Do Boulevard à Cracolândia

Entendendo o Bairro da Luz

Para entender como um pântano tornou-se um bairro elegante e depois a atual Cracolândia, muitos voltariam no tempo. Não sei se nesse caso o tempo traria respostas ordenadas e lógicas.

Imagem 3: Cena do Filme Sábado; Disponível em: <https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/09.098/125

Tentar visualizar o bairro da Luz e sua complexidade parece se firmar em um tripé: Pântano, Elegância e Decadência[1], essa seria nossa referência cronológica. Hoje ainda temos um tripé: Arquitetura, Arte e Cracolândia, essa seria também uma referência cronológica, porém o tempo parece cair por terra.

Hoje ainda temos um tripé: Arquitetura, Arte e Cracolândia

No estudo da droga devemos levar em consideração não apenas o que for ilícito, mas também o tratamento que a droga acontece em meio à sociedade. Sabemos que ela é presente nas mais diferentes culturas ao longo dos milênios. Devemos levar em consideração situações como rituais entre índios, a cultura vigente e como ela é trabalhada. O sociólogo Gilberto Velho em entrevista concedida a Mauricio Fiore analisa pensarmos em diferentes formas de trabalhar o assunto. Baseando-se nessa entrevista, em qualquer sociedade há relatos do uso de substâncias para alteração de consciência.


O prédio da Estação Pinacoteca foi construído em 1914 projetado por Ramos de Azevedo. A princípio abrigou um armazém de apoio a Companhia Sorocabana. Em tempos de ditadura foi local de prisão e tortura de presos políticos. Hoje chama espaço Pinacoteca e serve de suporte a Pinacoteca e seu vasto acervo[1].

[1] ESTAÇÃO PINACOTECA. Disponível em: <http://www.saopaulo.sp.gov.br/conhecasp/cultura_museus_estacao_pinacoteca>

Como, na sociedade moderna e contemporânea, se utiliza a droga, como negociam o uso da droga com outros grupos, como se dá esse grande drama do conflito permanente ligado à questão do uso e consumo de drogas? Só isso, só o fato de haver esse conflito justifica plenamente qualquer nível teórico, sociológico ou antropológico, para investigação. ( CAIUBY, Beatriz. 2008, p. 128-129).

Em três ocasiões, em três temas, em três situações, em que momento, eles se encontram? Contrariando a teoria de Isaac Newton, nesse caso parece que dois “corpos” ocupam o mesmo espaço. Melhor, três, a nossa tríade.

Três épocas distintas conseguiram centralizar temas disparates que andam em paralelo e dificilmente se encontrariam, mesmo que no final haja uma bifurcação. Sei que não é o caso da arquitetura que a tudo encontra, de uma arquitetura que mostra, esconde e também denuncia. Elegância, arte, tempo cronometrado, prostituição, decadência, falta de memória e apego a uma história que a máquina iniciou sua derrubada.

O que vemos é uma paisagem embaçada que analisamos debaixo de um conformismo inerente aquele que aqui mora. Tudo isso se reflete de forma clara e objetiva no bairro.

Neste capítulo será abordado o processo de formação, o desenvolvimento e como o bairro tornou-se o que é hoje, para assim, viabilizar o entendimento de uma região tão estigmatizada e contraditória. Enfatizando o modo como ocorreu à ocupação do local e as razões que culminaram para que o bairro se encontre tal qual como está.

Formação histórica e seu contexto na cidade até os dias atuais

O início: Período entre os séculos XVI e o início do XIX

Figura 6: Campos do Guaré – Desenho de Willian J. Burchell 1827. Fonte: MOSQUEIRA. 2007, p. 21

Para entendermos o processo de decadência sofrido pela região central de São Paulo em especial a região da Luz faremos uma breve análise das mudanças ocorridas nos bairros que o circundam e quão fundamental a ferrovia foi para o desenvolvimento da cidade. Como referência tomemos os três bairros que circundam a região da Luz: Bom Retiro (a Luz é subdistrito do Bom Retiro), Campos Elíseos e Santa Ifigênia.

Imagem 4: Campo e Convento da Luz – Foto: Militão Augusto de Azevedo, 1862. Disponível: <http://www.djweb.com.br/historia/seculo19/militao4.htm>.

Originalmente o que hoje é denominado de região da Luz, era conhecido como Campo do Guaré ou Caminho do Guarepe que, em Tupi Guarani, significa matas em terras molhadas, porque em épocas de chuva os rios Tamanduateí e Tietê transbordavam e inundavam a região.

O bairro passou a ser conhecido como Luz, quando Domingos Luiz, carvoeiro português, muda-se para a região e constrói uma capela em homenagem à sua santa de devoção, tratava-se da Nossa Senhora da Luz.

Mapa 3: Capital da Província de São Paulo de 1877. Fonte: MOSQUEIRA. 2007, p. 25

Além de atrair visitantes e devotos, a construção se tornou ponto de referência para os viajantes que por ali passavam, afinal, o Caminho do Guaré era o único até então, com saída da cidade para o norte e, após realizar a travessia do rio Tietê se chegava à fazenda de Santana.

Toda a área servia de pastagem para o gado que vivia solto e ali predominavam desde o século XVI, haja visto que, esta região era conhecida como o “curral da vila”, uma vez que a cidade de São Paulo, ainda era apenas a Vila de São Paulo.

Durante o século XVIII e quase metade do século XIX, toda a região da Luz, era pouquíssima habitada, pertencendo assim, ao que eram denominadas de cinturão de chácaras, chácaras essas que circundavam toda a cidade e, hoje se tornaram os bairros do Bom Retiro, Pari, Brás, Moóca, Cambuci, Vila Mariana, Santa Cecília e Barra Funda.

Em 1782, com a construção das que hoje são as ruas Florêncio de Abreu e Brigadeiro Tobias, foi possível viabilizar o crescimento do bairro Santa Ifigênia. Toda esta área de extensão plana passou a abrigar as atividades que a colina onde o triângulo histórico da cidade está situado, não comportava. Vagarosamente tal região foi beneficiada por estar localizada num entroncamento de rotas comerciais.

Nos terrenos em volta da Capela da Luz, foi construído em 1774 o convento da Imaculada Conceição da Luz, sendo este, considerado nos dias de hoje, a principal arquitetura remanescente do período colonial, na cidade.

De conformidade com o mapa da cidade de São Paulo datado de 1810 e com a ilustração sequente, é possível ver a quase inexistência de construções na atual área pertencente a Luz e como os eixos e elementos principais da paisagem do bairro já estão definidos: o caminho da Luz (Av. Tiradentes), o Horto Botânico (Parque da Luz), o Mosteiro da Luz, entre outros.

Por ser uma área de várzea e claro, sujeita a inundações, toda esta região era de propriedade do Estado, isso até meados do fim do século XVIII, pois não havia interesse de se realizar construções residenciais neste local.

