Cunha se deu bem. E o Brasil, otário, se deu mal

Texto de André Forastieri, acesse na página do Autor aqui.

cunhadoido23 11 Cunha se deu bem. E o Brasil, otário, se deu mal
Cunha foi preso. É ladrão de galinha. Quis voar alto demais. Caiu rápido. Sua trajetória pode servir para a gente melhorar nosso país em duas coisas muito importantes. É duvidoso que isso aconteça.
A acusação mais clara e letal contra Cunha é ganhar propina nos esquemas da Petrobras e mandar para o exterior, para a Suíça. Quanto? Ninguém sabe. Falam de R$ 52 milhões na Suíça. Para quem chegou a presidente da Câmara, é dinheiro de pinga. Deve ter muito mais dinheiro em outros lugares.
Até porque só amador ainda tem dinheiro na Suíça. Os super ricos do mundo sabem faz tempo que é melhor colocar seu dinheiro desviado em outros paraísos fiscais. Segundo a organização não-governamental Global Financial Integrity (GFI), entre 2004 e 2013 os milionários brasileiros mandaram para o exterior ilegalmente uma média de U$ 22,6 bilhões por ano. Em português claro: setecentos e setenta bilhões de reais. Todo esse dinheiro foi para paraísos fiscais. Por quê? Porque era dinheiro ganho limpo no Brasil? Não, porque era dinheiro sujo. Os ricos brasileiros pagam pouquíssimo imposto. As grandes empresas brasileiras pagam pouquíssimo imposto. No Brasil o Caixa 2 é sempre a primeira opção, nunca a segunda.
A Suíça é um destino cada vez menos popular para recursos do crime, da corrupção, do narcotráfico, ou simplesmente dinheiro de Caixa 2, escamoteado por ricaços. Quem diz é o próprio Banco Central da Suíça. Segundo eles, no ano 2000, os correntistas brasileiras chegaram a ter US 6,2 bilhões depositados em bancos suíços. Em 2015, tinham “só” US 4,3 bilhões. Continua sendo muito dinheiro, mas é uma queda enorme. A razão é porque a Suíça vem sendo pressionada para aumentar a transparência financeira. Outros países seguem sem pressão nenhuma e viraram os destinos prioritários do dinheiro sujo do planeta.
A prisão de Cunha poderia ser um bom começo para o Brasil entrar a fundo na questão dessa dinheirama nossa que está no exterior. Afinal, é dinheiro que foi mandado ilegalmente para o exterior, sem pagar imposto, e deveria estar aqui sendo útil para a população. Esse dinheiro que o GFI identificou, R$ 770 bilhões, para pagar 28 anos de Bolsa Família, que em 2016 é um investimento de R$ 27 bilhões por ano. Ou, alternativamente, fazer uma revolução na nossa saúde, educação, segurança. Mexer com esse vespeiro é coisa que está bem longe da pauta da Justiça. Da Receita. E da Lava-Jato. Seria arrumar uma treta com a elite da elite, os 0,1% que de fato dão as cartas no Brasil.
A segunda maneira de fazer da prisão de Cunha algo importante é ser extremamente, brutalmente rigoroso com ele com os que o cercam. Apertar, apertar, apertar. Para forçar ele a abrir o bico sobre os grandes esquemas de corrupção, de todos os partidos. E para forçar ele a nos contar o que sabe sobre a movimentação que derrubou Dilma Rousseff. Sem a participação de Cunha, Temer jamais teria ascendido à presidência. É evidente que ele sabe de todas as negociações, todas as movimentações, todos os acordos que levaram ao impeachment. Mas se Cunha conta 10% do que sabe sobre a corrupção, ou 10% dos bastidores do impeachment, não fica pedra sobre pedra.
Essa seria a hora dos brasileiros, tanto os que foram a favor como os que foram contra o impeachment, se unirem com um objetivo maior. Que é fazer a prisão de Cunha representar uma grande mudança no nosso país. Sonhar é grátis… Infelizmente, e o brasileiro comum na rua sabe disso, a real é que Cunha tem 99% de chance de se dar bem.
O mais provável é que Eduardo Cunha fale pouco, entregue gente sem importância, pague algum dinheiro, pegue alguma cadeia. E só. Vamos continuar pagando de otários dos poderosos. Sem impacto no dinheiro sujo que os super ricos desviam para o exterior, sem impacto na corrupção institucionalizada, sem impacto no sistema político do Brasil, a prisão de Cunha será só um show de mídia, com cheiro de acordão. Uma história cheia

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de som e fúria, significando nada.

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Um dos grandes problemas brasileiros: Interpretação de Texto

A Rio 2016 é racista

rafa ouro A Rio 2016 é racista
Racismo não é que os negros brasileiros têm menos saneamento. Menos casa própria. Menos acesso à saúde, hospital, creche. Nem que são menos alfabetizados, que vivem menos, que vivem pior que os brancos. Racismo não é que os negros são minoria nas universidades, nas redações, no shopping, nos restaurantes. Ou minoria nas novelas, nos telejornais, no público que frequenta os programas de auditório.
Não estão nos palcos dos teatros, são poucos nas paradas de sucesso. Não apresentam talk shows. Há pouquíssimos negros nas gerências e direções das empresas. E no comando da Polícia Militar, Civil, Federal. Não há negros entre os bilionários brasileiros. E não se vê negros nos ministérios, nas secretarias, autarquias, ou nos altos cargos do judiciário.
Mas nada disso é racismo. Não gera indignação. Não é tema pra campanha de candidato nenhum. Não repercute nas redes sociais. Isso é normal. É o dia a dia. Não, racismo é quando eu escrevo a seguinte frase: “Medalha de ouro para uma negra favelada ajuda as negras faveladas em exatamente nada.”
Por esse comentário no Twitter, inspirado pela vitória de Rafaela Silva no judô, fui chamado de racista por várias pessoas. Outras também me “xingaram” de gay, homem, branco etc. Muito comum a crítica de que não posso escrever sobre mulheres negras porque não sou mulher nem negra, o que é além de surreal.
Mas nem todo mundo entendeu assim.
Ana Luisa, leitora atenta, escreveu no Facebook sobre o assunto: “aquele post de racista não tem nada. Ao contrário. É uma crítica a um poder público omisso, que quase nada faz para quem é pobre e negro, e a uma sociedade preconceituosa e hipócrita que relega aos próprios negros o conselho de seguir o exemplo de esforço pessoal de uma moça negra que é destaque hoje. Mas é exceção entre uma massa de negras que não tiveram sua condição melhorada por ninguém. E nem ganharam o respeito da classe média anos atrás, lá com aquela medalha de ouro da judoca Edinanci (cujo nome, aliás, caiu no ostracismo). Incrível o tanto de gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, o seu post.”
Toda essa gente que não entendeu, ou fingiu que não entendeu, não pesa tanto pra mim quanto uma única pessoa ter compreendido tão bem minha intenção quanto Ana Luisa.
Costumo dizer que o Brasil é um problema de interpretação de texto. Também costumo dizer que é inútil tentar entender os outros, e mais ainda tentar mudar os outros. Não dá para mudar a opinião de quem concluiu por esta frase que sou racista. Nem vou tentar. Então sou racista. E não sou racista. Entendeu? Assim é o novo mundo da comunicação.
Esse problema de deficiência de compreensão (ou mesmo de indignação simplista e automática) se tornou uma patologia. Dois exemplos pessoais. Estou respondendo a um processo que pede uma indenização financeira bem grande, por um texto que publiquei aqui no blog. Perdi em primeira instância, estamos recorrendo. A decisão do juiz é baseada no que dei a entender, não no que efetivamente escrevi. É um problema da legislação brasileira, que é dúbia, porque interpretação é sempre subjetiva.
Outro exemplo, mais engraçado, de ontem. Fiz também no Twitter uma piada infantil, daquelas tipo revista Recreio: “O que esse Phelps faz de tão importante? Nada.” Pois não é que tem gente me xingando, achando que é uma crítica ao nadador americano? Quando até uma bobagem dessas ofende, está claro que qualquer coisa (mas qualquer coisa mesmo) pode gerar repercussão negativa. Como qualquer coisa pode querer dizer o seu contrário, decidi por um título bem explícito e escandaloso para este texto: “A Rio 2016 é racista”.
Sutileza tem hora. Veja: o caminho natural para quem escreve profissionalmente, neste ambiente, é a autocensura e a autopromoção. Ou, caminho contrário e desafiador, apostar na inteligência de poucos. Ser mais mais ambíguo, denso, ambicioso. E muito, muito seletivo. É uma alternativa que me seduz – para daqui a pouco.
Para hoje, sobra ser tão agressivo quanto Rafaela Silva. De fato a medalha de ouro para ela não ajuda em nada as negras faveladas, ou, se você preferir, as afrodescendentes moradoras de comunidades. O que mudará a vida dos milhões de Rafaelas que não chegaram e nunca chegarão a nenhum pódio é dinheiro.
Investir R$ 38 bilhões dos nossos impostos nos Jogos Olímpicos, e não em melhorar a vida dos brasileiros mais pobres – a maioria negros, a maioria favelados – é uma das maiores injustiças já cometidas nesse país. E isso sim é que é racismo.

