Kid Vinil – “Uns 10 mil vinis e mais uns 10 mil CDs!”

No anos 70, em Londres, Nos anos 80 com o Magazine, Na Tower Records, em Londres, Kid Vinil Xperience, Com Glenn Hughes, com Jô Soares, Com Chris Robinson (Black Crowes), Na Brasil 2000, Com Joey Ramone e com Ian Gillan

No anos 70 em Londres, nos anos 80 com o Magazine, na Tower Records, em Londres, Kid Vinil Xperience, com Glenn Hughes, com Jô Soares, com Chris Robinson (Black Crowes), na Brasil 2000, com Joey Ramone e com Ian Gillan

Kid Vinil é uma lenda. Músico, radialista, crítico musical, apresentador de TV, já fez de tudo no mundo da música. Mas o que pouca gente sabe é que Kid possui uma das coleções mais completas, abrangentes e impressionantes do Brasil. Nesta longa conversa Kid contou como surgiu a sua paixão pelo rock, apresentou a sua coleção e deu várias dicas de grupos que valem a pena conhecer. Então sente na cadeira, puxe o bloco de anotações e curta com a gente as histórias de Kid Vinil.

Kid Vinil, antes de mais nada eu gostaria de agradecer a você por esta entrevista. Para começar eu gostaria que você se apresentasse aos nossos leitores.

Bem, meu nome verdadeiro é Antônio Carlos, mas sou mais conhecido como Kid Vinil. Tenho 51 anos, sou brasileiro, nascido em Cedral (SP). Comecei minha carreira como locutor de rádio em 1979 na extinta Excelsior FM. Fiz o primeiro programa de punk e new wawe do rock brasileiro. O apelido Kid Vinil aconteceu justamente nessa época e acabou sendo o nome do meu programa de rádio. Na época eu estava me formando em jornalismo. Paralelo à minha carreira radiofônica eu tinha minha banda, o Verminose, que tocava punk, rockabilly e new wave. Por volta de 83 mudamos o nome para Magazine e estouramos em todo país com os hits “Sou Boy” e “Tic Tic Nervoso”. O Magazine é uma versão mais new wave e mais pop do Verminose. A banda durou até 85, quando junto com o guitarrista André Christovan eu formei o Kid Vinil & Os Heróis do Brasil. Gravamos apenas um disco e o grupo acabou em 89. Nos anos noventa fiz um disco solo na RGE e reformamos o Magazine para shows, e em 2002 gravamos um cd da volta do Magazine pela Trama chamado “Na Honestidade”. Atualmente me apresento com a banda Kid Vinil Xperience, que toca um repertório bem variado, incluíndo os hits do Magazine, novas composições e algumas covers. Voltando à carreira radiofônica, já estive em quase todas as rádios rock de SP e fiz programas variados durante todos esses anos. Mais recentemente estava na Brasil 2000, onde cheguei até a cuidar da programação durante um ano e fiz diversos programas. Na TV apresentei no final da década de 80 o programa “Boca Livre” da TV Cultura, e nos anos noventa o “Som Pop”. Em 2000 apresentei na MTV o programa “Lado B”. Atualmente, além da banda sou DJ de festas de “rock alternativo” e festas temáticas de “anos 80”. Sei que já faz algum tempo, mas você lembra como foi o seu primeiro contato com a música e, mais especificamente, com o rock? Foi através da minha família. Meu pai é fã de Elvis e meu irmão dos Beatles. Foi assim que caí na vida.

Toda grande coleção tem o que eu chamo de o seu “ponto zero”, o seu marco inicial. Aquela hora em que nós, colecionadores, percebemos que somos diferentes dos nossos amigos, que apenas “consomem” música. A dedicação é maior, o investimento é maior, o cuidado com tudo é maior. Quando você percebeu que estava se transformado de um simples fã em um colecionador?