Entretanto, foi justamente em virtude de tal quadro, que culminou em tantas construções institucionais em toda região. Data de 1797 a delimitação do “Horto Botânico”, embora este tenha sido inaugurado apenas em 1825, já com uma área menor do que a estipulada inicialmente, em circunstância da construção da primeira estação de trens da cidade.[2]

Mapa 2: A cidade de São Paulo em 1810. Fonte: MOSQUEIRA. 2007, p. 21

O processo de desenvolvimento: Século XIX

Somente no início do século XIX, é que os governantes retomam as obras para urbanização do bairro, a partir daí, com a melhoria dos caminhos no entorno das chácaras, se viabiliza que as Famílias mais abastardas ocupassem estas áreas mais próximas ao núcleo central, devido ao comodismo oferecido pela existência de fontes de água, por ser um local propício para o lazer e por oferecer alimentos para os animais.

Imagem 5: Cartão postal de Guilherme Gaensly. Jardim da Luz – Um Museu a Céu Aberto.

É apenas em 1870 que o Horto Botânico é redesenhado, ganham novos atrativos, cercas, portões e, passa a ser chamado de Jardim da Luz.[3] Também nesta mesma época, existia no rio Tamanduateí, junto a Ponte Pequena um pequeno porto fluvial, onde feiras eram realizadas, a somatória deste fator junto com a obra do Aterrado de Santana, nas várzeas do rio Tietê e Tamanduateí, culminaram na ocupação e expansão de todo o comércio nas redondezas, portanto o caminho da Luz passou a receber ao longo de seus canteiros (até então ajardinados), mais usos institucionais.

Ao norte do Jardim, foi construída a primeira cadeia pública da cidade, a Casa de Correção, também conhecida como Presídio Tiradentes que foi inaugurado em 1840. As importantes e grandes construções prosseguiram, tanto que em 1853 ao sul do Mosteiro da Luz, foi dado início as obras do Seminário Episcopal e do Ginásio Arquidiocesano.

A principal rota de tráfego existente na ocasião se dava entre as cidades de São Paulo e Santos, uma vez que o transporte de modo geral para cidades como o Rio de Janeiro, por exemplo, ocorria por via marítima.

Em decorrência disto, a primeira estação de passageiros de São Paulo é construída em parte do terreno do antigo Horto Botânico, como já foi mencionado anteriormente, pois o bairro propiciava fácil acesso a todo o restante da cidade.

O movimento das linhas ferroviárias significou o impulso decisivo para o crescimento da cidade, que passou a centralizar o comércio e hospedar fazendeiros do café. O quadro urbano na época não permitia que o fluxo de comércio e pessoas fosse maior, pois ainda não contava com infraestrutura urbana, loteamentos e equipamentos suficientes. Isso propiciou a transformação ocorrida entre 1872 e 1875. (MEZA, M. 2007, p.25)

A partir de então, arruamentos foram abertos, grandes vias para permitir maior fluxo também foram executadas, ruas foram calçadas com paralelepípedos e iluminadas a gás, além da implementação dos bondes movidos à tração animal. Tudo isso, para possibilitar o trânsito de modo geral, entre o centro e o restante da cidade.

Uma de suas primeiras linhas foi a que unia o centro da cidade à Estação da Luz, na época Estação São Paulo (Matos, 1955). O Jardim da Luz também recebeu quiosques e outros atrativos e passou a ser frequentado pelas elites. Depois das benfeitorias do governo, o bairro se tornou um dos melhores equipados da cidade e a ferrovia agregou comércio e serviços para os viajantes, como hotéis e restaurantes, ao redor das estações. (Ibidem)

Tanto a cidade de São Paulo, assim como as cidades das adjacências, desde a colonização, eram terras agrícolas, e como já sabido, a produção de cana de açúcar fora substituída pelas plantações de café. É a partir da segunda metade do século XIX que a expansão cafeeira toma proporções tão consideráveis que, se torna um marco na história do desenvolvimento não somente da cidade de São Paulo, mas também de todo o Estado.

Com crescimento do Estado devido à importância do café e o afastamento das áreas de lavoura, aumentava a necessidade de deslocamento e transporte a longas distâncias em menor tempo. O tradicional sistema de locomoção por tropas de burro não atendia mais esses deslocamentos.

Foi ai que em 1867 a economia começou a deslizar sobre trilhos com o início das operações da São Paulo Railway[4], a primeira ferrovia paulista que ligava Santos a Jundiaí. A partir desta, foram sendo criadas novas linhas que ligavam outras regiões mais distantes completando a rede ferroviária.

Imagem 6: Estação Júlio Prestes.

Essa fase da evolução poderia ser chamada de pré-metropolitana, já que se configuram áreas de concentração industrial distribuídas linearmente ao longo dos eixos da Estrada de Ferro Santos – Jundiaí e da Estrada de Ferro Sorocabana, e que propiciou uma integração entre São Paulo e outros municípios vizinhos.

Imagem 6: Estação Júlio Prestes.

Partindo da linha – tronco a São Paulo Railway comunicando o planalto ao litoral, a Companhia Paulista (1868), pelo centro do Estado, abriu-se em um leque de estradas de ferro tendo: a leste a Central do Brasil, a Mogiana e a Paulista (1872) e a Araraquarense (1890); e a oeste a Sorocabana (1871) a alta paulista e a Noroeste interligado por inúmeros ramais e pequenas ferrovias.

A abertura da Rua João Teodoro na Luz foi uma das obras mais importantes para o desenho do sistema viário local, porque através desta, foi possível realizar a comunicação com os bairros do Bom Retiro e Brás. Consequentemente o prolongamento da Rua Três Rios (atual Ribeiro de Lima), também proporcionou a conexão com o então, recém parcelado bairro de Campos Elíseos, através das alamedas Glette e Nothmann.

Campos Elíseos foi o primeiro bairro projetado na cidade de São Paulo, surgiu com a inauguração da São Paulo Railway, nos anos de 1870. Estreou o serviço de abastecimento domiciliar de água da Cia. Cantareira, em 1882. Nessa época, os fazendeiros de café ocupavam os terrenos que antes eram conhecidos como Campo Redondo e, posteriormente, Chácara Mauá, por ser propriedade do visconde de Mauá.
Em 1868, passa a se chamar Chácara do Charpe e em 28 de janeiro, Largo dos Guaianases.

A chácara foi vendida para o arquiteto alemão Frederico Glette.
Os arquitetos Frederico Glette e Victor Nothmann entregaram a execução do projeto de loteamento da chácara ao engenheiro Hermann von Puttkamer.
Aprovado, começaram a construir casas inspiradas na arquitetura francesa do século 16.

 Talvez daí venha à inspiração do nome, já que Paris tem a famosa Avenida Champs Elysées, onde foi construído o Arco do Triunfo.

Entre 1882 e 1890, foram abertas as ruas dos Protestantes, Triunfo, Andradas, Gusmões, Piracicaba, Glette, Nothmann, General Osório, Duque de Caxias, entre outras. Antes da inauguração do bairro Campos Elísios, as casas mais imponentes dos barões do café, situavam-se nas ruas da Constituição e Alegre (atual Florêncio de Abreu e Brigadeiro Tobias, respectivamente).