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores ou autor convidado Textos de André Forastieri Imagem em destaque: Tingatinga - Tingatinga (também escrito Tinga-tinga ou Tinga Tinga) é um estilo de pintura que se desenvolveu na segunda metade do século 20 na Oyster Bay área em Dar es Salaam ( Tanzânia ) e mais tarde se espalhou para mais África Oriental. Tingatinga pinturas são uma das formas mais amplamente representados de arte turística orientada na Tanzânia, Quénia e países vizinhos. O gênero é nomeado após seu fundador, pintor tanzaniano Edward Said Tingatinga.

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Imagem em destaque: Thomas Allen

A maior aventura polar completa um século

1

Ernest Henry Shackleton (Kilkea, condado de Kildare, 15 de fevereiro de 1874 — Geórgia do Sul, 5 de janeiro de 1922) foi um explorador polar que liderou três expedições britânicas à Antártida, e uma das principais figuras do período conhecido como Idade Heroica da Exploração da Antártida.

Uma das grandes aventuras da humanidade está completando 100 anos: a Expedição Imperial Transantártica de Sir Ernest Shackleton.

Shackleton (1874-1922) liderou três expedições britânicas à Antártica, mas foi a última, iniciada em dezembro de 1914 e encerrada em agosto de 1916, que o tornou uma lenda da exploração polar. Foi o maior fracasso da vida de Shackleton – e também seu maior triunfo.

A meta da Expedição Imperial Transantártica era ambiciosa: cruzar o continente antártico, por terra, de oeste para leste.

2

A tripulação completa do Endurance, menos o fotógrafo Frank Hurley, claro

Em 5 de dezembro de 1914, Shackleton e 27 tripulantes deixaram a Ilha Geórgia do Sul a bordo do veleiro Endurance, de 144 pés (44 metros), construído na Noruega especialmente para a missão.

Em 18 de janeiro de 1915, um dia antes de chegar ao ponto da Baía de Vahsel onde a equipe deveria desembarcar, o Endurance ficou preso no gelo. Imobilizado num imenso platô congelado, o barco ficou vagando pelo mar de Weddel por mais de nove meses, até que, em 27 de outubro de 1915, foi esmagado pelas placas de gelo.

3Shackleton e sua tripulação abandonaram o navio. Pouco menos de um mês depois, em 21 de novembro, testemunharam, horrorizados, o Endurance afundando para sempre no gelo. Pelos cinco meses seguintes, a tripulação morou em barracas no banco de gelo, comendo carne de foca e esperando que o gelo se abrisse para que pudessem navegar em três botes salva-vidas rumo a qualquer lugar habitado.

4Em 9 de abril de 1916, finalmente, o gelo se abriu. Enfrentando ondas de dez metros e ventos de 100 quilômetros por hora no Mar de Weddel, os três botes – batizados com os nomes de financiadores da expedição, James Caird, Dudley Docker e Stancomb Wills – conseguiram chegar à inóspita Ilha Elephant. Foi a primeira vez em 497 dias que pisavam em terra firme.

Para se ter uma ideia da insanidade que era enfrentar um mar daqueles numa casquinha de noz, aqui vai a imagem de um cargueiro cruzando a Passagem de Drake

Para se ter uma ideia da insanidade que era enfrentar um mar daqueles numa casquinha de noz, aqui vai a imagem de um cargueiro cruzando a Passagem de Drake

Mas a parte mais arriscada da missão ainda estava por vir: Shackleton deixou 22 homens na Ilha Elephant e rumou com outros cinco no pequeno barco James Caird até a Ilha Geórgia do Sul, enfrentando frio de 20 graus negativos, ondas de vinte metros e ventos de 200 quilômetros por hora em um dos mares mais traiçoeiros do mundo, próximo à Passagem de Drake. Foto a direita:

Uma foto do barco James Caird

Foto do barco James Caird

Em maio de 1916, o James Caird chegou finalmente à Ilha Geórgia do Sul. Mas Shackleton e seus homens precisaram atravessar a ilha a pé, numa travessia inédita e tão perigosa que só foi realizada novamente em 1955, por uma equipe de alpinistas britânicos. Quando finalmente chegaram à estação baleeira de Stromness – barbados, imundos, fracos e com as roupas em farrapos – pareciam, segundo relatos, uma assombração. E assim que Shackleton se identificou, alguns marinheiros devem ter pensado estar diante de fantasmas, já que a tripulação do Endurance fora dada como morta.

Depois de alguns dias de descanso, Shackleton começou a organizar o resgate de sua tripulação. Ele pediu ao governo inglês um navio propício para enfrentar o Mar de Weddel, mas nenhum estaria disponível até outubro (é bom lembrar que isso tudo aconteceu em meio à Primeira Guerra Mundial). A solução foi pedir emprestado ao governo chileno o Yelcho, um barco a vapor de 120 pés (37 metros) que fazia a manutenção de faróis.

Às 13h10 do dia 30 de agosto de 1916, mais de quatro meses depois de abandonar 22 homens de sua tripulação, Shackleton chegou com o Yelcho à Ilha Elephant e os resgatou. Todos os 28 tripulantes do Endurance voltaram vivos.

