura do diretor e dos roteiristas, não se quer destacar a importância das histórias narradas. Premia-se o valor de um ator por arriscar sua carreira, mesmo que por breve período, na pele dos que estão, sim, à margem da indústria cinematográfica.

Fotograma de 'A garota dinamarquesa'

Fotograma de ‘A garota dinamarquesa’

Não deixa de ser um contrassenso ver como Cate Blanchett aumenta seu (merecido) prestígio por interpretar uma lésbica, enquanto Ellen Page admite que ter saído do armário vai lhe tirar muitas chances de conseguir um papel de mulher heterossexual. Isso mostra a moral dupla de um setor tremendamente conservador. Exemplos como o de Ellen Degeneres e Neil Patrick Harris, intérpretes abertamente homossexuais de bastante sucesso, não desmentem a afirmação de Page. Harris saiu do armário quando já tinha o papel que o tornou famoso na série “How I Met Your Mother”, assim como Degeneres, com a longeva sitcom “Ellen”. Desde que ambos expuseram sua sexualidade seus papéis na ficção diminuíram drasticamente, mas eles se tornaram os apresentadores perfeitos para prêmios e cerimônias do cinema. Não valem tanto para fazer parte do setor quanto para ser a face visível dele quando premia outros. É isso que se repete neste ano com a função do apresentador, embora ligada a outra minoria – nesse caso, racial.

Chris Rock representa tanto os negros que não os representa

Falemos agora sobre o grande paradoxo encarnado pelo apresentador do Oscar. Chris Rock ficou sujeito a muitas críticas por participar da premiação, mas as queixas da comunidade afro-americana contra o ator não começaram este ano. Elas vêm de longe. Rock há muito tempo faz o papel de negro em suas atuações. Essa afirmação, que pode parecer bobagem, tem um sentido interessante. Revendo sua filmografia, vemos como se repete um padrão em seus papéis, sempre limitados a preencher a cota racial, de ser o simples colega do branco, um hétero de meia-idade que fica com toda a glória. É o que no jargão hollywoodiano é conhecido como token black guy, o negro com sotaque dos subúrbios pobres que nos filmes de ação solta frases espirituosas entre uma explosão e outra e que nos filmes de terror morre esfaqueado nos primeiros 30 minutos. Esse personagem padrão nasce da soma de estereótipos e parece mais ter sido criado por um especialista em marketing do que por um roteirista.

Pense nos papéis de Morgan Freeman na saga do Batman, de Samuel L. Jackson em “Pulp Fiction”, e de Denzel Washington em “Dia de Treinamento”. Falamos de personagens mais ou menos complexos, mais ou menos secundários, mas cujoleit motiv, cujo motor na trama, vai além de ser somente um homem negro. Eles são a antítese do token black guy, a antítese do modelo inócuo e politicamente correto que Hollywood tenta empurrar. Sabe como é, tudo pelas minorias, mas sem as minorias.

Categoria: Sereias, Vanuccia não é Ariel Sobre: Cinema, vídeo e audiovisual Fonte: El País Brasil

Categoria: Sereias, Vanuccia não é Ariel
Sobre: Cinema, vídeo e audiovisual
Fonte: El País Brasil

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‘Manual do Escoteiro Mirim’ será relançado no Brasil

manual-do-escoteiro-mirim-abril-finalmente-confirma-preco-e-a-data-de-lancamento-de-obra-iconica-dos-anos-70802Quem ficar perdido numa selva cheia de feras agora pode ficar tranquilo. Um guia que ensina a se localizar pela posição do sol ou das estrelas, a se guiar por uma bússola ou a usar uma lanterna para se comunicar em código morse vai voltar as bancas.

A editora Abril Jovem anunciou nesta terça (23) que vai reeditar o “Manual do Escoteiro Mirim”, livro lido pelos sobrinhos do Pato Donald nas histórias em quadrinhos que foi lançado na vida real nos anos 1970.

No mercado de livros usados, a obra pode custar de R$ 80 a R$ 190.

Além do livro querido por Huguinho, Luisinho e Zezinho, a Abril Jovem pretende lançar outros títulos do tipo publicados à época, como os manuais do Tio Patinhas, do Professor Pardal ou do Zé Carioca.

Categoria: KiSuco Sobre: Gibis, HQ, Mangás, Desenhos animados, Programas infantis, Brinquedos

Categoria: KiSuco
Sobre: Gibis, HQ, Mangás, Desenhos animados, Programas infantis, Brinquedos

A editora não informou datas, mas afirma que o lançamento deve acontecer ainda este ano.