Neste mesmo período significativas instituições públicas prosseguiram sendo implantadas ao longo da Rua João Teodoro, como é o caso do Quartel da Força Pública de 1886, o Hospital da Força Pública e a primeira usina elétrica da cidade que, por sua vez, fornecia energia para tais edifícios e funcionava com baterias.

Do apogeu ao declínio: Século XX

Campos Elíseos faz conjunção entre o paraíso em terra e a avenida mais aristocrática de Paris. Assim surgiu o primeiro loteamento planejado de alto luxo na cidade de São Paulo[1], predominantemente residencial.


[1] No Mapa 4, A Planta de 1897 foi confeccionada por ordem do Intendente de Obras o advogado Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim (1864-1932), parece ter sido elaborada, no entanto, para atender mais os interesses particulares do intendente do que o interesse público. O que adivinhamos por trás da execução desta carta são os supostos negócios de Gomes Cardim, provavelmente preocupado em convencer eventuais compradores de que o loteamento de sua propriedade, denominado Vila Gomes Cardim, estava situado numa região já bastante desenvolvida, entre a 5.ª e a 6. ª parada da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Somos levados a desconfiar das intenções do intendente diante da constatação de que parte da área arruada registrada neste documento cartográfico era completamente ilusória – em que pese o extraordinário incremento populacional da cidade sofrido ao longo daqueles anos. Ao cotejá-lo com plantas posteriores, verificaremos que, nas últimas, o tecido urbano paulistano se mostrava bem mais esgarçado do que na planta de 1897. Isso acontecia principalmente nas regiões mais remotas da cidade, onde os arruamentos de fato executados sempre se revelavam menos densos e completos do que na planta de Cardim. Se analisássemos as plantas da cidade de 1905 e de 1928, por exemplo, iriamos observar que o traçado viário nos subúrbios adquiriu, por vezes, uma configuração bastante diferente, fazendo-nos acreditar que a área urbanizada em 1897 era bem menos extensa do que Gomes Cardim queria fazer crer. Tal fenômeno pode ser constatado, por exemplo, no bairro do Ipiranga, na Vila Prudente, na Vila Cerqueira César, em Perdizes, na região posteriormente ocupada pelo Parque do Ibirapuera e na própria Vila Gomes Cardim.

Aqui já temos um problema a se formar em São Paulo, a especulação imobiliária.

Na parte Ocidental da Terra, banhada pelo Oceano, ficava um lugar abençoado, os Campos Elíseos, para onde os mortais favorecidos pelos deuses eram levados, sem provar a morte, a fim de gozar a imortalidade da bem-aventurança. Essa região feliz era também conhecida como os Campos Afortunados ou Ilha dos Abençoados. (BULFINCH, 2006, p 14)

Mapa 4: Planta de 1897. Fonte: http://www.arquiamigos.org.br/info/info20/i-1897.htm

No século XIX há uma mudança da técnica de construção onde a taipa predominante em todo período do Império, foi substituída pela construção em tijolo predominante na primeira república. Aqui temos a substituição de técnicas grosseiras adaptada para o trabalho escravo, para um trabalho especializado, formados pelo Liceu das Artes e Ofícios.

As novas técnicas construtivas disponíveis foram usadas na construção do bairro. Os palacetes, casarões e mansões traziam materiais de diversos países da Europa entre vitrais, Porcelana Sèvres, Cristais Baccarat, pinturas de artesãos italianos no teto, espelhos de cristal de Veneza. O que tinha de melhor nas cidades europeias era usado de referência na arquitetura aqui construída.

Imagem 8: Filme As Vinhas da ira (1941) de John Ford com Henry Fonda no papel principal.

Dois pontos podem ser ressaltados na mudança da elite cafeeira: uma, a concorrência do bairro que se formava no caso Higienópolis, e a principal delas, a construção da estrada de ferro Júlio Prestes. A industrialização de São Paulo se instala perto da estrada de ferro, fazendo assim que seus trabalhadores se instalassem perto das fabricas onde nasceriam suas vilas industriais. Para atender essa nova dinâmica de pessoas, cargas, automóveis e indústrias foi preciso construir uma infraestrutura para a região.

Roberto Pompeu de Toledo comenta o êxodo que acompanho a segunda metade do Século XX.

Acrescenta-se a isso que logo começou a estrada de ferro passa muito perto do Campos Elíseos e o início da industrialização de São Paulo. E a indústria se instala perto da estrada de ferro por questões logísticas, e os operários também. Aquele bairro que era para ser exclusivo dos ricos começa ter a proximidade dos pobres.[6]

O historiador Francisco Alambert comenta sobre a presença de elementos que estão associados ao luxo e exuberância contraditória que permeia a cidade de São Paulo.

Desde quando a elite de São Paulo não reclama da presença do povo nos seus lugares? Desde sempre.[7]

Soma-se a isso a quebra da bolsa de valores em NY no ano de 1929, daí temos o início da decadência do Campos Elísios e seu entorno. Com a quebra da bolsa, empresários como Jorge Street acabam perdendo tudo.

Gráfico 5: A dimensão do problema causado pela quebre da bolsa de NY. Um efeito dominó que arrastou o mundo para o abismos.

Palacete Jorge Stree foi construído no final do século XIX e adquirido pelo industrial e médico Jorge Street em 1916. Em 1929[1] o empresário perde sua fortuna e o palacete é vendido para Companhia de Seguros Sul-América. No ano instalar as faculdades de Filosofia, Ciências e Letras da USP onde ficaria até 1969. Em 1974, Octavio Frias de Oliveira (sobrinho-neto de Jorge Street) e Carlos Caldeira Filho compram o palacete. Octavio Frias teve a brilhante ideia de derrubar a construção e transformar o terreno em um estacionamento. Onde existe uma figueira centenária. Em homenagem ao casarão, as faculdades que antes ocupavam o imóvel, clonaram a árvore e plantaram uma muda em cada terreno das atuais faculdades.[2]


[1] O filme As Vinhas da ira (1940), baseada na obra de John Steinbeck retrata a vida de uma família norte-americana na época da depressão. Obra-prima dirigida por John Ford, e no papel principal Henry Fonda. Acervo pessoal;

[2] Com a demolição do Palacete Jorge Street na década de 70, restou para memória dos estudantes uma figueira (Ficus macrophylla) que se tornou arvore símbolo dos alunos que lá estudaram. Hoje esses ex-alunos lutam pela conservação e tombamento municipal dessa arvore, ou seja, pela “Figueira da Glete” como ficou conhecida.

Curso de Química na Alameda Glette (1939-1965). http://memoria.iq.usp.br/paginas_view.php?idPagina=100&preview3=8zgYcuVLUYxJ4tZUQM3gVyFXA3I42XQbFDhaZgdU-d8=#.Xite-zLMOwU

Tomemos assim o ano de 1929 como início de sua decadência.

Devemos retornar mais tempo na história. Após a Primeira Guerra Mundial os EUA tornaram-se a maior potência do mundo. Fornecendo matéria-prima e alimento para Europa, os norte-americanos viviam em uma áurea de otimismo, euforia e prosperidade que perdurou a década 1920. O país representava 50% de toda produção industrial do mundo.