Em 1959, o escritor e jornalista norte-americano Alfred Lansing lançou “A Incrível Viagem de Shackleton”, livro em que relata, por meio de diários e entrevistas com sobreviventes, os detalhes da Expedição Imperial Transantártica e dos quase dois anos de luta pela sobrevivência na área mais inóspita do planeta. É um dos melhores livros de aventura que já li. Recomendo demais.

Ponto selvagem, Elefante Island, o local onde o acampamento foi feito após o local de desembarque inicial foi identificada como inadequada

Ilha Elephant, o local onde o acampamento foi feito após o local de desembarque inicial foi identificada como inadequada

P.S.: O leitor Peçanha enviou um link que traz as fotos que Frank Hurley tirou da expedição de Shackleton. É sensacional. Confira aqui.

Do blog "Leu esse, Carol? A Incrível Viagem de Shackleton

Do blog “Leu esse, Carol? A Incrível Viagem de Shackleton

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Sobre o autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil. Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por "Barulho - Uma Viagem ao Underground do Rock Americano" (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário "Maldito" (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins Imagem em destaque: Voltando ao navio depois de uma excursão

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Sobre o autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil.
Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por “Barulho – Uma Viagem ao Underground do Rock Americano” (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário “Maldito” (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins
Imagem em destaque: Voltando ao navio depois de uma excursão

George Martin: a máquina do som

George Henry Martin foi um produtor musical, arranjador, compositor, engenheiro sonoro, músico e maestro britânico.

Nascimento: 3 de janeiro de 1926, Highbury, Londres, Reino Unido

Falecimento: 8 de março de 2016, Wiltshire, Reino Unido


Texto de André Barsinski.

1Se alguém pode ser considerado o “Quinto Beatle”, certamente foi George Martin, o produtor, arranjador, maestro e compositor que ajudou a banda a gravar algumas de suas melhores canções (leia aqui um texto que fiz na “Folha” sobre Martin, que morreu terça, aos 90 anos).

Martin foi um bruxo de estúdio, um gênio maluco que usou seu amplo conhecimento de música clássica, música de vanguarda, música eletrônica e experimentalismos dos mais variados para criar algumas das canções mais importantes da música pop. Aqui vão sete delas, que escolhi para a “Folha”:

“A Day in the Life” (1967)
Martin fez o que nenhum arranjador faz: pediu para sua orquestra de 40 músicos tocar caoticamente, cada músico em completa falta de sintonia com os colegas. Depois gravou essa bagunça quatro vezes e empilhou tudo em uma única faixa, dando a impressão de 160 instrumentos gritando em direções diferentes. Era a impressão de caos que a faixa pedia.

“Being for the Benefit of Mr. Kite” (1967)
Para obter a estranheza e ambientação de parque de diversões que John Lennon queria para essa música, Martin gravou cerca de 60 fragmentos de sons de órgão, mandou cortar as fitas em pedaços, jogou todas para o alto e colou tudo sem a menor preocupação com sequência.

“I Am the Walrus” (1967)
O coral de 16 pessoas foi instruído a cantar gritos e frases sem sentido, para adicionar ao clima anárquico da música de John Lennon.

“Tomorrow Never Knows” (1966)
Sons de gaivota, a voz de Lennon captada de um alto-falante de teclado e guitarras gravadas de trás para frente compõem a cacofonia psicodélica desse clássico. As “gaivotas”, na verdade, eram uma risada de Paul gravada de trás para frente.

“Strawberry Fields Forever” (1967)
A faixa foi gravada duas vezes, em versões de velocidades e tons diferentes. Martin juntou as duas, reduzindo a velocidade de uma delas.

“Eleanor Rigby” (1966)

Martin não só fez um brilhante arranjo de cordas, mas teve a ideia de colocar os microfones muito próximos dos violinos, violas e cellos —oito no total— para captar um som mais “duro” e realçar a angústia da canção mórbida de McCartney, certamente uma de suas letras mais tristes.

“Goldfinger” (1964)
George Martin produziu essa obra-prima —vjunto com o coautor da faixa, John Barryv — para o tema do filme “Goldfinger”, do agente James Bond. A vox é de Shirley Bassey e o guitarrista, não creditado, foi um jovem prodígio de 20 anos chamado Jimmy Page.

Tão importante quanto admirar pela enésima vez as bruxarias de estúdio de George Martin é entender o papel fundamental que ele teve na evolução do conceito de produtor musical.

Martin deu sorte de pegar uma banda jovem e talentosa num período – o início dos anos 60 – quando as tecnologias de gravação começavam a permitir voos criativos mais ambiciosos. Até surgirem gênios como Martin e Joe Meek na Inglaterra e Phil Spector e Brian Wilson nos Estados Unidos, o papel do produtor era, basicamente, captar o artista da mesma forma como ele soava ao vivo.

Mas Martin queria mais. Ele trabalhou anos na gravação de álbuns de comediantes como Peter Sellers e Spike Milligan, que vinham do rádio e adoravam experimentar com sons e efeitos. Quando encontrou Lennon e McCartney, dois gênios que sabiam ouvir conselhos, achou os parceiros perfeitos para engendrar uma mudança radical na forma de gravar discos.

Com os Beatles, Martin usou um arsenal vastíssimo de experimentações: manipulou a velocidade de fitas, gravou sons de trás pra frente, adicionou gravações de diálogos, testou diferentes tipos de microfones para diferentes objetivos, enfim, fez tudo que não estava no manual.

Eram outros tempos. Bandas ainda ganhavam a maior parte de seu dinheiro com a venda de discos. Não havia a facilidade de viagens aéreas e transporte global de hoje, e turnês não eram tão extensas.
Depois que os Beatles pararam de fazer turnês, em 1966, a banda e Martin mergulharam de cabeça nos experimentalismos sônicos que resultariam em álbuns clássicos como “Rubber Soul” (1965), “Revolver” (1966) e “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band” (1967). Do outro lado do Atlântico, Brian Wilson fez o mesmo: ficou no estúdio compondo e gravando “Pet Sounds” (1966), enquanto sua banda, os Beach Boys, tocava mundo afora.

O sucesso deu a Martin carta branca para fazer o que bem quisesse. É incrível pensar que o produtor da maior banda do mundo tinha liberdade total da gravadora para tentar coisas novas e transgressoras, e que os Beatles nunca se acomodaram e sempre buscaram novos caminhos.

Se a lógica de mercado fosse imposta a discos complexos como “Sgt. Pepper’s”, com suas músicas estranhas, orquestrações inusitadas e letras aparentemente sem sentido, o disco nunca teria saído daquela maneira. Felizmente, o fim dos anos 60 foi um período único na história do pop, em que gravadoras – as melhores, pelo menos – ainda não tentavam controlar totalmente seus artistas e confiavam em gente como George Martin.

‘Eles não eram muito bons’: por que George Martin foi o quinto Beatle

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Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por “Barulho – Uma Viagem ao Underground do Rock Americano” (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário “Maldito” (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins

“Heroes”: como fazer um clássico de Bowie

Texto de André Barcinski.

Escrevi ontem aqui no blog sobre a série “Music Moguls”, da BBC Four (leia aqui).

Um dos trechos mais interessantes mostra o produtor Tony Visconti contando como gravou “Heroes” (1977), a faixa clássica de David Bowie, no estúdio Hansa, em Berlim.

Achei no Youtube uma versão estendida do papo com Visconti (veja aqui).