Nota
Umberto Eco caminha diante da estante de livros em sua casa. / ROBERTO MAGLIOZZI

Umberto Eco caminha diante da estante de livros em sua casa. / ROBERTO MAGLIOZZI

Nascimento: 5 de janeiro de 1932, Alexandria, Itália

Falecimento: 19 de fevereiro de 2016, Milão, Itália

Depois de tudo que disse de mau sobre o jornalismo, a existência da imprensa ainda é uma garantia de democracia, de liberdade, porque especialmente a pluralidade dos jornais exerce uma função de controle. Mas, para não morrer, o jornal tem que saber mudar e se adaptar. Não pode se limitar apenas a falar do mundo, uma vez que disso a televisão já fala. Já disse: tem que opinar muito mais sobre o mundo virtual. Um jornal que soubesse analisar e criticar o que aparece na Internet hoje teria uma função, e até um rapaz ou uma moça jovem leriam para entender se o que encontraram online é verdadeiro ou falso. Por outro lado, acho que o jornal ainda funciona como se a Internet não existisse. Se olhar o jornal de hoje, no máximo encontrará uma ou duas notícias que falam da Internet. É como se as rotativas nunca se ocupassem de sua maior adversária! As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.

Categoria: Tia Evanilde Sobre: Literatura e livros Fonte: El País Brasil

Categoria: Tia Evanilde
Sobre: Literatura e livros
Fonte: El País Brasil

“As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis.” – Umberto Eco

Em busca da edição de janeiro e esperando anciosa a de fevereiro

DISNEY ESPECIAL volta em janeiro

DisneyEspecialNo dia 22 de janeiro voltará às bancas um dos três títulos clássicos Disney que estavam fora de circulação: DISNEY ESPECIAL retorna com 244 páginas dedicadas a OS MOTORISTAS. O gibi não circulava desde 1999, quando atingiu sua 180ª edição. Uma versão um tanto descaracterizada, o NOVO DISNEY ESPECIAL, sobreviveu alguns anos depois por apenas 14 edições. Leia a seguir um pouco mais sobre o título e saiba quais serão os próximos temas.
DISNEY ESPECIAL DE VOLTA
No dia 22/jan/2015 será lançado OS MOTORISTAS, em formato 13,4 x 19 cm, 240+4 páginas, R$ 15,00.

A publicação será mensal e os primeiros volumes já estão assim definidos:

#1 OS MOTORISTAS (jan/2016)
#2 OS BANDIDOS (fev/2016)
#3 LAMPADINHA 60 ANOS (mar/2016)
#4 OS JORNALISTAS (abr/2016)

Diego Munhoz na arte-final. A direita arte original de Napoleão Figueiredo para DISNEY ESPECIAL [#182] OS BANDIDOS

Diego Munhoz na arte-final. A direita arte original de Napoleão Figueiredo para DISNEY ESPECIAL [#182] OS BANDIDOS

Nota: Assim como DISNEY TEMÁTICO, DISNEY ESPECIAL não terá numeração de capa por conta das regras vigentes de distribuição e recolha de revistas em bancas no Brasil. Assim, a editora poderá manter a edição e redistribuí-la de maneira mais viável do que se numerada fosse. Novamente, o número aqui atribuído será mera iniciativa do Planeta Gibi com a finalidade de manter a organização do título para os colecionadores e para efeito referencial.

Categoria: KiSuco Sobre: Gibis, HQ, Mangás, Desenhos animados, Programas infantis, Brinquedos Fonte: Planeta Gibi

Categoria: KiSuco
Sobre: Gibis, HQ, Mangás, Desenhos animados, Programas infantis, Brinquedos
Fonte: Planeta Gibi

30 anos sem o sambista Nelson Cavaquinho, poeta do juízo final

Nos sambas do compositor desfilam letras sobre desamores, despedidas e morte

Nelson Cavaquinho morreu no dia 18 de Fevereiro de 1986

O músico em documentário de Leon Hirszman, de 1969 Divulgação

O músico em documentário de Leon Hirszman, de 1969 Divulgação

30 anos atrás Nelson Cavaquinho desaparecia (dessa vez em definitivo) pela segunda vez na vida. Apesar de seus dois sumiços – ou de suas duas mortes, como provavelmente ele gostaria – sua figura continua sendo enigmática. Morreu em 1986, aos 74 anos, no Rio de Janeiro, mas sua voz rouca, suas músicas sombrias – que falam de desamores, despedidas e morte – ainda desnorteiam: não há em Nelson nenhum resquício do estereótipo do samba como uma música alegre, feita para agradar.