Com a recuperação europeia os norte-americanos acabaram com grandes estoques de produtos levando a realidade, uma superprodução sem compradores. Os preços despencaram e as empresas foram obrigadas a demitir. Nessa época estima-se que mais de 15 milhões de trabalhadores ficaram desempregados. A crise estendeu-se entre a maioria dos países capitalistas. Tal impacto levou bancos, indústrias e fazendeiros a falência nessa que foi a maior crise financeira conhecida. Estima-se que em torno de 9 mil bancos quebraram e mais de 85 mil empresas pediram falência.

O livro que retrata esse acontecimento é Vinhas da ira de John Steinbeck. História que em 1940 foi transformada em filme pelas mãos de John Ford, contracenando no papel principal Henry Fonda.

A América Latina foi afeta por ser fornecedora de matéria-prima e produtos agrícolas. No caso do Brasil, este era o principalmente fornecedor de café para os EUA. O preço do café despencou levando empresários a falência. Os casarões foram transformados em hotéis, pensões, pousadas ou foram demolidos. Houve casos de famílias que alugavam a construção principal para ir morar nas edículas.

Imagem 9: Residência de Martinho Prado, projetada pelo francês Joseph Gire, na AV. Higienópolis. (PIRES, Mario Jorge, 2006, p. 141).

Apesar dos fatores mencionados, o centro de São Paulo seguia como uma forte referência cultural, boêmia e romântica com ar glamoroso. Teatros, bares, restaurantes, confeitarias, leiterias, livrarias, hotéis, estúdios das principais emissoras de rádio e redações de jornais tinham suas instalações no Centro Novo. As inúmeras salas de cinema construídas entre as décadas de 30 e 60 conferiram a São Paulo o apelido de Cinelândia. Algumas delas projetadas por arquitetos como Rino Levi como o Cine Art Palácio que tinha a capacidade para receber 3.119 pessoas.

Se as estações de Júlio Prestes e Luz sinalizavam para uma mudança a longo prazo, de bairros residenciais para importantes polos industriais outros fatores viriam contribuir para a paisagem da região central, as prostitutas, os malandros, bandidos e marginalizados[10].

Em 1955 elegeu-se para prefeitura de São Paulo Jânio Quadros contrariando as expectativas. Afinal seu adversário além de ter apoio das principais legendas do estado, gastou uma fortuna em sua campanha e obteve intenso apoio municipal e estadual. Essa campanha ficou conhecida como O tostão contra milhão.

Sabe-se que Jânio Quadros tinha mania por “limpeza” (seu símbolo era a vassoura), e uma de suas primeiras “higienizações” começou pelo bairro do Bom Retiro. O local era reduto da malandragem, prostituição, jogatina e violência. Suas vassouras miraram para este submundo, fechando bares, casas noturnas e hotéis e varrendo as pessoas para o outro lado da linha. Essa mesma atitude seria repetida 50 anos depois na gestão Kassab.

A partir da década de 50 os marginalizados encontraram nessa área da cidade, Luz, Santa Ifigênia e Campos Elísios, um ponto de encontro e vivência que ficou conhecido pela alcunha de Quadrilátero do pecado.

Um dos principais personagens dessa época foi Hiroito de Moraes Joanides (1936-1992). Apesar do nome, Hiroito não tinha descendência japonesa. Na verdade, seu pai admirava o imperador japonês batizando o filho em homenagem.

Hiroito mais parecia um personagem saído dos livros de Dashiell Hammett. Era antagônico ao marginal arquétipo. Franzino, malvestido, de voz fina e cabelos ralos ninguém atribuía a ele o reinado do submundo. Sua entrada para o crime se deu após o assassinato do pai, fato este que foi indiciado e absolvido. O que não impediu de familiares e amigos lhe darem as costas.

Em razão de suas atividades, lícitas ou ilícitas, muitos desses personagens inscreveram seus nomes na história. Hiroito de Moraes Joanides, autodenominado “rei da boca”, puxava a fila dos contraventores, espichada por gente como Xodó, Quinzinho, Nelsinho da 45 e Pato N’água. “Em sua autobiografia, Boca do Lixo, que escreveu nos anos 60, Hiroito mostra que o malandro paulistano não é um personagem isolado, mas integrado a um submundo que congrega a chamada escória social, trabalhadores ou marginais”, comenta Márcia[11]. Entre os “trabalhadores”, além dos indefectíveis representantes da polícia e da imprensa (cuja relação, aliás, costumava ser estreitíssima), inúmeros artistas, sobretudo músicos, borboleteavam por ali. Adoniran Barbosa, Geraldo Filme e Germano Mathias, entre outros, imortalizaram a época em sambas inesquecíveis.[12]

A sua passagem pelo mundo do crime inclui assassinatos, espancamento, tráfico e consumo de drogas e segundo relata em seu livro Boca do Lixo, nunca atirou em gente de bem. Leitor assíduo de escritores como Victor Hugo, Hemingway, Jack London, Whitman e Baudelaire[13]. Foi detido mais de 170 vezes e sua ficha policial chegava a 20 metros. Em 2010 Daniel de Oliveira deu vida ao personagem no cinema no filme Boca de Flávio Frederico. Sobre Flavio Frederico falaremos mais para frente.

Imagem 10: André Barcinski e José Mojica Marins.

Cinema. Pois foi justamente do cinema que o Quadrilátero do pecado recebeu o próximo apelido, Boca do lixo. Segundo Carlos Reichenbach o termo Boca do Lixo surgiu junto com o cinema marginal.[14]

Se antes as ferrovias tinham papel fundamental para o transporte do café sentido Santos, agora ela se torna fundamental para a distribuição de filmes pelo país e mundo.

Por ficar próxima às estações da Luz e Sorocabana, a Boca do Lixo se transformou em local de passagem de pessoas e produtos. Por conta da localização estratégica, muitas distribuidoras de filmes estrangeiros se firmaram na região. Já nos anos 20 e 30, empresas renomadas como a Paramount, a Fox e a Metro se instalaram por lá. Décadas mais tarde, a Rua do Triunfo se transformou em reduto do cinema.[15]

O cinema marginal que se instalou na região da Luz foi responsável por uma das mais produtivas no Brasil. Naturalmente quando falamos da Boca do lixo a primeira informação que nos vem a mente são as pornochanchadas. Porém devemos lembrar que vários estilos cinematográficos permearam a Boca. Diferente do que temos hoje na época da Boca tínhamos um cinema mais autoral, cinema para o país chamar de seu. Hoje as produções continuam como foi há décadas o cinema novo, cinema de engajamento político e social, com influência do cinema europeu ou argentino. Muito diferente daqueles feitos por artistas como José Mojica, Claudio Cunha e outros. Teve suas musas como Sandra Bréa, Nicole Puzzi, Helena Ramos e outras.