– Ele começa contando que a fita original da sessão está muito velha e corre o risco de quebrar se usada repetidas vezes, por isso todas as pistas foram copiadas digitalmente.

Visconti mostra a “backing track”, a base da música, apenas com George Murray no baixo, Carlos Alomar na guitarra, Dennis Davis na bateria, Bowie tocando piano e Brian Eno fazendo “lindos barulhos espaciais” com um pequeno sintetizador. “Aqui estão os cinco músicos tocando juntos”, diz Visconti. “A canção ainda não tinha vocal, melodia, forma ou estrutura. Não tínhamos nem o nome para ela”.

– Murray usa no baixo um flanger, uma espécie de eco. Visconti diz que os produtores costumam gravar instrumentos “limpos”, sem efeitos, e adicionar os efeitos depois, mas que ele e Bowie sempre preferiram gravar o instrumento com o efeito, para que isso não pudesse ser mudado depois.

– Visconti mostra sons feitos por Brian Eno em seu pequeno sintetizador e por Bowie num velho sintetizador chamado Solina (foto abaixo): “Um som meio brega”.

Tony Visconti, Brian Eno, David Bowie

Tony Visconti, Brian Eno, David Bowie

– Uma semana depois, chamaram Robert Fripp, guitarrista do King Crimson, para colaborar. Fripp gravou três solos, todos usando microfonia, que ele obtinha se aproximando e se afastando do amplificador, enquanto Brian Eno manipulava o som com um sintetizador. “Não existe um pedal de guitarra que faça esse som. Ele é resultado de dois caras muito espertos trabalhando em conjunto”. Na foto abaixo, Eno, Fripp e Bowie trabalham em “Heroes”:

Robert Fripp, Brian Eno, and David Bowie

Robert Fripp, Brian Eno, and David Bowie

– Visconti diz que os três pequenos solos de Fripp eram muito bonitos e marcantes, mas que não funcionavam na canção. Até que ele teve a ideia de juntar os três. “E aí veio aquele som celestial de Fripp!”.

– Bowie tinha um Chamberlin (foto abaixo), um antigo synth com diferentes timbres. Ele tocou um “riff” que, segundo o produtor, lembrava as canções da gravadora norte-americana Stax, meca da soul music dos anos 60, e usou o timbre de “Naipe de Metais”. “Não é um bom som de metais, mas está na mixagem”.Bowie-ARP-Solina

– “Bowie é muito impaciente no estúdio. Se queremos um cowbell (espécie de agogô) e não tiver nenhum, ele sai batendo em qualquer pedaço de metal até conseguir o som que deseja. Esse sou eu batendo com uma baqueta de bateria ou um garfo, não lembro bem, em um rolo metálico.”

– Visconti diz que Bowie não tinha a letra da música e escrevia no próprio estúdio. Um dia, incapaz de se concentrar, pediu a Visconti e à cantora Antonia Maass, com quem Visconti estava namorando, que saíssem por algum tempo do estúdio para ele terminar de escrever a letras. Tony e Antonia foram dar um passeio próximo ao Muro de Berlim, que ficava ao lado do estúdio, e se beijaram. Bowie viu a cena da janela e a incorporou na letra:

I can remember / standing, by the wall / and the guns, shot above our heads / and we kissed, as though nothing could fall

Eu me lembro / de pé, junto ao muro / e as armas disparando sobre nossas cabeças / e nos beijamos, como se nada pudesse cair

– Visconti conta que, ao fim das gravações, só tinha uma pista (“track”) livre para gravar os vocais. Ele e Bowie queriam que os vocais, do meio da canção para a frente, tivessem um grande eco. “Se eu tivesse três pistas poderia gravar os trechos separadamente, mas só havia uma pista, então tivemos de ser criativos”.

A solução foi colocar três microfones no estúdio. Bowie ficou de um lado da grande sala do estúdio Hansa, com um microfone à sua frente. No meio da sala, a cerca de sete ou oito metros, Visconti colocou o segundo microfone, e na outra extremidade do estúdio, a uns 18 metros de Bowie, o terceiro. O segundo e terceiro microfones foram conectados a um dispositivo que os ligava de acordo com o volume da voz de Bowie. Se ele cantasse baixinho, sua voz só seria captada pelo microfone à sua frente. Se aumentasse o volume da voz, o segundo microfone ligaria e captaria a voz de Bowie com um pouco de eco. Se Bowie gritasse, o terceiro microfone dispararia e gravaria a voz com muito eco. O resultado está na canção.

– Por fim, Visconti mostra os “backing vocals” (“vocais de apoio”) que ele e Bowie gravaram para a música. “Se você prestar atenção, vai ouvir um sotaque britânico e um do Brooklyn”.

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Sobre o autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil. Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por "Barulho - Uma Viagem ao Underground do Rock Americano" (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário "Maldito" (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins

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Sobre o autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil.
Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por “Barulho – Uma Viagem ao Underground do Rock Americano” (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário “Maldito” (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins

Isso, amigos, é um produtor.

Um ótimo fim de semana a todos.

Playboy é mulher pelada. Botou roupa, perdeu Playboy!

Mais um texto de André Forastieri, leia original aqui.