A primeira vez em que Nelson Cavaquinho desapareceu foi pouco antes da década de 1950. Nascido em 1911, fez sucesso até a metade do século passado quando a época áurea do samba (marcada por figuras como Carmem Miranda, Dalva de Oliveira e Dorival Caymmi) acabou. Ele e seu amigo Cartola, compositor de clássicos, como O Mundo é Um Moinho e As Rosas Não Falam, passaram anos de ostracismo artístico. Até que no início de 1960 foram redescobertos pela classe média carioca que buscava novos ares nos velhos morros cariocas.

Quando voltou, Nelson Cavaquinho já abandonara o cavaquinho que tinha lhe rendido o apelido na juventude. Seu instrumento agora era o violão, que ele tocou de forma única. Saído diretamente de um túnel do tempo, ele recendia há uma época passada, esquecida – ou que ao menos queria se esquecer. Se o Brasil se profissionalizava, Nelson era o símbolo do improviso, do amadorismo. Se éramos o país do futuro, ele era nosso passado de pé no chão. “Muito mais do que arcaico, Nelson parece ter nascido extemporâneo, na contramão da ‘promessa de felicidade’. É desse patamar que Nelson e Cartola compõem, esquecidos, mas também preservados”, escreveu no artigo Rugas, o artista plástico e ensaísta Nuno Ramos.

No entanto, ao contrário de Cartola que se fixou como um dos maiores sambistas brasileiros, Nelson Cavaquinho também é lembrado, mas em segundo plano. É que junto ao seu nome não é possível usar qualquer adjetivo que proponha sutileza ou conforto. Enquanto Cartola oferecia respostas e conselhos em suas músicas – Preste atenção, querida/ Embora eu saiba que estás resolvida/ Em cada esquina cai um pouco a tua vida/ Em pouco tempo não serás mais o que és –, Nelson oferecia incômodo puro e simples.

Em Nelson Cavaquinho, sambista e poeta, tudo remete ao final. Se, por exemplo, fala em folhas, lembra-se das secas. No Carnaval não há confete ou purpurina, mas partida para sabe-se lá quando voltar. E até sua barriga, na gíria cômica inventada por ele próprio, vira um cemitério de frango. Se o samba é muitas vezes um gênero que desconhece autores, confundindo-os nas coletâneas em que intérpretes desfilam pout-pourris recheados de clássicos, Nelson Cavaquinho é inconfundível.

Suas letras são sombrias, sua voz é rasgada, esculpida pelo excesso de álcool e tabaco barato. O modo como toca violão, usando apenas o polegar e o dedo mínimo, é dissonante, forte. Em um de seus sambas mais famosos, Nelson ordena: Tire o seu sorriso do caminho/ Que eu quero passar com a minha dor. Em outro, anuncia: É o Juízo Final, a história do bem e do mal/ Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer. E, num terceiro, pede: Me dê as flores em vida/ O carinho, a mão amiga/ Para aliviar meus ais/ Depois que eu me chamar saudade/ Não preciso de vaidade/ Quero preces e nada mais.

Suas letras são sombrias, sua voz é rasgada, esculpida pelo excesso de álcool e tabaco barato. O modo como toca violão, usando apenas o polegar e o dedo mínimo, é dissonante, forte.

Nenhuma história poderia ser mais Nelson Cavaquinho do que a do próprio Nelson Cavaquinho. Obcecado pelo final, ele viu seu fim ainda em vida e depois voltou só para lembrar os brasileiros, empolgados pela invenção da bossa-nova, pela vida dourada da zona sul carioca, do barro de que também eram feitos. Seu estilo, como escreveu Ramos, era uma espécie de anti-João Gilberto. Enquanto um busca o minimalismo, a sutileza, o outro escancarava as dores de se estar vivo. Ainda segundo o ensaísta, há no sambista o desejo e a recusa do moderno, coisa que caracteriza quase tudo o que o Brasil almeja ser. “Em Nelson, a vida é o que é, num certo sentido, aquilo que sempre foi. Por isso, não carrega ansiedade nem projeto. Parece tão desejável quanto a morte”.