Acho que a partir do momento que eu comecei a ganhar uma grana para poder ter os discos que eu queria. Mas desde o inicio da década de setenta eu sonhava com isso. Guardava todos os trocados que eu tinha para comprar os LPs importados no Museu do Disco (loja lendária da década de 70 localizada no centro de SP)

Sacia a minha curiosidade: sei que a sua coleção é gigantesca, mas quantos álbuns no geral você possui?

Não sou um cara organizado que sai cadastrando e numerando seus discos, pois moro num apartamento pequeno e os discos ficam espalhados pela casa inteira, mas eu calculo, entre LPs, remixes e compactos de 7 polegadas, uns 10 mil vinis, e CDs também estou próximo de mais dez mil (originais).

Imaginei que seriam milhares, mas é realmente um acervo impressionante. Para dizer a verdade, o maior que já publicamos aqui na Collector´s Room. Entre todos estes itens, de quais grupos você possui mais material?

Talvez de bandas mais famosas e que desfrutam de uma discografia grande, como Beatles e Rolling Stones, isso incluindo bootlegs, edições raras, etc.

Além dos CDs, vinis e DVDs, com certeza você possui diversos outros itens na sua coleção, certo?

Na verdade, devido ao tamanho do lugar onde moro, não daria para comportar mais coisas além do que mais gosto, que são meus vinis, CDs e DVDs. Tenho revistas de rock tipo Mojo, Record Collector, NME, Uncut e outras mais underground, mas não dá para colecionar, quando vejo que tá ocupando espaço eu me desfaço delas. Outras bugigangas relacionadas ao rock, acho que não, nunca me interessei em colecionar peças de museu, ou guitarra de alguém, prefiro o disco.

Imagino que as pessoas não começaram a chamar você de Kid Vinil à toa. Conta para nós qual é a origem e como surgiu este apelido.

Na verdade o apelido surgiu por causa do programa de rádio em 79. Eu tinha voltado de Londres e tinha visto toda aquela movimentação punk por lá, daí queria fazer o programa de rádio, então precisava de um apelido. Pensamos em “Kosmo Vinyl”, que era o nome do tour manager do The Clash, mas seria muita cara de pau roubar o nome do cara, daí fiz uma composição. Tinha um DJ da BBC Radio chamado Kid Jensen, então eu emprestei dos dois e criei o “Kid Vinil”, que por acaso ficou legal, pois eu era um aficcionado por vinil.

Eu costumo dizer que, apesar do amplo horizonte que a música nos proporciona, abrindo as nossas cabeças, o rock ainda é, sem dúvida, o estilo mais apaixonante que existe. Neste sentido, você consegue contar para gente como foi a sua história, a sua trajetória dentro do rock and roll?

Primeiro foi Elvis, Paul Anka e depois Beatles e Stones. Mais tarde, quando eu tinha meus 12 anos, comecei a ouvir Hendrix e Janis Joplin, aos quatorze Black Sabbath e Led Zeppelin, Slade, Alice Cooper, The Who, Neil Young e toda geração Woodstock. Aos dezoito conheci Frank Zappa, me aprofundei em Bob Dylan, Jefferson Airplane, Grateful Dead e toda a geração psicodélica californiana. Aos 20 anos comecei a me interessar por jazz rock e ouvir de Miles Davis a Chick Corea, Mahavishinu Orchestra e Weather Report. Mergulhei no rock progressivo do King Crimson, Emerson Lake & Palmer, Yes, Pink Floyd, Genesis e toda geração progressiva. Em 74, cansado de tudo isso, comecei a ouvir David Bowie, Lou Reed, Stooges, MC5, T. Rex e Patti Smith. Alguns anos depois caí de cabeça no punk e na new wave do Television, Blondie, Elvis Costello, Ramones, Clash, Vibrators, Pistols, etc. Daí vieram outras tendências, o pós punk do PIL e do Gang of Four, os anos oitenta de Siouxsie, Cure, U2, Joy Division, New Order, Echo, Smiths, etc. Nos anos noventa o grunge do Nirvana e Mudhoney e o britpop do Suede, Pulp, Blur e Oasis, até os dias de hoje, quando ouço Arctic Monkeys e gosto de verdade, como continuo gostando de Sonic Youth.