Barbi Benton

Barbi Benton

A Playboy vai deixar de publicar foto de mulher pelada. É uma estupidez. Foi o grande diferencial da revista com relação às que vieram antes e depois. Antes era a Esquire, onde Hugh Hefner, fundador da Playboy foi redator: a revista do que interessa para o homem, com sex-appeal, mas “decente”. Depois, Hustler, 100% sexo explícito, e hoje variedade infinita entre esses falsos opostos.
A fórmula da Playboy é como a da Coca-Cola, segredo. E não industrial: segredo artesanal. Seus melhores editores foram verdadeiros equilibristas. Muito humor e um tanto de seriedade. Muito bom-viver e alguma provocação. Mulher para domar e para namorar.
Claro que a Playboy era principalmente inspiração para masturbação. Mostrava nua, disponível e provocante a vizinha lindinha das fantasias dos americanos. Não era “revista de sacanagem”. Era revista para fantasiar. As moças não pareciam prostitutas. Pareciam estar a fim, e não a fim de dinheiro.
Hoje vemos mocinhas lindinhas praticando o kama sutra e muito além, perversões de A a Z, de todos os modelos e nacionalidades. Está tudo na internet, de graça. A Playboy perdeu esse bonde. Poderia ser a dona do YouPorn, RedTube, e todos esses serviços de pornografia digital instantânea. Mas não é, como nenhum dos grandes canais de televisão é dono do YouTube, e nenhuma empresa de mídia é dona do Google ou do Facebook, as empresas de mídia que mais faturam no planeta Terra. É fácil identificar as bobeadas nas empresas dos outros. As Playboy Enterprises cometeram muitas.
Tropeço imperdoável foi o reality show mostrando Hugh Hefner como um velho babão, morando com três “namoradas” falsas loiras e falsas em geral. Nos anos 60 e 70, Hefner era personagem, mas também editor de mão cheia e de sucesso. A Playboy de fato era para ser lida pelos artigos. O time de colaboradores da revista foi a fina flor do jornalismo americano. Playboy divertia e influía, combinação perfeita e quase impossível.
Hefner era símbolo de realização, não só da vida boa que os machos de sua geração e seguintes sonhavam ter. No reality show se assumiu paródia de si mesmo, modelo obsoleto, pagando por companhia de garotas com idade pra serem suas netas, um Olacyr de Moraes gringo. Tudo que o homem do século 21 não quer ser quando envelhecer.
No Brasil, Playboy foi sonho de um jovem, que convenceu o pai a editor a fazer no Brasil as três revistas americanas que mais admirava: Time, Fortune e Playboy. Era Roberto Civita, que fez, e fez muito bem, suas versões das três. Eram Veja, Exame e a própria Playboy, licenciada da edição americana, mas com identidade muito própria. A revista brasileira teve sua fase de ouro quando a americana já não tinha tanto apelo assim. Grandes entrevistas, grandes cartunistas, grandes fotógrafos, muito molho, tudo do melhor. E as mulheres mais maravilhosas e mais famosas do Brasil sonhavam em posar para a Playboy.
Comecei a ler a Playboy antes dela existir por aqui. Pingavam umas raramente por aqui nos anos 70, de pais de amigos. Minhas primeiras memórias são da cutchuquinha que ilustra este post, Barbi Benton. Lá pros 14 anos eu já era desse tamanho de hoje, e comprava de um jornaleiro amigo. Comprei intermitentemente desde então – escolhendo pela capa, como todo mundo. Fui convidado uma única vez pra colaborar; escrevi sobre o Velvet Underground em 1991.
Tive e tenho amigos na redação da Playboy brasileira. Espero que siga despindo as personagens que todo mundo quer ver peladinhas. Seja a atriz, a funkeira ou a gari gata. As taras da molecada de hoje e as da nossa juventude, porque não? Vi uma foto de Magda Cotrofe esses dias, continua batendo um bolão. Aliás, a foto era ela com a filha. Aliás, vamos mudar de assunto.
Fosse eu o ditador lá da Playboy Enterprises, seguiria o exemplo da Abril. Uma revista linda e leve, esperta sem ser metida, com carteira recheada para convencer as famosas mais desejadas do mundo a tirar a roupa.
Colocaria trinta fotos da estrela da edição na revista. E essas trinta e mais cem no site, junto com o making of do ensaio, em vídeo. E, claro, o arquivo completo dos trocentos anos da Playboy. Todos aqueles zilhões de textos e ilustrações e cartuns e piadas e mulheres incríveis. Um dólar por mês. Você não assinava? Você e eu e mais uns vinte milhões de machos. E mais um monte de moças que gostam de moças. E senhoras que liam a Playboy pelos artigos.
Mas infelizmente a Playboy americana se rendeu à chatice. Ao padrão politicamente correto de agências e anunciantes, que veta investimento em publicações que “objetificam” as mulheres. E à necessidade de compartilhar seu conteúdo nas redes sociais, Facebook etc., que são caretas e vetam nudez. A Playboy pode até sobreviver. Será mais uma. Só tem a perder.

Barbi Benton

Barbi Benton

Playboy brasileira decide manter ensaios de mulheres nuas

Editora Abril deixara de publicar revista Playboy

Playboy do Brasil será relançada por nova editora em março de 2016

O futuro sabe-se lá. O passado não se apaga. Todos aqueles textos e reportagens, ilustrações e piadas e ensaios, tudo vive. E o que a Playboy fez por gerações de homens não tem preço. Deu prazer e fez pensar. O que mais você pode desejar?

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro “O dia em que o Rock morreu”

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Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro “O dia em que o Rock morreu”

Ele estuda a desigualdade desde os anos 60 – e sabe como acabar com ela

Atkinson Ele estuda a desigualdade desde os anos 60 e sabe como acabar com ela (Como diminuir a desigualdade, parte 2)

Leia o texto no blog do autor aqui.

Tem muita gente falando de desigualdade social. E fazendo muito pouco. Falar é fácil. Agir é o que interessa. O Brasil tem tudo para liderar o planeta nisso. É nosso destino. Somos uma das maiores economias do planeta, com recessão e tudo. Mas a riqueza está quase toda concentrada em 0,5% da população. Esses nossos compatriotas super-ricos são os credores brasileiros da dívida brasileira. É quem está se dando bem com juros estratosféricos. Vão faturar firme em 2015. Pagam quase nada de impostos. São os únicos.
Não há como fazer o Brasil mais palatável para os 99,5% restantes sem reduzir os privilégios desses 0,5%. É assim aqui e em qualquer país. Justamente porque aqui a situação é tão insanamente injusta, a oportunidade é tão grande. Um pequeno enfrentamento fará uma enorme diferença.
Não se trata de crucificar os abonados nem santificar a pobreza. É só que o modelo concentrador de riqueza vem dando errado em todos os países. A formulinha de “austeridade” forçada, arrocho e tarifaço e desemprego, é o que levou a Grécia à beira do abismo. Não deu certo lá. Não deu certo na África, no leste Europeu, nos países da primavera Árabe… e não dará certo no Brasil.
Mas há alternativas à política econômica do FMI, que o governo do Brasil nos impõe neste momento? Claro. Muitas. Algumas utópicas nos limites da esquizofrenia. Outras bem pragmáticas.
Um exemplo de pauta prática está no novo livro de Anthony Atkinson, “Inequality: What Can Be Done”. É o maior especialista em desigualdade do mundo. Um senhor de 70 anos, formado em Cambridge, professor da London School of Economics, catedrático em Oxford. Atkinson estuda distribuição de renda desde os anos 60, quando Thomas Piketty usava fralda. Foi mentor de Piketty, aliás.
Por seu trabalho, Atkinson recebeu da coroa inglesa o título de “Sir”. É sempre citado como um dos nomes com grande chance de ganhar um Nobel de Economia. Vamos combinar que ele não é um amador abilolado. Nem um carbonário que pretende incendiar as instituições.
O livro de Atkinson não é trabalho acadêmico e não tem nada de impenetrável. Escreveu para ser lido por qualquer um. O foco é na situação do Reino Unido. Mas suas propostas podem ser adotadas no Brasil ou em qualquer lugar em que a população tenha culhões… e necessidade de mudança urgente.
O que podemos fazer hoje mesmo para criar um Brasil menos desigual? Mais próspero e pacífico? Que recompense a educação, a inovação, o risco? Como diminuir a diferença entre o rendimento do trabalhador e do empreendedor e o rendimento dos investimentos financeiros, responsável pelo abismo crescente entre a elite e os 99,5% restantes?
Atkinson elenca várias propostas. O livro exige tradução urgente para o português. Seleciono quatro:
– Hoje há um grande desequilíbrio de poder entre o capital e o trabalho, entre empregadores e trabalhadores / consumidores. Precisamos de políticas públicas que diminuam a influência do capital.
– Os impostos devem ser progressivos. Quem ganha mais, paga mais. Tony prega que o 1% de super-ricos deve ser taxado em 65% de sua renda. No Brasil eles pagam 6,5% e a classe média alta paga 27,5%.
– Além do imposto sobre a renda, é preciso criar um imposto anual sobre o patrimônio dos mais ricos.
– Criação de um programa de renda mínima universal para crianças (esse já existe no Brasil, e precisa ser muito ampliado e reforçado: o Bolsa-Família).
Sei, são bem arroz-com-feijão. Mas só essas quatro bastariam para fazer um Brasil completamente diferente do que temos. Outras idéias do livro são mais inovadoras. E algumas podem soar estrambóticas, para quem está anestesiado pelo discursinho mercenário dos fundamentalistas das finanças.
Quer um exemplo? Atkinson defende que a inovação tecnológica precisa ser direcionada pela sociedade, através de políticas públicas, para que auxilie a geração de empregos e não o contrário. Parece evidente, mas pela grita contra a proposta de regulamentação do Uber, deve soar como blasfêmia bolchevique para os discípulos do vale-tudo.
Se Atkinson soa radical demais para você, releia o currículo dele, uns parágrafos acima. É um acadêmico respeitadíssimo, um reformista. Radical é quem quer um mundo em que só o capital manda e obedece quem tem juízo.
E repare quem concorda com ele. No dia 14 de junho, o Fundo Monetário Internacional divulgou um estudo chamado Causes and Consequences of Inequality (Causas e Consequências da Desigualdade). Ele foi realizado pelos economistas do próprio FMI.
A principal conclusão: muitas das políticas promovidas pelo próprio FMI são danosas para os países. Exacerbam a desigualdade e prejudicam a produção, o consumo, o emprego.
O estudo defende que as políticas econômicas devem se concentrar em aumentar os salários e qualidade de vida dos 20% mais pobres da população. Aumentar a proteção dos trabalhadores. Estabelecer impostos progressivos (quem ganha mais, paga mais). E criar políticas públicas para reforçar a receita da classe média. O resumo deste estudo é: mais gente com dinheiro no bolso, mais gente consumindo, mais produção, mais emprego. Austeridade é bad for business…
Parece óbvio. E é mesmo. Vamos torcer para esses economistas do FMI não perderem o emprego – se Angela Merkel ler esse estudo, vão todos pra rua. O estudo defende o exato contrário do que a direção do próprio FMI pregou para a Grécia, e que o “mercado”, essa vingativa divindade sem rosto, prega para o Brasil.
É preciso inventar à toda velocidade um futuro promissor para a humanidade – um que dê conta de mais 3 bilhões de pessoas, que estão chegando nos próximos 40 anos, e mudanças climáticas brutais. Para isso precisaremos ir bem além das recomendações de Anthony Atkinson, um pensador do século 20. Vamos ter que desbravar os domínios da ficção-científica, embalados por visões fantásticas, embriagados de imaginação.
Mas primeiro há que lidar com nosso medíocre presente, e para dar conta dele não é preciso voar tão alto. Basta pressão social e coragem coletiva. Estratégia na geopolítica e lábia na negociação. Ver, julgar e agir sem vícios. Parece muito? Perto dos desafios das próximas décadas, é só um primeiro – e pequeno – passo.