E, contudo, apesar de ser provavelmente o sambista que mais escreveu sobre o fim, a imagem que talvez melhor defina sua personalidade é a do mito que diz que ele próprio, Nelson Cavaquinho, tremia de medo ao pensar em seu juízo final. Conta-se que ele passou uma madrugada inteira atrasando o relógio: a ideia era que, desse modo, ele poderia enganar a morte. Sabe-se hoje que a tática não deu certo, mas Nelson, de um jeito ou de outro, ao mexer nos ponteiros, conseguiu permanecer parado no tempo, dentro do passado de onde veio. E, por isso mesmo, é hoje uma ponte para o que o Brasil foi e deixou de ser.

Categoria: Espaço Carmen Miranda Subcategoria: Augusto de sapato novo Sobre: Música brasileira - MPB Fonte: El País

Categoria: Espaço Carmen Miranda
Subcategoria: Augusto de sapato novo
Sobre: Música brasileira – MPB
Fonte: El País

“Heroes”: como fazer um clássico de Bowie

Texto de André Barcinski.

Escrevi ontem aqui no blog sobre a série “Music Moguls”, da BBC Four (leia aqui).

Um dos trechos mais interessantes mostra o produtor Tony Visconti contando como gravou “Heroes” (1977), a faixa clássica de David Bowie, no estúdio Hansa, em Berlim.

Achei no Youtube uma versão estendida do papo com Visconti (veja aqui).

– Ele começa contando que a fita original da sessão está muito velha e corre o risco de quebrar se usada repetidas vezes, por isso todas as pistas foram copiadas digitalmente.

Visconti mostra a “backing track”, a base da música, apenas com George Murray no baixo, Carlos Alomar na guitarra, Dennis Davis na bateria, Bowie tocando piano e Brian Eno fazendo “lindos barulhos espaciais” com um pequeno sintetizador. “Aqui estão os cinco músicos tocando juntos”, diz Visconti. “A canção ainda não tinha vocal, melodia, forma ou estrutura. Não tínhamos nem o nome para ela”.

– Murray usa no baixo um flanger, uma espécie de eco. Visconti diz que os produtores costumam gravar instrumentos “limpos”, sem efeitos, e adicionar os efeitos depois, mas que ele e Bowie sempre preferiram gravar o instrumento com o efeito, para que isso não pudesse ser mudado depois.

– Visconti mostra sons feitos por Brian Eno em seu pequeno sintetizador e por Bowie num velho sintetizador chamado Solina (foto abaixo): “Um som meio brega”.

Tony Visconti, Brian Eno, David Bowie

Tony Visconti, Brian Eno, David Bowie

– Uma semana depois, chamaram Robert Fripp, guitarrista do King Crimson, para colaborar. Fripp gravou três solos, todos usando microfonia, que ele obtinha se aproximando e se afastando do amplificador, enquanto Brian Eno manipulava o som com um sintetizador. “Não existe um pedal de guitarra que faça esse som. Ele é resultado de dois caras muito espertos trabalhando em conjunto”. Na foto abaixo, Eno, Fripp e Bowie trabalham em “Heroes”:

Robert Fripp, Brian Eno, and David Bowie

Robert Fripp, Brian Eno, and David Bowie

– Visconti diz que os três pequenos solos de Fripp eram muito bonitos e marcantes, mas que não funcionavam na canção. Até que ele teve a ideia de juntar os três. “E aí veio aquele som celestial de Fripp!”.

– Bowie tinha um Chamberlin (foto abaixo), um antigo synth com diferentes timbres. Ele tocou um “riff” que, segundo o produtor, lembrava as canções da gravadora norte-americana Stax, meca da soul music dos anos 60, e usou o timbre de “Naipe de Metais”. “Não é um bom som de metais, mas está na mixagem”.Bowie-ARP-Solina

– “Bowie é muito impaciente no estúdio. Se queremos um cowbell (espécie de agogô) e não tiver nenhum, ele sai batendo em qualquer pedaço de metal até conseguir o som que deseja. Esse sou eu batendo com uma baqueta de bateria ou um garfo, não lembro bem, em um rolo metálico.”

– Visconti diz que Bowie não tinha a letra da música e escrevia no próprio estúdio. Um dia, incapaz de se concentrar, pediu a Visconti e à cantora Antonia Maass, com quem Visconti estava namorando, que saíssem por algum tempo do estúdio para ele terminar de escrever a letras. Tony e Antonia foram dar um passeio próximo ao Muro de Berlim, que ficava ao lado do estúdio, e se beijaram. Bowie viu a cena da janela e a incorporou na letra:

I can remember / standing, by the wall / and the guns, shot above our heads / and we kissed, as though nothing could fall

Eu me lembro / de pé, junto ao muro / e as armas disparando sobre nossas cabeças / e nos beijamos, como se nada pudesse cair

– Visconti conta que, ao fim das gravações, só tinha uma pista (“track”) livre para gravar os vocais. Ele e Bowie queriam que os vocais, do meio da canção para a frente, tivessem um grande eco. “Se eu tivesse três pistas poderia gravar os trechos separadamente, mas só havia uma pista, então tivemos de ser criativos”.