Vamos voltar um pouco no tempo então: qual foi o primeiro álbum que você comprou?

Aos onze anos de idade comprei a trilha do filme “Yellow Submarine” dos Beatles, porque vi o filme e adorei a trilha.

Qual o item que você considera o mais raro da sua coleção?

Hoje fica difícil especificar algum item raro, pois quase tudo sai em CD e o vinil acaba perdendo um pouco o seu valor. Mas tem coisas que mesmo tendo sido editadas em CD ainda valem em vinil, como os títulos lançados pelo selo inglês Vertigo durante o final dos anos 60 e começo dos 70. Um dos que eu considero precioso é uma banda chamada Dr Strangely Strange, o disco chama-se “Heavy Petting”, a capa foi feita pelo Roger Dean (que fazia as capas do Yes) e lutei para conseguir uma cópia no eBay, que me custou mais de 100 dólares.

Kid, todo colecionador sonha, ou já pensou, naquele dia em que vai chegar a uma loja e comprar todos, literalmente todos, os álbuns que tem vontade. Infelizmente, na vida real isso fica um pouco mais difícil (risos), mas a gente continua sonhando. Então, qual foi o maior número de álbuns que você comprou de uma única vez?

Isso foi há uns três anos atrás, quando eu trabalhava na Trama e na MTV. Viajei para Londres e fui num atacadista de discos raros da década de setenta principalmente (mas relançamentos em vinil). Tem um selo italiano chamado Akarma, que lança tudo em vinil e CD, eles devem ter uns 200 títulos no catálogo, lembro que comprei todos os LPs e os CDs.

Como jornalista, apresentador, músico e referência em rock, você recebe muito material de gravadoras e artistas, e com certeza muitos destes itens não são do seu gosto pessoal. Você guarda todo este material promocional, ou fica só com o que realmente curte e repassa o restante?

Realmente fico somente com aquilo que me interessa, apesar que as gravadoras já sabem do meu gosto musical e se preocupam em me mandar só as coisas de rock que sabem que eu gosto. Nunca me mandaram discos de axé ou samba, aaaargh…

Apesar de receber todo este material, você ainda continua comprando itens para a sua coleção? Se sim, quantos álbuns em média você compra por mês?

Hoje eu compro muito menos discos, geralmente compactos de 7 polegadas (o chamado compacto simples) pelo correio das bandas estreantes inglesas. Tudo que é banda na Inglaterra lança suas primeiras músicas em compacto de vinil. Além dos compactos às vezes compro algum CD que eu sei que não vai ser lançado aqui.

Qual o item que você tem mais ciúmes, tem um carinho especial e não venderia de jeito nenhum?

Eu tenho ciúme de todos os meus discos, jamais vendo ou me desfaço de qualquer um deles, não sei especificar um em especial.

Entre todos os itens que você possui, quais foram os que deram mais trabalho para conseguir?

Alguns itens eu entrei em leilões no eBay, como o “Yardbyrds Live” de 1968 (esse disco é considerado um embrião ao vivo do Led Zeppelin, pois tem Jimmy Page na guitarra), é bastante raro e custou para conseguir. Alguns títulos do selo Vertigo (Ramases, Still Life), os lançamentos limitados em vinil do selo Shadocks da Alemanha (esse selo chegou até a lançar coisas obscuras do rock brasileiro como Sound Factory, Geração Bendita, Paebiru, Bango). A minha coleção de vinis do Canned Heat, a minha banda favorita de blues psicodélico. Outra coleção de vinis que eu prezo muito e sofri para conseguir todos foi do grupo canadense The Guess Who, que era uma banda pop da década de sessenta e que nos anos setenta deu origem ao BTO (Bachman Turner Overdrive).