Filme autobiográfico de Hiroito de Moraes, conhecido como Rei da Boca, um dos maiores bandidos dos anos 50 e 60. De família rica, Hiroito levava a vida na flauta, frequentando a baixa boemia paulistana até uma tragédia mudar o rumo da sua história.

O preconceito por parte da crítica, contribuiu para que esse cinema caísse no esquecimento. Até hoje não é uma vertente aceita pelos críticos e público em geral. Fica evidente a ignorância e falta de conhecimento quando analisamos o texto vinculado pela então Ministra da Cultura Anna Hollanda emitiu um comunico referente a morte do cineasta Carlos Reichenbach (Porto Alegre, 14 de junho de 1945 – São Paulo, 14 de junho de 2012).

Sobre o texto, quem se expressa é o jornalista André Barcinski.

Imagem 11: Santa Efigênia, reduto do cinema marginal, Boca do Lixo.

É uma das declarações mais preconceituosas, desconexas e ignorantes que já li. Saber que a Ministra da Cultura declarou isso dá depressão. Mostra um total desconhecimento da história do cinema brasileiro e do cinema paulista em particular. Vamos lá: em primeiro lugar, Carlão não foi considerado “marginal” e “da Boca do Lixo” por “trilhar caminhos menos usuais entre os cineastas tradicionais”. Isso dá a entender que ele era um “cineasta tradicional” (daí o “entre” usado pela Ministra, incluindo Carlão no grupo) que optou por “trilhar caminhos menos usuais”. “Menos usuais” para quem, cara-pálida? Para a geração de Carlão, formada nos cineclubes e fora do circuito estatal de financiamento, a liberdade criativa da Boca do Lixo era a única opção. Ou foi, por um bom tempo. Aí vem a pior parte: “No entanto, apaixonado pelo cinema em si, foi autor de obras-primas…” “No entanto”? O que isso quer dizer? Será que Ana de Hollanda quis dizer que “apesar de ser da Boca, ele era um ótimo cineasta? E “apaixonado pelo cinema em si”? Quer dizer que o cinema da Boca não era cinema? Ou era um tipo de cinema que não se incluía no “cinema em si”? A frase inteira, começando em “no entanto”, dá a entender que Carlão fez obras- primas “apesar” de ser associado ao cinema marginal e da Boca do Lixo. Ministra, um toque: Cinema Marginal não é cinema feito por marginais. Não é cinema menor e não é demérito para ninguém estar incluído nesse grupo “marginal”. A Boca do Lixo foi um dos

Imagem 12: AV. São Luiz apelidado pelo pessoal da Boca Lixo, de Boca do Luxo.

capítulos mais bonitos de nosso cinema, um oásis de liberdade e independência, uma célula de resistência que teimava em sobreviver num cinema quase sempre dependente do Estado. E o Estado brasileiro, desde sempre, fez questão de varrer o cinema da Boca do Lixo para baixo do tapete oficial.

Em Abril de 2012 a galeria Olido fez uma retrospectiva sobre o cinema da Boca do Lixo. Filmes roteirizados por importantes escritores como Marcos Rey como O Clube das infiéis de Claudio.[16]

A Cracolândia é circundada pelos bairros Campos Elísios, Santa Efigênia e Bom Retiro. Se Campo Elísios foi um bairro projetado para as elites e os Barões do Café, Santa Efigênia era o oposto. O lugar concentrava inúmeros cortiços, hotéis, construções precárias e prostituição. No Século XIX os inferninhos eram frequentados por escritores como Alvares de Azevedo, estudantes de direito do Largo São Francisco. A Aurora foi tema para Adoniram Barbosa construir sua “Saudosa Maloca”.

O primeiro registro de uso do crack se deu no ano de 1989. Dois anos depois fez-se a primeira apreensão. O provável é que a droga tenha entrado no país vinda da Bolívia e ou Peru e através do Acre. (EM DISCUSSÃO, 2011, p. 16)

Quando o crack surgiu no Brasil, no final da década de 1980, o crime organizado preferiu não o comercializar. Na mente dos traficantes, o crack tem um caráter destrutivo que até mesmo eles ficaram receosos em relação ao seu comércio. Tempos depois o tráfico entendeu que a venda do crack traria mais lucro a suas atividades. Não tem cocaína vai de crack, não tem crack, vai de oxi. Não tem dinheiro? Vai vender de crack. Comparando o crack com a cocaína, o fato de seu efeito passar rápido, entorno de 5 a 10 minutos, o lucro com a droga seria também vantajoso, levando os traficantes a adotarem.

Com poder altamente viciante e mais barata que a cocaína sendo que o foi percebido seu uso principalmente entre a população mais carente. Porém o crack acabou se alastrando pelas camadas sociais. Basta lembrar-se do prefeito de Washington Marion Berry flagrado em 1990, o prefeito de Toronto flagrado em 2013, a socialite Brooke Mueller, Elke Maravilha.

Depoimento de um delegado da polícia federal que preferiu não se identificar – O Brasil é hoje um corredor de todas as drogas. Elas vão para Europa e Estados Unidos. Do volume que passa por aqui, não se sabe que porcentual fica para o consumo interno, não há como medir o quanto isso representa do total apreendido. (MACFARLANE, 2012. P. 164)

Cinema, artes plásticas, Parques, prostitutas, bandidos, traficantes, viciados, barões do café, cortiços e casarões construídos com material trazido da Europa. E agora?

Qual a imagem do Campos Elíseos?

Os Barões de café que outrora ocuparam a região?

Qual é a imagem da Santa Efigênia?

As prostitutas que se instalaram ali desde o final do século XIX. Sobre esse assunto divaga David Cardoso:

…Onde prostitutas viraram atrizes, algumas atrizes prostitutas.[17]

Sem poética?

Temos Zé do caixão.

Tumulo do samba?

Não no Largo General Osório.

A Boca do lixo morreu?

Imagem 13: Palácio do Campos

Não, ela apenas mudou de nome, Cracolândia.

A problemática: A Luz no século XXI

“Que bairro é este?”

“Campos Elíseos”.

“Campos Elíseos. Conheço muito. É um bairro chic, muito chic. E agora? Como é que está isso aqui”

No entanto, a despeito do rico vocabulário e da interessante sintaxe, da força figurativa e da “densidade” semântica, a área da Luz parecia condenada a uma implacável espiral de declínio. Impulsionada pela contradição que opunha (e opõe) – quase ao paroxismo – as propriedades e potencialidades urbanas, arquitetônicas e urbanísticas, daquela região central às dificuldades e problemas sociais que, ali acumulados, permeiam-lhe a vida e marcam-lhe a paisagem, o processo de decadência refletia a assimetria perversa inerente ao “modelo ecológico” da cidade (que, se não é exclusividade de São Paulo, aqui se mostra contundentemente: nítida, ampliada e crescente e não restrita à chamada “periferia”).[18]

Como vimos no mapa 4, um dos grandes problemas de São Paulo, que permeia até os dias de hoje é justamente a especulação imobiliária. Têm-se regiões, por exemplo, a República na zona central da capital, onde é fácil nos depararmos com imóveis lacrados e/ou abandonados.