A solução foi colocar três microfones no estúdio. Bowie ficou de um lado da grande sala do estúdio Hansa, com um microfone à sua frente. No meio da sala, a cerca de sete ou oito metros, Visconti colocou o segundo microfone, e na outra extremidade do estúdio, a uns 18 metros de Bowie, o terceiro. O segundo e terceiro microfones foram conectados a um dispositivo que os ligava de acordo com o volume da voz de Bowie. Se ele cantasse baixinho, sua voz só seria captada pelo microfone à sua frente. Se aumentasse o volume da voz, o segundo microfone ligaria e captaria a voz de Bowie com um pouco de eco. Se Bowie gritasse, o terceiro microfone dispararia e gravaria a voz com muito eco. O resultado está na canção.

– Por fim, Visconti mostra os “backing vocals” (“vocais de apoio”) que ele e Bowie gravaram para a música. “Se você prestar atenção, vai ouvir um sotaque britânico e um do Brooklyn”.

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Sobre o autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil. Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por "Barulho - Uma Viagem ao Underground do Rock Americano" (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário "Maldito" (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins

Categoria: Vai ser pra mim
Sobre: Textos de outros autores
Sobre o autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil.
Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por “Barulho – Uma Viagem ao Underground do Rock Americano” (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário “Maldito” (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins

Isso, amigos, é um produtor.

Um ótimo fim de semana a todos.

Chico Buarque: “A música brasileira não exclui, assimila”

Chico Buarque, “um sujeito magro e tímido, simples e sorridente”. / LUIZ MAXIMIANO

Há apenas uma coisa mais difícil de encontrar do que alguém que fale mal de Chico Buarque no Brasil: uma mulher que não seja apaixonada por ele. Olhos fascinantes de uma cor estranha entre verde, azul e cinza são uma lenda nacional. Suas canções, por si só, já fazem parte da história, da herança e da identidade diária de um povo. Por isso, é um pouco intimidante se aproximar do edifício de um bairro nobre do Rio de Janeiro, onde o cantor mora, e subir no elevador imaginando o que te espera atrás da porta. O que se encontra é um sujeito magro e tímido, simples e sorridente, que esperava sentado sozinho em uma cadeira e assim que vê o recém-chegado o convida para um café que acabou de fazer. A sala de estar de Chico, aberta em três paredes de vidro com vista para várias praias do Rio, goza de uma paisagem deslumbrante nesta bela tarde ensolarada e iluminada de fim de verão. Ao fundo, em um canto, há um violão e um piano, ao lado de uma enorme foto na qual Chico aparece ao lado de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, dois dos lendários criadores da bossa nova.

Sobre uma mesa repousa o novo romance do artista, O Irmão Alemão (Companhia das Letras). Nele, Chico (1944) narra seu choque ao saber, já adulto e de forma inesperada, que seu pai, o famoso historiador Sérgio Buarque de Hollanda, teve um filho na Alemanha, em 1930, quando era correspondente em Berlim para um jornal brasileiro. Nem Chico sabia até então que tinha um irmão na Alemanha, nem esse irmão alemão jamais soube que era parente de um dos cantores mais famosos do Brasil já que morreu, em 1981, ignorando quase tudo sobre seu pai biológico. O escritor disfarça um pouco os fatos, mas nas páginas do romance desfila a São Paulo dos anos sessenta e setenta, menos gigante e desumana do que a atual, e sua própria juventude um pouco desregrada. Também emerge a ditadura sinistra, à qual Chico se opôs desde o início e que o levou a buscar o exílio, em 1969. Mas, acima de tudo, revela a casa da família, repleta de cima a baixo com livros de seu progenitor. Era um pai amável, mas distante, carinhoso, mas distraído, e um pouco ausente, sempre imerso em leituras intermináveis e envolto em uma nuvem de fumaça de um cigarro continuamente aceso. No romance, o protagonista, um sósia do próprio Chico, enquanto folheia um dos livros da imensa biblioteca do pai, nota um envelope perdido entre as páginas que guarda uma velha carta em alemão, que lhe dá pistas sobre aquele irmão que nunca conheceu. Na verdade, a descoberta não foi tão literária.