Apesar de tudo o que você possui, existem alguns álbuns que você deseja e ainda não conseguiu para a sua coleção?

Na verdade exitem alguns do selo Vertigo que me faltam, mas custam muito caro, como:

Manfred Mann – Chapter Tree – Volumes One & Two
Legend – Legend
Nirvana – Local Anesthetic (esse era o Nirvana progressivo)

Kid, você possui algum lugar específico para guardar a sua coleção? E, além disso, tem alguma dica de como conservar todos estes itens?

Como eu falei anteriormente, moro num minúsculo apartamento e meus discos estão espalhados em várias estantes, cada uma tem uma ordem que só eu entendo. Outra parte está em caixas e daí vira uma puta zona. Conservação também fica difícil pela quantidade, só evito local úmido e coloco sempre capinhas de plástico para protegê-los melhor. Limpeza no máximo uma flanela umedecida com água, simplesmente para tirar o pó.

Eu queria que você fizesse agora um top#5 com os itens do seu acervo que você mais curte.

Neil Young – On The Beach
Alice Cooper – Easy Action
Aphrodites Child – 666
The Faces – A Nod Is Good As Wink To A Blind Horse
Slade – Slade Alive

Tenho certeza de que você já fez esta lista, mas vou perguntar do mesmo jeito: para você, quais são os dez melhores álbuns de todos os tempos?

Beatles – White Album

Rolling Stones -Exile On Main Street

Sex Pistols – Never Mind The Bollocks, Here´s The Sex Pistols
The Clash – London Calling
The Smiths – The Queen Is Dead
David Bowie – Ziggy Stardust And The Spiders From Mars
Bob Dylan – Blonde On Blonde

Lou Reed – Berlin
Stone Roses – Stone Roses

Oasis – Definitely Maybe

Sonic Youth – Daydream Nation
Pixies – Surfer Rosa

Podem ser doze?

Podem sim. E atualmente, nos últimos dois, três anos, que grupos tem chamado a sua atenção? E mais, que grupos você tem ouvido atualmente e que destacaria para os nossos leitores?

– Bell Rays

– Dirtbombs
– Drive By Truckers
– Arcade Fire
– Hard Fi
– The Kooks
– Detroit Cobras
– Forward Russia
– Guillemots

– The Cirbs

– The Spinto Band
– The Rakes
– Wolfmother
– We Are Scientists
– The Pipettes
– The Editors
– Secret Machines
– Band Of Horses
– The Elected
– Islands

Certamente, no meio de todo este acervo, deve existir alguns itens que você olha e pensa “nossa, porque eu comprei este disco?”. Então, vamos lá: qual é o item mais estranho da sua coleção, e também que álbuns as pessoas ficariam surpresas em saber que você possui?

Meu gosto é bem variado, tenho blues, jazz, country, folk. Uma vez o Massari veio fazer uma matéria em minha casa para a MTV e viu um disco da dupla Sony & Cher e um da Cher e ele achou muito estranho eu gostar da Cher, mas na verdade eu curto a Cher na década de 60, antes dela fazer sucesso no cinema, quando ela cantava baladas como “I Got You Babe”, que mais tarde o UB40 regravou com a Chrissie Hynde dos Pretenders. Tenho coisas bizarras em vinil, como as trilhas dos filmes B do Russ Meyer.

A Collector´s Room tem apresentado diversas coleções imensas, verdadeiros acervos históricos, literalmente impressionantes. Qual a sua opinião a respeito destes fãs dedicados que possuem, na maioria das vezes, mais material do que os próprios integrantes dos grupos dos quais são fãs?

Nunca fui muito chegado em fanatismo, gosto de ter sim os discos mais importantes de um grupo ou artista, o resto eu dispenso, mas tudo bem, “cada louco com a sua mania”.