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro “O dia em que o Rock morreu”

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Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro “O dia em que o Rock morreu”

Como a Internet está jogando a ciência nas trevas

Texto de André Barcinski.

Clérigos estudam astronomia e geometria (França, iluminura de inícios do século XV).

Clérigos estudam astronomia e geometria (França, iluminura de inícios do século XV)

Grande parte das informações científicas publicadas em revistas e sites é falsa. O número pode chegar a 50%.

Quem divulgou esse dado assustador não foi nenhum site de teorias da conspiração ou um lunático qualquer, mas Richard Horton, há 20 anos editor da “The Lancet”, fundada na Inglaterra em 1823 e considerada uma das mais importantes revistas médicas e científicas do mundo.

No editorial de 11 de abril (leia aqui, em inglês), Horton descreveu um simpósio, realizado em Londres, sobre a confiabilidade de pesquisas médicas. A conclusão é alarmante: “O caso contra a ciência é claro: boa parte da literatura científica, talvez metade, pode simplesmente ser falsa. Prejudicada por estudos com mostras qualitativas pequenas, efeitos diminutos, análises exploratórias sem validade e flagrantes conflitos de interesses, (…) a ciência tem mergulhado rumo à escuridão. Como disse um dos participantes: ‘Métodos pobres dão resultado’.”

Na última década, houve na Internet uma profusão de revistas “open access” (“acesso aberto”), que publicam trabalhos científicos. Elas são gratuitas para o público, mas não para o autor do trabalho, que paga para tê-lo publicado. Isso criou um verdadeiro comércio online de informações médicas e científicas.

Como o acesso é livre, muitas dessas revistas têm grande número de acessos, e os artigos publicados ganham uma chancela de respeitabilidade.

Em 2013, o jornalista John Bohannon, da Universidade Harvard, enviou um trabalho científico para 304 dessas revistas “open access”. Mais da metade aceitou publicar o trabalho, que descrevia uma nova droga capaz de diminuir o crescimento de células cancerosas.

Só havia um problema: o trabalho era totalmente inventado. Um trote.

Bohannon publicou a história na revista “Science” (leia aqui, é sensacional). “Qualquer revisor com um conhecimento ginasial de química (…) deveria ser capaz de perceber os erros imediatamente. Os experimentos são tão absurdos que os resultados são inúteis,”, escreveu.

A única revista de acesso aberto que alertou Bohannon para os erros encontrados no trabalho foi justamente uma das poucas que se destaca pela seriedade e credibilidade, a PLOS ONE – Public Library of Science.

Continua Bohannon: “De começos modestos e idealistas, mais de uma década atrás, as revistas científicas de acesso aberto têm se multiplicado numa indústria global, guiada por taxas de publicação para autores e não por assinaturas para leitores. A maioria dos participantes é suspeita. A identidade e localização dos editores dessas revistas são, muitas vezes, propositalmente escondidas. (…) Buscas pelos IPs e dados bancários têm jogado luz sobre o assunto e revelado uma rede de contas localizada, principalmente, em países em desenvolvimento.”

Resumindo: boa parte da publicação de trabalhos científicos, hoje, é tão picareta quanto os e-mails que recebemos todos os dias avisando de uma herança a receber na África ou pedindo ajuda para crianças famintas no Afeganistão.

O maior problema não é o trambique de que muitos autores são vítimas (e cúmplices), mas o fato de que a maior prejudicada, no fim das contas, é a ciência.

A publicação de trabalhos falsos ou cientificamente irrelevantes tem disseminado informações erradas e que por vezes são usadas como base para que pacientes tomem decisões médicas. É um assunto de vida e morte.

A Internet prometeu um mundo “livre de filtros” e aberto a todos, mas se transformou, com algumas exceções, num balcão de negócios comandado por interesses escusos, juntando o crescente analfabetismo funcional dos usuários com a multiplicação de “especialistas” em todo tipo de assunto. A única forma que o público tem para se defender é buscar informação nas fontes mais confiáveis e credíveis.

E isso acontece em todas as áreas.

Acesse agora o site da Amazon e tente achar UM livro que tenha recebido nota menor que quatro estrelas em cinco. Difícil. Sabe por quê? Porque a Amazon tem uma equipe imensa de “críticos” para escrever os textos que acompanham a descrição dos livros. Para simular isenção, a  PLOS ONE costuma publicar críticas de um site de leitores chamado Goodreads, que sempre traz textos elogiosos aos livros. O que a Amazon não informa é que comprou a Goodreads em 2013.

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil. Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por "Barulho - Uma Viagem ao Underground do Rock Americano" (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário "Maldito" (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins.