Pergunta. Quando soube que tinha um irmão?

Resposta. Soube exatamente em 1967, quando tinha 23 anos. Lembro-me muito bem, inclusive há uma foto desse dia. Vinicius de Moraes, Tom Jobim e eu fomos visitar o poeta Manuel Bandeira, que já estava muito velhinho, em sua casa no Rio. E, então, falando disso e daquilo, Bandeira perguntou por meu pai, de quem era muito amigo: “Como o Sérgio está? Ah, quanto tempo não o vejo, vivemos tantas coisas juntos… Foi para a Alemanha, teve aquele filho…”. E aí soltou isso.

P. O que você fez?

O cantor e escritor Chico Buarque. / LUIZ MAXIMIANO

R. Então lhe disse: “Mas que filho?”. E aí o Vinicius respondeu: “Mas você não sabia disso, do filho?”. E eu: “Não”. Eu não sabia nada. Era um segredo de família. Depois daquele dia, falei com meus irmãos e com meu pai. Falei com o meu pai, sim, mas sempre havia uma barreira na hora de perguntar a ele. Escrevendo este novo livro me questionei por que não perguntei mais. Mas havia um receio, um impedimento. Não é que meu pai tenha me proibido de perguntar sobre a questão do filho, mas me sentia um pouco desconfortável sobre o assunto. Em relação à minha mãe e ao meu pai.

P. E isso se tornou uma obsessão ao longo dos anos? Porque você continuou investigando, principalmente após a morte de seu pai, em 1982. Até mesmo a editora que iria publicar o livro, a Companhia das Letras, contratou dois detetives para ajudá-lo na investigação.

R. Não, não, não eram detetives [risos]. Eram historiadores. Um deles era um brasileiro que, por acaso, estava na Alemanha quando comecei a escrever o livro, há três anos. É verdade que foi contratado pela editora. Ele conhecia um documentalista alemão especializado em imigração alemã no estado de Santa Catarina. Eles descobriram que meu irmão, na verdade, se chamava Sérgio Günther e havia sido adotado por uma família quando pequeno. A verdade é que, quando comecei a escrever o livro, tinha muito pouca informação. Mas nem precisava. Nem sequer pretendia encontrá-lo. A história não ia por aí. Mas aconteceu que, enquanto escrevia, um dos meus irmãos, que vive no apartamento da minha mãe, que morreu há cinco anos, encontrou em uma gaveta alguns documentos que tinham dados para puxar o fio. Eu tinha 50 páginas do livro, que deixei como estavam. Mas a realidade se intrometeu na redação para sempre.

P. A história que o senhor narra no romance é boa, mas a realidade na qual se apoia também.

R. Sim, deveria escrever outro livro, porque, no final, o romance acaba competindo com a história real, que é muito impressionante.

É verdade. Através desses documentos, Chico tomou conhecimento de duas coisas: que seu pai havia solicitado às autoridades alemãs que enviassem seu filho fornecendo a documentação necessária ou, pelo menos, conseguir que ele recebesse uma pensão que prometia enviar. A segunda é que a mãe biológica tinha decidido, em meio à convulsão enfrentada pela Alemanha da época, entregar o menino ao Estado para que fosse adotado. Uma carta enviada a seu pai, em 1934, pela Secretaria da Infância e Juventude de Berlim (e que terminava com um rigoroso “Heil Hitler!”) pedia a Sérgio Buarque de Hollanda que, para que seu filho fosse adotado pela família alemã Günther, que estava interessada na criança, deveria encaminhar o mais rapidamente possível certificados que comprovassem a religião católica do pai. Chico, ao ler a carta, imaginou, com assombro e espanto, que as autoridades alemãs exigiam isso para que ficasse evidente que o pequeno Sérgio não tinha sangue judeu nas veias. Caso contrário, em vez de uma família qualquer, ele poderia ter sido transferido para um campo de concentração. Os historiadores finalmente conseguiram, em 2013, identificar o irmão, Sérgio Günther, que morreu em 1981, e localizar sua ex-esposa, filha e neta. Poucos meses depois, Chico viajava a Berlim para conhecer a outra parte de sua família e saber mais sobre seu meio-irmão.

P. E soube que seu irmão tinha sido um cantor…

R. Sim, ficou bem conhecido na Alemanha Oriental como cantor e apresentador de televisão. Quando soube que tinha sido cantor, senti uma emoção forte. E sabe, quando ouvi um de seus álbuns percebi que tinha a voz grave do meu pai. Porque meu pai gostava muito de cantar. E soava igual.