O rock já está aí há mais de cinquenta anos, e passou por diversas fases neste tempo todo. Sendo assim, eu gostaria que você indicasse aos nossos leitores os álbuns que você recomenda das décadas de sessenta até hoje.

Anos 60
The Who – Sell Out
The Kinks – Face To Face
The Yardbyrds – Having A Rave Up
The Beatles – Revolver
The Rolling Stones – Their Satanic Majesties Request
Bob Dylan – Highway 61 Revisited
Jefferson Airplane – Surrealistic Pillow

Grateful Dead – Anthem Of The Sun

Frank Zappa – Freak Out!
Pink Floyd – The Piper At The Gates Of Dawn
The Velvet Undreground – The Velvet Underground
Led Zeppelin – Led Zeppelin I

Anos 70
Badfinger – No Dice
Black Sabbath – Master Of Reality

Lou Reed – Rock And Roll Animal

Alice Cooper – Killer
New York Dolls – New York Dolls
MC5 – Kick Out The Jams
Stooges – Stooges
Ramones – Ramones
Patti Smith – Horses
The Clash – The Clash
Sex Pistols – Never Mind The Bullocks
David Bowie – Aladin Sane

T. Rex – Electric Warrior
Roxy Music – Roxy Music

King Crimson – Starless And Bible Black

Anos 80
Elvis Costello – Get Happy
Devo – Freedom Of Choice
Dexys Midnight Runnes – Too Rye Ay
Joy Division – Closer
Gang Of Four – Solid Gold

Siouxsie And The Banshees – Kaleidoscope

The Cure – The Top

U2 -The Unforgetable Fire
Depeche Mode – Speak & Spell
Human League – Dare
Gary Numan – Telekon
Soft Cell – Non Stop Erotic Cabaret
PIL – The Flowers Of Romance

The Stranglers – La Folie

Xtc – English Settlement

Anos 90

Stone Roses – Stone Roses
Teenage Fanclub – Bandwagonesque
Nirvana – Nevermind
Mudhoney – Every Good Boy Deserves Fudge
Soundgarden – Badmotorfinger
Sonic Youth – Dirty

Pixies – Bossanova
The La´s – The La´s
Happy Mondays – Pills And Thrills And Bellyaches

Beastie Boys – Ill Comunication
Primal Scream- Screamadelica
Pulp – His And Hers
Smashing Pumpkins – Gish
Blur – Parklife
Oasis – What´s The Story Morning Glory
Super Furry Animals – Fuzzy Logic
Boo Radleys – Giant Steps
My Bloody Valentine – Loveless
Pavement – Slanted And Enchanted

Anos 00

Strokes – Is This It
Arcade Fire – Funeral
Interpol – Turn On The Bright Lights
Belle And Sebastian – Fold Your Hands Child, You Walk Like A Pesant
The Libertines – Up The Bracket
The Coral – The Coral
The Rakes – Capture/Release
Hard-Fi – Stars Of Cctv
The Ordinary Boys – Brassbound
Black Mountain – Black Mountain

Wolfmother – Wolfmother
Bloc Party – Silent Alarm
Ladytron – Witching Hour
Silver Jews – Tanglewood Numbers
The Magic Numbers – The Magic Numbers
Kaiser Chiefs – Employment
The Futureheads – The Futureheads
The Flaming Lips – At War With The Mystics
Mystery Jets – Making Dens
Editors – The Back Room
Maximo Park – A Certain Trigger

Eu me lembro que, quando comecei a ouvir música, em meados dos anos oitenta, me chamou a atenção aquele cara ruivo, gordinho e de bigode que liderava uma banda que cantava o hit “eu sou boy, eu sou boy, eu sou boy”. Como foi para você a experiência com o Magazine, transformando-se de jornalista em músico, indo para a frente das câmeras?

Foi um processo natural, pois a banda corria paralela à minha carreira no rádio e na TV. Acho que trabalhar com rádio ajudou bastante, pois aprendi a improvisar e de certa forma atuar foi um passo à frente.