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Sobre: Textos de outros autores
Autor: André Barcinski nasceu em 1968. Foi colunista e crítico da Folha de S. Paulo. Escreveu quatro livros e dirigiu dois filmes. Produz e dirige os programas de TV “O Estranho Mundo de Zé do Caixão” e “Nasi Noite Adentro”, no Canal Brasil.
Ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro de não-ficção por “Barulho – Uma Viagem ao Underground do Rock Americano” (1992) e o Prêmio do Júri do Festival de Cinema de Sundance (EUA) pelo documentário “Maldito” (1998), sobre o cineasta José Mojica Marins.

Mais um texto de André Forastieri

Nossos escritores em Paris, nossas contas na Suíça: nada a dizer, tudo a perder

Eddie foi abandonado pequeno pelo pai. A mãe morreu de pobre, tuberculosa. Ele tinha cinco anos e ela, 24. Adotado, ganha uma fresta de oportunidade. O pouco tempo de escola lhe garante uma educação.

Então perde a madrasta, o prumo, o apoio de quem chama pai. O futuro lhe escapa. Segue sem patrono nem patrão. Falta dinheiro para comer. Tem um único casaco para enfrentar o frio.

A necessidade leva Eddie à escrita. Escreve de tudo. Artigos, resenhas, curiosidades, poemas, contos. Qualquer coisa para arrancar algum de editores muquiranas. Escreve para vender. Histórias sórdidas de sangue, de assassinos, dementes, belas à beira da morte, monstros à espreita.

Um presente inesperado: o amor incondicional de uma mulher. Mas Eddie nasceu com o signo dos malditos. Deturpa toda amizade, desperdiça toda chance. Só não trai o amigo mais perigoso: o álcool. A bandalheira leva sua carreira, a tuberculose leva sua esposa.

Aos quarenta anos some por seis dias. É encontrado estuporado de bêbado, numa taverna imunda de uma cidade distante da sua. Termina sua vida infeliz no dia seguinte, em um hospital de Baltimore, sete de outubro de 1849.

A história de Edgar Allan Poe – poeta do surreal, precursor do Simbolismo, inventor do conto policial, pioneiro da ficção-científica, maior clássico da literatura americana, tesouro da juventude e velhice – é tão terrível quanto banal. As biografias de grandes e pequenos artistas estão repletas de desesperadas necessidades existenciais e materiais. Vidas que queimam, lenha na fogueira da criação.

É preciso mesmo sofrer para criar? Nascesse Poe herdeiro, com comforto e tempo livre para escrever, teria produzido mais ou melhor? Em 2015: salário, seguro-saúde e plano de previdência privada é boa base para boa arte? Se sim, porque não pagamos salários para os criadores criar?

Escritor profissional é invenção tão americana quanto Poe. “Working writer”, no preciso termo ianque, “operário da escrita”. Escreve para vender, porque é o que lhe sustenta. Romance, conto, artigo, ensaio, biografia, orelha de livro.

O outro tipo de escritor também trabalha, mas em outra coisa. Diplomata como Guimarães Rosa. Bancário como T.S. Elliot. Médico como Moacyr Scliar. Funcionário público como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Carlos Drummond de Andrade. J.D. Salinger invadiu a Normandia carregando o rascunho de “O Apanhador no Campo de Centeio”. E Charles Dickens aos 12 anos labutava numa fábrica de sapatos, para ajudar a pagar dívidas contraídas pelo pai.

Tantas vezes abandonar o emprego e viver de escrever era um sonho – o único sonho. É noite na periferia: espie pela janela da casinha. Ouve o barulho da máquina de escrever? É o zelador do colégio aqui perto. Mora com a mulher e dois filhos pequenos. Escovão de dia, máquina de escrever madrugada adentro. Poe como inspiração e as crianças ali chorando, depois ressonando, e enfim acordando, e ele que se apronta para mais um dia limpando privadas: Stephen King.

Dá um livro as histórias tristes sobre escritores. Os que tinham que trabalhar em outras coisas. E os que tinham que escrever qualquer coisa, porque era seu trabalho.

Mal terminava eu a sofrida biografia de Poe escrita por Peter Ackroyd, coração em frangalhos, vai pros infernos com tanta desgraça, e pinga na caixa de e-mails a manchete enviada por um amigo:

“Autores Brasileiros Se Queixam da falta de cachê em Salão do Livro de Paris”. O Brasil é o país homenageado no Salão de Paris este ano. Uma comitiva de escritores nacionais foi para lá, com tudo pago.

Luiz Ruffato disse que se sente “como um imbecil que vai trabalhar de graça”,”é um escárnio com o papel do intelectual do Brasil”. Mas vir a um evento desse porte, com tudo pago, não compensa? Paulo Lins responde: “meus livros não vão vender muito mais pelo fato de eu ter vindo. As críticas que saírem aqui podem ajudar, mas isso não é o suficiente.”

A declaração definitiva é de Rodrigo Ciríaco, ator de “Te Pego Lá Fora”: “não se deveria nem falar em cachê, mas em salário. É uma atividade profissional, um exercício físico e intelectual. E não é um trabalho para mim. Estou trazendo a literatura da periferia de São Paulo, dos saraus, estou falando de uma cena.”

Rodrigo nasceu e cresceu na periferia. Conseguiu se formar em História na USP. É professor da rede municipal em São Paulo. É pedir muito pingar uma grana para Rodrigo? Não é isso que vai quebrar o Tesouro Nacional. Qual o problema de pagar um cachêzinho?

O problema de desembolsar dinheiro público para escritor frequentar evento literário é exatamente o mesmo de atores famosos terem contas na Suíça. Esses dias saiu uma listinha de famosos que protegem seus dólares em bancos no exterior, enquanto bancam seus negócios no Brasil usando dinheiro público, via lei de incentivo. Tudo dentro da lei. Tudo errado.

É passar recibo de coadjuvante um escritor almejar salário público. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros que pegam dinheiro do governo para gritar contra o sistema.

Cada um se vira como pode. Escritor não tem esse direito. Nossos pobres escritores em Paris e nossos ricos artistas com contas na Suíça são a mesma face da mesma moeda.

Mas ator diz o que outros escreveram. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística.

Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.

Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam o norte. E sem eles, nos perdemos.

Onde estão os escritores que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna?

Depender do poder político e econômico é se assumir subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. E as exceções reforçam a regra.

Literatura é dissenso, discórdia, danação. Graham Greene cravou: “A Itália, durante trinta anos sob os Bórgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz – e o que produziram? O relógio de cuco.”

Categoria: Vai ser pra mim Sobre: Textos de outros autores Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro O dia em que o Rock morreu

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Autor: André Forastieri é jornalista desde 1988, empreendedor desde 1993 e crítico de cinema. Acaba de lançar o livro O dia em que o Rock morreu

E as contas na Suíça, claro.

Quem é contra o Bolsa Família ou é mal-intencionado, ou está mal-informado

Texto de André Forastieri, leia aqui

bolsa familia Quem é contra o Bolsa Família ou é mal intencionado, ou está mal informado

Sempre que a oportunidade aparece, ressuscita a campanha contra o Bolsa Família. Seu objetivo não é acabar com o benefício. É tão impossível quanto acabar com o salário mínimo, o Natal, o nascer do sol. As metas são outras: manter o Bolsa Família com o menor valor possível, enxovalhar a reputação de quem o recebe, influenciar a opinião pública para que se torne politicamente difícil a criação de outros benefícios semelhantes, e bater no governo. A quem interessa? Aos que têm outros destinos para o dinheiro dos nossos impostos.