Para Marcio Kogan a especulação imobiliária “transformou São Paulo em cidade medonha”.[19].

Há anos arquitetos, urbanistas e sociólogos chamam a atenção do quão nocivo são os condomínios fechados, as segregações sociais. Os shoppings que tiraram as compras feitas em movimentação e deslocamento pela cidade. O cinema que saiu das ruas para serem abrigados em locas fechados e com seguranças próximos das pessoas. Em outras palavras, as pessoas foram tiradas de circulação pelos centros urbanos, para circularem em carros, onde o indivíduo sai de um lugar fechado e vigiado para entrar em outro fechado e vigiado. Tornando esse mais um dos pontos de abandono arquitetônico, historio e cultural levando assim as grandes capitais escoarem problemas que surgiam, como o abandono e também a degradação.

Durante as décadas de 1980 e 1990, São Paulo caminhou nessa direção, com a construção de condomínios fechados com segurança de prisão. É sabido que a cidade foi palco de uma violência urbana comparável a guerras, o que fez as classes medias e a elite correrem à esses locais fortificados. Paralelamente muitos proprietários de imóveis nas regiões esperam uma futura valorização do mercado imobiliário.

Temos mais um tripé claros na região central: Especulação imobiliária, segregação social e gentrificação.

Inúmeras foram as tentativas dos governos para atrair o setor das construtoras para o local.

A Região da Luz é um dos bairros com melhor infraestrutura da cidade. Olhando atentamente chegamos à conclusão de que o lugar é equipado de forma a dar grande comodidade, entretenimento, conhecimento e muitos outros equipamentos disponíveis e essenciais, onde até mesmo o carro poderia ser dispensado.

Há tempos políticos, olham de forma perplexa para a região e tem conhecimento de seu potencial imobiliário. Talvez o lugar que melhor representa este raciocínio seja a Sala São Paulo. Transformada em uma das melhores salas do mundo, teve um investimento de 44 milhões de reais. Para um trabalho de acústica perfeito, o teto móvel se adapta conforme a música. Seu teto há placas que se locomovem para acústica para melhorar a qualidade de som[20].

Na região não houve grandes mudanças e a região da Luz segue sua rotina, no ostracismo.

Entre 1999 e 2002 houve uma grande polêmica na restruturação e restauração da Estação da Luz. A questão envolvia Paulo e Pedro Mendes da Rocha. A Estação é tombada, porém o documento prevê proteção a mudanças apenas em suas fachadas, dentro o arquiteto faz o que “achar melhor”. Paulo Mendes da Rocha como um eterno modernista mandou derrubar tudo, tanto nos saguões como na área de embarque. Deixou assim uma Estação centenária com cara de pseudomodernista. Eis a questão da discórdia, em seu projeto constavam um espaço continuo sem paredes, apenas painéis para liberar a vista do visitante, isso no caso dos saguões. Este é hoje o museu da língua portuguesa[21].

Mesmo assim as construtoras não se abalaram em lançar empreendimentos na região, a Cracolândia segue.

As políticas públicas da região nunca foram direcionadas para o bem-estar da população, para resolver este grave problema de saúde pública que é o crack, nunca se voltaram para a habitação popular e para a valorização da cultura local. Ao contrário, sempre foram calcadas numa expectativa de transformar aquela região em um grande acontecimento imobiliário.

O espaço abriga, ainda, um centro de memória para a preservação e pesquisa da história da própria Pinacoteca e a Biblioteca Walter Wey. O local onde ficavam confinados os presos no antigo prédio do DOPS deu lugar ao Memorial da Resistência, que conta com quatro celas e um totem multimídia, onde o público tem acesso ao acervo de fichas e prontuários de pessoas que passaram por lá, como Monteiro Lobato e Mário Covas, ou tiveram seu nome registrado na época da ditadura, como o presidente Fernando Henrique Cardoso e o ator Paulo Autran.

A deterioração da região segue, sem intervenção de qualquer espécie, e com problemas graves.

O governo tomou várias medidas na tentativa da valoração da área. Depois caiu em si. Para quem ficaria um espaço onde tirando as mazelas seria surpreendente?

Algumas ações não deixam dúvida sobre as intenções de quem as promove. Um incêndio, cujas causas são ignoradas, atingiu a Favela do Moinho, situada na região central ao lado da ferrovia. Alguns dias depois, numa ação de emergência, a prefeitura contrata a implosão de um edifício no local sob alegação do risco que ele podia oferecer aos trens que passam ali (enquanto os moradores continuavam sem atendimento, ocupando as calçadas da área incendiada). Em seguida, os dependentes químicos são literalmente atacados pela polícia sem qualquer diálogo e sem a oferta de qualquer alternativa. (Esperavam que eles fossem evaporar?). Alguns dias depois, vários edifícios onde funcionavam bares, pensões, moradias, são fechados pela prefeitura sob alegação de uso irregular. (O restante da cidade vai receber o mesmo tratamento? Quantos usos ilegais há nessa cidade?)

Qual urgência em mudar o destino a que se foi obrigado? Ora, o motivo é os mesmos sofrido no bairro de Campos Elísios quando a elite se transferiu para Higienópolis. Onde quando a região não tem supostamente valia, é abandonada a própria sorte. Mais uma ressalva, como de repente aconteceu essa transformação cultural em torno dos bairros “ligados” a Cracolândia?

Percebendo o nicho cultural em que o centro veio se transformando, “sem querer”, tanto governo, construtoras e moradores se empenharam em uma disputa de quebra de braço.

As Construtoras não querem usar a área para uso misto, querem apenas dar continuação aos seus prédios tão expressivos que passam em branco.

O governo quer uma parceria com as Construtoras para uma possível renovação da área.

A população tem suas histórias registradas em suas ruas, bares, equipamentos culturais e artísticos dos mais variados.

Os nóias?

Estão todos lá há muito tempo.

Cracolândia

Até que chegamos a um prédio abandonado… O Dodinha me olhou e olhou para o prédio, como quem diz: “É aqui Negrão… É tudo nosso!”

O muro que dava acesso ao prédio tinha vários buracos por onde os viciados entravam e saiam… Não tinha só crianças, tinha tudo que é tipo de criatura. (BILL, 2006, p. 30).

Cracolândia

Além de ser um problema de saúde difícil e delicado para os órgãos governamentais e de saúde resolver, há ainda os meios de comunicação onde poucos tratam a questão sem sensacionalismo. Poucos conseguem registrar a agonia, tanto dos dependentes químicos, como de seus familiares, das vítimas de roubos, e daqueles que não estão envolvidos diretamente. Muitos que chegam as Cracolândias têm histórico de vida conturbado. Deve ser levado em consideração que, na região da Cracolândia tem pessoas morando naquele espaço que não são usuários, traficante nem prostitutas. Há uma cultura de lugar ou como disse Francisco Alambert no documentário Santa Efigênia e seus pecados, uma cultura de não-lugar. É assim que ele vê São Paulo. É assim que vemos São Paulo?

Ora quando a polícia se aproxima dos dependentes em lugares escombros, prédios abandonados ou invadidos esses se dispersão pelos arredores da Estação da Luz.