É palpável a sua paixão pela música. A sua coleção é uma das mais respeitadas do Brasil. Qual é a sensação que você sente ao parar e olhar para todo este acervo reunido ao longo de todos estes anos?

Eu adoro essa minha coleção, cada disco tem uma história. É engraçado quando começo a olhar e procurar algum disco e vejo os outros e começo a lembrar como consegui, onde, em que circunstâncias. É um pedaço da minha vida.

Este amor pela música já fez você atuar em diversas áreas. Músico, jornalista, escritor, apresentador, radialista. Qual destas atividades te deu mais prazer?

Eu adoro fazer rádio, sempre gostei. Hoje estou fora do rádio, mas gostaria muito de voltar, pois as emissoras estão cada vez mais pobres em termos de programação.

Pode parecer um ranço meu, ou até mesmo imaturidade, mas eu não consigo ver na cena musical brasileira,

e estamos falando somente sobre rock, uma qualidade, uma variedade e uma riqueza musical tão grande, ou equivalente, às cenas inglesas e americanas, por exemplo. Você tem uma visão muito mais completa e abrangente que a minha, isso não se discute, mas o que eu queria saber é se você também sente isso em relação ao cenário rock and roll brasileiro, e a que atribui isso?

Hoje o rock brasileiro tenta sair desse marasmo que ele entrou nos anos noventa, algumas boas bandas estão se destacando até lá fora. Vocês sabem que o Cansei de Ser Sexy assinou com a Sub Pop, mas ainda é pouco. Gosto do Jumbo Elektro, Mombojó, da Karine Alexandrino, enfim existem algumas boas propostas espalhadas pelo país. Mas a maioria ainda está nessa de hardcore ruim, emocore e outras chatices que já encheram o saco. O conhecimento musical dessa nova geração é muito limitado infelizmente, porque eles não se interessam em pesquisar ou ir fundo na matéria. Uma pena!

Pessoas como nós, que já não tem mais vinte e poucos anos, estão órfãos de uma programação musical de qualidade na TV. A MTV possui uma programação totalmente “teen”, e é praticamente impossível para na frente da TV e assistí-la por muito tempo. Você não sente vontade de desenvolver algum programa para este público mais maduro, que possui um conhecimento musical e não consome qualquer coisa que a mídia apresenta?

Com certeza, vivo pensando nisso, mas está dificil viabilizar em alguma emissora de TV. O interesse deles sempre bate na breguice. Quando alguém acreditar e bancar uma proposta dessas eles vão ver que dá resultado. O dificil é convencer alguém. Eu tentei fazer isso na Brasil 2000, mas as pessoas viviam em outra realidade e não queriam saber de cultura musical, era um querendo derrubar o outro o tempo todo, briga de poder e nessas eu acabei caindo.

Como já falamos antes, você já realizou inúmeras coisas dentro da música. Apresentador, crítico, músico, radialista. Na boa, o nome Kid Vinyl é praticamente uma “lenda viva” na música brasileira. O que você ainda gostaria de realizar em relação à música?

Uma coisa parecida com o que eu disse acima, ter o controle “total” sobre a programação de uma rádio, ou ter um programa de TV decente, sem interferências comerciais.

Você já está há muito tempo trabalhando com música. Como você vê a evolução do cenário musical brasileiro nos últimos vinte, trinta anos, de praticamente insignificante na época do primeiro “Rock In Rio” (1985) ao estágio atual, com milhões de fãs, veículos, selos e lojas especializadas? O que você acha que está melhor ou pior agora, e o que ainda precisa melhorar?

Certas coisas melhoraram, como a estrutura de shows. As pessoas se organizaram, os selos independentes vieram com força maior, a internet ajuda, e muito. Mas o que decaiu bastante foi a qualidade musical nas rádios e na programação das emissoras de televisão. Até a TV a cabo, que seria uma alternativa, está parecida com a TV comercial, sem qualidade nenhuma e apostando em programas cada vez piores. Vide “American Idol” e “Top of The Pops”, por exemplo. Tiraram o fabuloso “Later” do Jools Holland e colocaram no lugar o “Top of the Pops” (e isso é só um exemplo).