Recentemente, a correria por conta dos boatos sobre o fim do Bolsa Família ressuscitou os zumbis de sempre. As questões habituais se arrastaram para fora da tumba: o Bolsa Família é bom? É justo? Não é um estímulo oficial à vagabundagem e à procriação destrambelhada? Não seria melhor deixar de lado essa política assistencialista, e focar na geração de empregos, verdadeira porta de saída dessa esmola? Não tenha dúvida: na próxima oportunidade que pintar, os mesmos de sempre voltarão a atiçar com desinformação os mesmos preconceitos. É bom estar preparado para retrucar.

bolsa familia blog Quem é contra o Bolsa Família ou é mal intencionado, ou está mal informado

A revista britânica Lancet publicou semana passada estudo que relaciona de forma conclusiva o Bolsa Família com a queda da mortalidade infantil. Dados de quase 3000 municípios brasileiros foram utilizados, no período entre 2004 e 2009. A Lancet é a mais tradicional publicação científica na área de saúde do planeta – existe desde 1823. Nas cidades em que o programa tem alta cobertura, a queda geral na mortalidade infantil foi de 19,4%. Cruzando o Bolsa Família com causas específicas de morte, o impacto é ainda maior: queda de 65% nas mortes por desnutrição e 53% nas mortes por diarreia. A íntegra está aqui.

O Bolsa Família, portanto, salva vidas. Não é uma solução permanente. É uma operação de emergência, necessária hoje e todo dia. Sua missão fundamental é salvar vidas em perigo, vidas que enfrentam uma calamidade permanente (o miserê nacional, desastre que de natural não tem nada). Aí chegamos a outra crítica comum ao programa: mas pra quê tanta criança? Essa mulherada sem vergonha não está parindo um filho atrás do outro, só pra garantir uma renda fixa?

A resposta é um grande não. A taxa de fertilidade do Brasil vem caindo rápido. Hoje é de 1,8 filhos por mulher, a mesma que o Chile, menos que os Estados Unidos (1,9). Está abaixo do nível mínimo de reposição da população (que é 2,1%). É evidente que se o mundo tivesse dois bilhões de pessoas, em vez de sete, estaríamos melhor na fita. Quanto menos pobre, menos pobreza… mas o fato inquestionável é que as brasileiras têm cada vez menos filhos. E cada vez mais tarde – 40% das nossas conterrâneas entre 25 e 29 anos ainda não têm filhos. Dados citados em um iluminador artigo da Economist desta semana.

A importância do Bolsa Família para essas famílias pobres ficou assustadoramente explícita nas reportagens de TV sobre o corre-corre. Pareciam cenas de refugiados na África, se batendo por um galão de água, um saco de ração. Por que nossos compatriotas ficaram tão desesperados com a possibilidade de ficar sem o Bolsa Família? Porque eles não recebem um monte de outros benefícios simultaneamente. Comparando com os países que tem a melhor qualidade de vida, o Brasil tem benefícios sociais minúsculos.

O sociólogo Alberto Carlos Almeida fez uma comparação chocante entre Brasil e Inglaterra, em artigo para o jornal Valor Econômico. Os ingleses ganham salários muito mais altos que os brasileiros. E mesmo assim recebem muitos tipos de auxílio diferentes, que aqui não existem. Alguns:

– bolsa funeral (R$ 2100 para ajudar no enterro de seu familiar, incluindo pagar flores, caixão, uma viagem de algum parente para o velório etc.)
– bolsa aquecimento no inverno (média de R$ 2400 por mês para ajudar você a se aquecer no inverno)
– bolsa necessidades especiais (para deficientes ou idosos, até R$ 1500 por mês)
– bolsa cuidador de quem tem necessidades especiais (R$ 720 por mês)
– bolsa aquecimento por painéis solares (até R$ 3600 por mês)
– seguro desemprego (R$ 720 por mês)

E muitos outros de todo gênero. Almeida destaca o bolsa criança, que paga R$ 1350 por mês para a família que tem uma criança (e mais uns R$ 1200 para o segundo filho etc.). Vale lembrar que a saúde pública inglesa é boa e gratuita, assim como a educação, em sua maior parte. Por isso tudo, os ingleses são mais saudáveis e educados que os brasileiros, vivem mais e melhor que nós, em um país sem violência. Lá, os impostos são aplicados em benefícios que garantem uma vida mais saudável e segura. Quando alguém criticar o Bolsa Família, faça-lhe um favor: jogue esses dados na cara do infeliz. Nós, brasileiros, precisamos ter consciência do que funciona bem em outros países, para cobrar as mesmas leis aqui. Dou o link para a reprodução do texto de Almeida no site do Senado Federal, porque no site do Valor é só para assinantes.

Certo que o Brasil não é a Inglaterra. Certeza que há dinheiro suficiente para ajudarmos nossos deficientes, idosos, crianças, desempregados e defuntos. Estão aí os estádios faraônicos pra Copa, molezas diversas para empresas próximas do poder, benesses variadas para apadrinhados etc. Somos a sexta maior economia do mundo. Nosso desafio não é gerar recursos, é forçar a aplicação desses recursos no que trará mais benefícios para nossa população.

O PT explora politicamente o Bolsa Família? Claro, é isso que governos fazem, e oposição idem. Aécio Neves até já disse que quem criou o Bolsa Família foi o PSDB (não foi, mas criaram coisas parecidas. Lula, quando o Fome Zero não decolou, reempacotou os benefícios criados pelos tucanos, engordou um tanto o bolo, e marketou magistralmente). Minha sugestão é que os governos estaduais e municipais da oposição criem seus próprios bolsa isso e bolsa aquilo. Que bom se os políticos disputarem nosso voto nos dando dinheiro, em vez de tirar…

O questionamento do Bolsa Família mais furado de todos é o moral: é justo uma pessoa receber dinheiro, sem ter trabalhado por isso? Nem merece resposta. A questão não é de justiça, é de isonomia. Os mais ricos já recebem bastante dinheiro sem trabalhar. Embolsam rendimentos de suas aplicações financeiras, aluguel de imóveis e tal. Acionistas de empresas recebem dinheiro sem trabalhar: os lucros. E herdeiros recebem dinheiro sem trabalhar, às vezes sem nunca ter trabalhado de verdade. Muitas crianças brasileiras felizardas já têm seus futuros assegurados, graças ao que construíram seus pais ou avós. Nunca precisarão pegar no batente (e mesmo assim, como sabemos, muita gente abonada continua trabalhando, porque assim se sente realizada, produtiva, estimulada, ganha mais dinheiro ainda etc. Dinheiro é 100%, mas não é tudo…).

Na próxima vez que a campanha contra o Bolsa Família mostrar sua cara feia, ajude a cravar uma estaca em seu coração. O Bolsa Família não é nenhuma maravilha, mas é infinitamente melhor que nada. Tem que ser aplaudido, imitado, diversificado e expandido para pessoas que não têm família. Tem que ter o seu valor aumentado, bastante e rápido. Contra fatos, e vidas salvas, não há argumentos.

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