P. Tinham mais coisas em comum?

R. Ambos morreram de câncer de pulmão. Meu pai fumava muito. Quando conheci a família do meu irmão, sua viúva (uma de suas viúvas, porque ele se casou mais de uma vez) me disse que Sérgio Günther arrancava o filtro dos cigarros que fumava. Exatamente como meu pai. Coisas assim que arrepiam. Todo mundo lá me disse que minha música A Banda havia sido traduzida ao alemão e era bem conhecida na Alemanha Oriental, com uma letra muito diferente e um pouco absurda, na verdade. Portanto, não é estranho que meu irmão tenha realmente me ouvido cantar. É uma maneira de ter me conhecido um pouco, certo?

P. Alguma vez teve curiosidade de saber quem era seu pai biológico?

R. Sua viúva me disse que, em um determinado momento, sim, que perguntou na Embaixada brasileira, mas na época a Alemanha Oriental era um país muito fechado, com poucas possibilidades de conseguir informação.

P. No livro, o protagonista, parecido com o senhor, rouba carros para se divertir. O senhor fazia a mesma coisa?

R. Sim. Ia com um grupo de adolescentes do bairro, eram os tempos de James Dean, rock and roll, de uma juventude um pouco rebelde. Por isso que nosso esporte era roubar carros, circular com eles pela cidade e depois deixá-los no fim do mundo. Fui para a cadeia por isso uma vez. A polícia me deu uma surra. Bom, mas isso já havia contado. Eu mesmo disse antes que descobrissem. Tive sorte porque no dia que me prenderam meus pais não estavam em casa, estavam viajando, e foi minha irmã que me buscou. Eu então era bastante…, enfim, dei muito trabalho para minha família.

P. Ao mesmo tempo, era muito bom leitor, certo?

R. Sim, é verdade. Foi também uma maneira de me aproximar de meu pai, que passou a vida entre livros. Eu diria que, antes de ser músico, queria ser escritor. Até que a música apareceu na minha vida e embarquei nela. Mas não abandonei a ideia de me dedicar à literatura. Nos anos setenta, publiquei meu primeiro romance, nos oitenta, o segundo. Desde então alterno as duas coisas. Quando faço uma, não faço a outra, porque me consomem muito. Quando estou escrevendo nem sequer ouço música.

P. Mas são atividades assim tão diferentes?

R. Para mim, sim. Muito. E ainda assim minha escrita é muito influenciada por minha música. Talvez algo se perca nas traduções, mas meus textos tentam carregar algum ritmo musical. Além disso, tenho que alternar as duas coisas porque, pelo menos no Brasil, é muito difícil para um escritor viver apenas de literatura. Os escritores trabalham como funcionários públicos, professores, jornalistas… E tudo isso está tão longe da literatura quanto da música. O fato de ser jornalista, por exemplo, não lhe dá a habilidade de escrever literatura, acredito.

P. Comenta-se que cada vez escreve mais e compõe menos.

R. Componho menos do que aos 20. É normal. A música popular é mais uma arte da juventude, com o tempo você vai perdendo, não sei, não o interesse, mas ela já não flui com a abundância daqueles primeiros anos. Tenho que me esforçar mais, procurar mais, é mais difícil. No começo você tem um milhão de ideias, tudo em torno serve para fazer uma canção. Depois vai ficando mais insípido, menos inspirador.

P. Ainda acredita que o melhor de um show é quando acaba?

R. [Risos] Eu realmente não gosto muito de fazer shows não, mas tenho de fazer. Quando lanço um novo disco, me dá vontade de sair por aí e cantar em público. Além disso, com isso depois posso passar dois anos escrevendo. Caso contrário, iria à falência.

P. Por que a música popular brasileira é tão conhecida e a literatura não?

R. Pode ser porque seja pior, mas acho que não. É verdade, por exemplo, que a Argentina é um povo mais literário do que o brasileiro. E os escritores brasileiros também jogam com uma desvantagem, porque o português é mais desconhecido. E a riqueza musical brasileira é facilmente exportável, não precisa de tradução.

P. Por outro lado, por que a música brasileira é tão aceita, tão apreciada?

R. Porque, principalmente depois da bossa nova, tem a influência negra, é filha do samba, mas com um toque de jazz, um toque harmônico. E também tem influência dos grandes compositores da música clássica. Veja: Tom Jobim, nosso grande mestre, era um conhecedor profundo de Chopin e Debussy, dos impressionistas, entre muitos outros. E tudo isso está em nossa música, misturado, junto com os boleros cubanos e os ritmos mexicanos. O Brasil não exclui, assimila. O resultado foi complexo, rico e único.