O formato “single” é um dos proferidos dos coleiconadores, seja pela quantidade limitada com que são lançados, seja pelas versões e músicas inéditas que muitos possuem. Porque você acha que o “single” não vingou no Brasil?

O preço de um single na Inglaterra está entre uma e duas libras, assim como o 7 polegadas. Aqui queriam cobrar quase o preço do CD normal, nunca daria certo. Se o single vende na Inglaterra é porque ele é barato e atrativo (músicas inéditas, duas partes, DVD single, etc). O mercado brasileiro tá todo errado, a começar pelo preço do CD, que não precisava custar 40 reais. Na Inglaterra um CD custa 40 reais, nos EUA custa 12/15 dólares, mas lá os caras tem poder aquisitivo para pagar esse preço, aqui é roubo!!!

São Paulo constantemente é citada como uma das cidades mais desejadas pelos colecionadores, não só brasileiros, mas em todo o mundo. A que você atribui esta quantidade enorme de lojas, de sebos, a própria Galeria do Rock (que só existe aqui), voltadas totalmente para o público consumidor de música?

Muita música brasileira antiga (bossa nova, anos setenta, soul, etc) é procurada pelo mercado americano, japonês e europeu. A Galeria do Rock é um “oásis” na vida dos paulistanos, pois somos felizardos em termos um lugar como aquele para encontrar quase tudo que procuramos. Os sebos são importantes porque, como eu disse, com os preços exorbitantes nas lojas normais a única alternativa são os sebos, que vendem pela metade do preço ou até menos.

Eu sou um consumidor de música há mais de vinte anos. Durante todo este tempo tive contato com as mais diversas publicações, dezenas de pessoas que, de alguma maneira, estiveram ou ainda estão envolvidas com o rock e com o metal. Quem você considera referência no cenário atual, onde um leque muito maior de opções é colocado à disposição dos fãs de música?

Continuo lendo as revistas inglesas Record Collector, Mojo e Uncut. Das publicações independentes gosto das inglesas Artrocker, Plan B e Clash. A título de informação entro sempre nos sites:

http://www.nme.com
http://www.cmj.com

http://www.xfm.co.uk

http://www.bbc.co.uk/radio1 (programas Zane Lowe e Steve Lamaq)
http://www.woxy.com

Lojas que frequento os sites e compro pelo correio:

http://www.roughtrade.com
http://www.piccadillyrecords.com
http://www.othermusic.com
http://www.normanrecords.com

Nestes anos todos de trabalho e envolvimento com a música você conheceu muitas pessoas, viveu e presenciou diversas histórias interessantes. Eu gostaria que você nos dissesse quais foram os momentos mais gratificantes e inesquecíveis de todos estes anos dedicados à música.

Um dos últimos foi na Trama, quando lancei os CDs do Belle & Sebastian e depois vim conhecê-los quando vieram para o Free Jazz, e qual não foi minha surpresa quando eles lançaram o primeiro DVD e, quando eles mostraravam o Brasil, me colocaram anunciando eles na MTV, foi gratificante! Conhecer os caras do Teenage Fanclub (uma das minhas bandas favoritas dos anos noventa). Ter lançado todos os CDs do Frank Zappa pela Eldorado na década de 90. Ter assistido ao Clash ao vivo na tour do álbum “London Calling” e quase vinte anos depois entrevistar o Joe Strummer para o Lado B.

Categoria: Espaço Carmen Miranda Subcategoria: Subculture Sobre: Rock e música Pop Fonte: Whiplash

Categoria: Espaço Carmen Miranda
Subcategoria: Subculture
Sobre: Rock e música Pop
Fonte: Whiplash

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