A arquitetura que serve de abrigo, principalmente para usuários de drogas em especial o crack acaba contribuindo de forma negativa o trabalho de assistentes sociais ou mesmo da polícia. Na maioria dos casos, nem polícias, nem assistentes sociais ou de saúde ou o governo tem ideias concretas e funcionais de como tratar essa questão e assim reverter em parte a questão.

Suzana é dependente de crack. Ela tem 19 anos. Ficou 12 na rua.

Eu tenho que lidar com o meu vazio. Tem gente que para de usar droga e preenche com comida, sexo. Eu não quero preencher com nada. Quero o meu vazio, vazio. Sei que é um prazer imediato. Tomou já era. Só que não é bem assim. Se tudo tivesse uma solução… (MACFARLANE, 2012, p. 153).

Formou-se uma periferia dentro do centro esquecido pela população e governos.

São muitos os fatores que levam a perguntas e resposta, que inclusive esta matéria tenta enxergar.

Analisando esse não-lugar:

Nesse não-lugar os escombros nas áreas de demolição são meios de subsistência de pessoas que perderam a identidade;

Nesse não-lugar as Construtoras, em uma ditadura imobiliário sem alternativas, nunca se interessaram em construir seus Prédios-Clubes, equipados para que os moradores tenham o mínimo contato com o externo;

Nesse não-lugar o poder público saiu do Palacete de Campos Elísios há tempos. E há tempos ignorou aquele espaço;

Imagem 15: A Estação e Jardim da Luz – Cerca de 1925-1930. Autor anônimo.

Nesse não-lugar a elite também há muito tempo saiu. Com a aproximação dos pobres foi se refugiar em Higienópolis.

Nesse não-lugar pessoas vivem como zumbis entre escombros, sem identidade ou lugar.

Nesse não-lugar prédios abandonados servem de moradia para os sem-teto;

Nesse não-lugar diferentes governos utilizaram formas de higienização e repressão em atitudes preconceituosas e rígidas. Onde há pobre, há marginal.

Crack eu nunca experimentei, mas já conheci cara viciado. Pela experiência que tive, vi que é muito ruim, é perigoso, é outra escala de droga. Você vê o jeito que os caras se viciam nele. Tem bastante, em muitos colégios. Afetou os caras que eram bem ricos – é uma vida que você precisa é de dinheiro. Eu não sei como é que eles entram nessa, são uns caras que têm conscientização. Sei lá, acham que é dark side. Mas não tem brincadeira com o lance de crack, quando você vê, tá fodido. (MACFARLANE, 2012. P. 164)

Figura 7: Ilustração feita pelo cartunista Brum para o Jornal de Hoje alertando sobre o uso de drogas.

Mas afinal o que queremos combater na região? A prostituição? O tráfico de drogas? Reinserção do viciado? A desapropriação de prédios históricos? Se livrar dos pobres, e dos pretos também? Criar novos endereços para Cracolândia? Longe da vista do civilizado? Afinal foi criado um novo endereço para Campos Elíseos, Higienópolis. Mas por que o nome de Higienópolis?

Será que passa por um processo claro de gentrificação?

Não. O que queremos é uma valorização imobiliária.

Especulação imobiliária?

Revitalizar a Luz?

Hipótese de Solução

Para Gabriela Leite (diretora da DASPU e da VIDA) deve-se fazer a revitalização:

Vocês deveriam criar uma escola de putas, para as putas serem melhores putas. E revitalizar aqui, é criar boates bonitas e bem organizadas.

Como lembrou Selito SD no documentário, Santa Efigênia e seus pecados, a ideia de revitalização naquela região é recorrente. Já o historiador Francisco Alambert, no mesmo documentário, fala sobre a cidade no geral ser um lugar de não lugar.[23]

Uma das primeiras intervenções o bairro de Santa Efigênia foi relacionada com o embranquecimento da região. A historiadora Antônia Quintão, no documentário Santa Efigênia e seus pecados, ressalta que os Barões do café queriam uma identidade europeia e os negros comprometiam esta ideia. Cita que a irmandade de Santa Efigênia foi extinta por decreto em 1890. Será que estaria nessa ação os problemas causados pelo Neoclássico no Brasil?

Trabalho lindo do holandês Ruud van Empel

Alambert discorda em referir-se a região como decadente. Para ele decadente é uma cidade morta, o que não é o caso da Santa Efigênia, pois ela ainda pulsa. Roberto Pompeu de Toledo também questiona esse argumento sobre decadência, dizendo ser um erro usar o pobre como medidor de decadência.

Campanha feita nos EUA para alerta a população sobre os vícios do cristal. Uma foto mostrando a primeira vez que os usuários foram presos e a última.

O início do Projeto Nova Luz permitiu que imóveis fossem derrubados prédios para ampliação do metro, houve reiteração de posse. Como vimos, houve um restauro das Estações Luz e Júlio Prestes. Espaços com usos para outros propósitos, acabaram servindo atualmente a outros propósitos como o já mencionado Estação Pinacoteca. A principal questão do governo é tornar a Luz um polo cultural, um dos maiores do mundo. Claro que o cinema da Boca do Lixo não existe para o plano de Projeto Nova Luz. Mas, na Holanda eles foram lembrados com um festival.

Nova Luz? Nenhum Plano Diretor apresentado por Arquitetos e Urbanista mencionam a Cracolândia.

No ano de 2005, o então prefeito Gilberto Kassab início o Projeto com a derrubada de vários prédios, principalmente aqueles em estado avançado de deterioração, a prisão de 77 indivíduos, lacre a 20 hotéis na cidade. Não era um projeto muito original já que, lembrando que há 50 anos o prefeito era Jânio Quadros, e decidiu fechar bares, hotéis e boates. Porém esse ato estava associado com o projeto de valorização, restauração e urbanismo para aquela região.

Prédios sendo lacrados

O Projeto Nova Luz prevê inúmeras melhorias e a interligação de arte, cultura e infraestrutura. Descobrindo o valor a qual o bairro está agregado, eis que governo e construtoras tentam ao máximo amortecer seus inúmeros problemas consequência de abandono durante décadas. A então cidade fantasma que escondia em cantos seu brilho é cobiçada por aqueles que durante anos nem ao menos tinha consciência de sua existência.

Naturalmente arquitetos, urbanistas, e população veem com desconfiança os trabalhos de revitalização do centro. Muitos acreditam que aqueles que ocupam seu espaço não foram incluídos nesse processo. Processo que o governo acelera, ou dependendo do governo, como disse antes, atrasa. Ou como disse a historiadora Ermínia Maricato, aceita-se que o pobre ocupe qualquer lugar, seja áreas de preservação ecológica, áreas de proteção a mananciais, construir em áreas de risco, nas encostas da Serra do Mar, menos áreas valorizadas pelo mercado imobiliário ou pelo governo[24].

E a Região da Luz tem olhos cobiçosos para o que foi abandonado.