P. Como era esse mundo? Como era conviver com Jobim, Vinicius?

R. Ah! Eles… eram acima de tudo grandes amigos. Olhe aquela foto, estou com os dois. Eu realmente comecei a me emocionar de verdade com a música, a decidir fazer canções a sério depois da canção Chega de Saudade, composta por Tom Jobim e Vinicius e interpretada por João Gilberto. Eu os tinha em um altar. Já conhecia Vinicius porque era amigo do meu pai, mas, para mim, era como falar com um monumento. Por isso, a primeira vez que vim ao Rio para conversar com Tom Jobim, imagine, era um sonho. Com o tempo se tornaram meus amigos, meus parceiros, fiz muitas canções com eles, fui aceito nesse seleto grupo da música popular brasileira.

P. Foi Tom Jobim que disse que o Brasil não era um país para amadores, correto?

R. Sim, e assino embaixo. É um país único, fruto da colonização portuguesa, com emigrantes de todo o mundo, italianos, alemães, árabes, japoneses, com a marca dos escravos trazidos à força… E com origens indígenas antes disso tudo. Tudo isso está presente agora. Em São Paulo, sem ir muito longe, você pode procurar nomes indígenas em muitas ruas. Essas circunstâncias criam um país único.

P. O senhor sempre teve uma posição política clara e explícita. Se opôs à ditadura e apoiou Lula e Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.

R. Sempre me perguntam quando há eleições. Eu tomo partido e não tenho qualquer problema em declarar isso. Sempre apoiei o PT, agora a Dilma Rousseff e antes o Lula. Apesar de não ser membro do partido, de ter minhas desavenças e de votar em outros candidatos e outros partidos em eleições locais. Mas sempre soube que o problema deste país é a miséria, a desigualdade. O PT não resolveu tudo, mas conseguiu atenuar. Isso é inegável. O PT tem melhorado as condições de vida da população mais pobre.

P. E como o senhor vê a situação atual?

R. Muito confusa, não há nenhuma maneira de saber o que vai acontecer nos próximos anos. A crise econômica é forte. É preciso tomar certas medidas impopulares. Ao mesmo tempo, a oposição é muito dura. E depois há uma onda de manifestações nas ruas que, na minha opinião, não têm um objetivo concreto ou claro. Entre aqueles que saem às ruas há de tudo, incluindo loucos pedindo um golpe militar. Outros querem acabar com o Partido dos Trabalhadores, querem enfraquecer o Governo para que, em 2018, o PT chegue desgastado nas eleições. O alvo não é a Dilma, mas o Lula; têm medo que Lula volte a se candidatar.

P. E, para terminar: como se vive sabendo que é o homem mais desejado do país?

R. Isso já faz muito tempo.

P. E continuam dizendo.

R. Não sei nada sobre isso. Sou tímido, um cidadão sério, um homem de família. Inventam histórias, criam lendas que não têm muito a ver com a realidade. Não sou o sedutor que comentam.

A entrevista termina e o cantor tenta chamar um táxi para o jornalista através de um aplicativo do celular. Mas não consegue. “Minha neta sabe, mas eu não aprendo”, explica. Observa o bonito entardecer e diz: “Eu o acompanho.” Coloca shorts, um boné que esconde o rosto e caminha, junto ao jornalista, rua abaixo pelo Rio de Janeiro, falando dos pais, dos livros, das famílias e da música.

Chico Buarque

Rio de Janeiro, 1944. Ele é filho do conhecido historiador Sérgio Buarque de Hollanda e da pintora e pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Começou a estudar arquitetura, mas abandonou o curso depois de dois anos, quando sua carreira como compositor e intérprete começou a deslanchar. Em 1966, conseguiu seu primeiro grande sucesso com a canção A Banda. Desde então, não parou de compor obras-primas como Apesar de Você, Construção, O Que Será (À Flor da Pele) e Cálice. É considerado um dos grandes nomes da música popular brasileira, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, entre outros. Em paralelo, desenvolveu sua carreira como escritor e dramaturgo. O Irmão Alemão, publicado pela Companhia das Letras, é seu quinto romance.

Categoria: Espaço Carmen Miranda Subcategoria: Augusto de sapato novo Sobre: Música brasileira - MPB Fonte: El País

Categoria: Espaço Carmen Miranda
Subcategoria: Augusto de sapato novo
Sobre: Música brasileira – MPB
Fonte: El País