Até que se chegue a uma conclusão entre as partes que disputam os homens de poder, os problemas relacionados ao crack são ignorados. Interessante notar é que o Projeto Nova Luz exclui por completo os dependentes químicos que por acaso habitam o local. Analisando o Projeto não há menção sobre projetos para tratamento do viciado. Mais uma vez o problema gigantesco, que se tornou um pesadelo, fica a cargo da sociedade em resolver. Igrejas, ONG, policiais e cidadãos de boa vontade tentam converter uma situação catastrófica que veio junto com crack. Pois mais uma vez o governo vai simplesmente tirá-los da altura de suas vistas e empurrá-los a espaços vazios e sem valor imobiliário.

Uma nova cidade fantasma está preste a nascer, onde zumbis poderão usar suas drogas em paz sem incomodar pessoas do bem.

Exposição da obra de Beatriz Milhazes – 2008

[1] Sobre o Edifício Francisco Herrerias um ex-morador se expressa: “Oi, José. Eu também morei nesse Edifício nos anos 50 e 60. Conheci seu tio e gostava muito dele. Era uma pessoa simples e boníssima. Realmente não merecia ser esquecido. Na época eu era criança, morava em São Caetano e quando meu pai faleceu fui pra lá morar com meus avós. Meu avô foi o zelador do prédio. Lembro muito bem que o apartamento de sua família era no 4º andar. O de nº 40. E no apto. 42, morava a Dna. Cremilda. Meus olhos se encheram de lágrimas ao ver o prédio demolido. Mas enfim, é a vida. Um grande abraço”;

O Edifício São Vito (demolido em 2010), vizinho do edifício Herrerias (demolido em 2010). Edifício Mercúrio (apelidado pelo Jornal Estado de São Paulo como Nova Cracolândia) Disponível em: <http://blogs.estadao.com.br/jt-cidades/edificio-sao-vito-a-nova-cracolandia/>. O Edifício São Vito havia recebido ordem de demolição na gestão de Jânio Quadros no final da década de oitenta do século passado. Disponível em: < http://revistaepocasp.globo.com/Revista/Epoca/SP/0,EMI92909-15573-2,00-EDIFICIO+S%C3%83O+VITO.html>. São Vito (Treme-treme) foi palco do filme Sábado (1995) de Ugo Georgetti que dirigiu e fez o roteiro.

[2] MOSQUEIRA, 2007, p. 18-20

[3] Imagem 12 mostra um cartão postal colorido à mão, data do início do século XX estampa parte do Jardim da Luz com destaque para o coreto (à esq.) e a casa de chá na época áurea do parque;

[4] Além de embelezar a cidade com a sua arquitetura inglesa, de forte inspiração vitoriana, a Estação da Luz ainda hoje exerce papel tão importante quanto o da sua origem, no início do século passado, quando o principal objetivo era escoar a produção de café para o porto de Santos. Atualmente, mais de 400 mil pessoas circulam pela estação. Disponível em: <http://www.correios.com.br/selos/selos_postais/selos_2011/selos2011_08.cfm>.;

[5] No Mapa 4, A Planta de 1897 foi confeccionada por ordem do Intendente de Obras o advogado Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim (1864-1932), parece ter sido elaborada, no entanto, para atender mais os interesses particulares do intendente do que o interesse público. O que adivinhamos por trás da execução desta carta são os supostos negócios de Gomes Cardim, provavelmente preocupado em convencer eventuais compradores de que o loteamento de sua propriedade, denominado Vila Gomes Cardim, estava situado numa região já bastante desenvolvida, entre a 5.ª e a 6. ª parada da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Somos levados a desconfiar das intenções do intendente diante da constatação de que parte da área arruada registrada neste documento cartográfico era completamente ilusória – em que pese o extraordinário incremento populacional da cidade sofrido ao longo daqueles anos. Ao cotejá-lo com plantas posteriores, verificaremos que, nas últimas, o tecido urbano paulistano se mostrava bem mais esgarçado do que na planta de 1897. Isso acontecia principalmente nas regiões mais remotas da cidade, onde os arruamentos de fato executados sempre se revelavam menos densos e completos do que na planta de Cardim. Se analisássemos as plantas da cidade de 1905 e de 1928, por exemplo, iriamos observar que o traçado viário nos subúrbios adquiriu, por vezes, uma configuração bastante diferente, fazendo-nos acreditar que a área urbanizada em 1897 era bem menos extensa do que Gomes Cardim queria fazer crer. Tal fenômeno pode ser constatado, por exemplo, no bairro do Ipiranga, na Vila Prudente, na Vila Cerqueira César, em Perdizes, na região posteriormente ocupada pelo Parque do Ibirapuera e na própria Vila Gomes Cardim.

Aqui já temos um problema a se formar em São Paulo, a especulação imobiliária.

[6] CAMPOS ELÍSEOS – A Transformação de um bairro. Direção e Produção Executiva: Flávio Frederico. Roteiro: Mariana Pamplona. Kinoscópio Cinematográfica 2006;

[7] Ibidem;

[10] Se as Estações da Luz e Júlio Prestes, juntamente com a rodoviária que ali existiu contribuíram para o êxodo das famílias abastadas para Bairros como Higienópolis e Pacaembu, o último golpe foi a saída do governo de São Paulo do casarão Campos Elísios em 1965. Tais fatores contribuíram para que o bairro entrasse em degradação eminente.

[11] Márcia Regina Ciscati é autora do livro Malandros na Terra do Trabalho;

[12] BARROS, Sergio. Te cuida, otário! <http://www.unesp.br/aci/jornal/161/historia.htm&gt;

[13] ZANIN, Luiz. Quem foi Hiroito <http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/quem-foi-hiroito/&gt; Acesso: 03 de Nov. 2013 às 22:00:00

[14] CAMPOS ELÍSEOS – A Transformação de um bairro. Direção e Produção Executiva: Flávio Frederico. Roteiro: Mariana Pamplona. Kinoscópio Cinematográfica 2006;

[15] https://reporterbrasil.org.br/2004/06/a-boca-do-lixo-ainda-respira/

[19] SANTA EFIGENIA e Seus Pecados. Direção e Roteiro: Thiago Mendonça. Produção Executiva: Van Fresnot;

[20] SALA SÃO PAULO. Disponível em: < http://www.saopaulo.sp.gov.br/conhecasp/cultura_teatro-sala-saopaulo> Acesso: 15/11/2013

[21] REFORMA DA ESTAÇÃO CAUSA POLEMICA. Disponível em: http://www.estadao.com.br/arquivo/cidades/2002/not20021222p22058.htm

[22] ESTAÇÃO PINACOTECA. Disponível em: <http://www.saopaulo.sp.gov.br/conhecasp/cultura_museus_estacao_pinacoteca>

[23] SANTA EFIGENIA e Seus Pecados. Direção e Roteiro: Thiago Mendonça. Produção Executiva: Van Fresnot;

[24] TUDO QUE HÁ POR TRAZ DO PROJETO NOVA LUZ. Disponível em: <http://outraspalavras.net/outrasmidias/uncategorized/terror-imobiliario-ou-expulsao-dos-pobres/> ;