Os edifícios-fantasmas e seus ornamentos delinquentes

Texto: Fernando Serapião

“Não sei por onde vou/Não sei para onde vou/
Só sei que não vou por aí.”

Trecho de “Cântigo negro”, do poeta português
José Regio (1901-1969)

Fraudulentos no estilo e no glamour, os chamados edifícios neoclássicos aterrorizam a paisagem urbana paulistana. O establishment arquitetônico chia e a maior parte do público consumidor aprova, enquanto construtores, incorporadores e imobiliárias estão de olho nas vendas. A questão parece menor e mesquinha, pois se trata de edifícios privados. No entanto, pode ser vista como uma metáfora da visão que a sociedade tem do arquiteto: uma profissão com muita serventia na arte de adornar fachadas conforme tendências da moda.

Nas duas últimas décadas, acelerou-se a transformação dos novos edifícios de apartamentos de São Paulo em produtos. Em vez de boa arquitetura, são oferecidas opções em estilos desvirtuados: neocolonial, neomediterrâneo, neomoderno, art déco etc. A pá de cal desse processo é o que o mercado define como neoclássico. Em contraponto ao sucesso de público, nove entre dez arquitetos desaprovam esses projetos. No debate público que se encena, os arquitetos responsáveis por essas edificações, todos ligados à indústria da construção civil, fogem da discussão ou procuram legitimá-la com argumentos superficiais.

O fato não é novidade: mesmo depois dos primeiros exemplares residenciais modernos – como o Columbus (1930), de Rino Levi, e o Esther (1936), de Álvaro Vital Brazil e Adhemar Marinho -, Jacques Pilon perpetrou edifícios no suposto estilo neoclássico, como o São Luiz, “de um ecletismo depurado vagamente francês” (nota 1). De 30 anos para cá, os sucessores preferenciais de Pilon nessa ingrata empreitada estilística foram executados pela Construtora Adolpho Lindemberg. Tanto os prédios de Pilon quanto os de Lindemberg são caracterizados pelo revestimento em tom ocre, balaustradas e alguns poucos ornamentos. Considerados por parte da elite como signo de edifício nobre, passavam incógnitos na imensidão paulistana.

O pior estava por vir. Nos últimos dez anos, os exemplares neopassadistas tomaram a cidade, porém utilizando elementos de fachada mais variados: são mansardas, pináculos e todo tipo de ornamentação. O mais conhecido entre esses edifícios residenciais é o Saint Patrick: além do estilo exacerbado e da volumetria desconcertante, chamou a atenção por burlar leis municipais. Exposto na 3ª Bienal Internacional de Arquitetura e atualmente embargado, o prédio é de autoria de Pablo Slemenson, que foi sócio de Carlos Faggin e colaborador de Joaquim Guedes, além de registrar passagem pelo Condephaat.

O debate acontecia nos bastidores: basta lembrar que as curadorias da 4ª e da 5ª BIA tiveram a cautela de não aceitar projetos do gênero. Alterou-se essa dinâmica quando esse estilo macarrônico ganhou a esfera dos edifícios de escritórios de alto padrão – programa que, em comparação com os residenciais, costuma envolver mais planejamento, melhores projetos, clientes mais exigentes e, por conseqüência, honorários mais altos. A discussão tornou-se pública: o assunto foi tema na grande imprensa (O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Veja São Paulo, por exemplo) e provocou dois concorridos encontros no IAB/SP, em agosto e setembro passados. As reportagens teciam elogios e apontavam como ícones desse “novo-velho estilo” três edifícios comerciais: o San Paolo e o Plaza Iguatemi Business Center, ambos projetados por Israel Rewin, e a sede do Banco Santos, desenhada por Júlio Neves com fachada de Pablo Slemenson.

Mas, enfim, qual é o problema dessas construções, uma vez que são financiadas e consumidas pela iniciativa privada? É só uma questão de gosto? Há diversos argumentos possíveis para essa discussão. Este texto se concentra em seis deles, que possuem relações com a história, a tecnologia, o pós-modernismo, o poder absolutista, a cidade e a profissão.

História

O primeiro ponto a ser observado acerca desses projetos é o pecado inicial apontado por historiadores (nota 2): esses edifícios podem ser tudo, menos neoclássicos. Como disse Pedro Paulo de Melo Saraiva, em um dos encontros do IAB, é o caso de acionar o Procon, por propaganda enganosa. Sem critério nem bom senso, os projetos ditos neoclássicos misturam elementos das ordens clássicas – como colunas, arcos e adornos – com mansardas parisienses, criando um samba do crioulo doido que encanta a patuléia.

Historicamente, todo edifício clássico é horizontal, dada a própria natureza da tecnologia empregada – primeiro em madeira, depois em pedra. Além disso, prédios comerciais e residenciais são, por princípio, uma invenção moderna.
Esses neoclássicos possuem a mesma lógica e importância de uma obra escrita em línguas mortas, incompreensível para quem escreve e para quem lê. Mas o leitor, mesmo não entendendo uma linha sequer, acha aquilo nobre, bonito. Em contraposição, esses prédios são planejados de forma racional, com tecnologia de ponta. Ou seja, são edifícios inteligentes com projetos burros.

Tecnologia

Nesse caso, há um contra-senso no uso da tecnologia. Apesar de serem edifícios comerciais de ponta – sobretudo no que tange a elementos pré-moldados de fachada -, eles representam um retrocesso. O problema não é o ornamento, que está reaparecendo com força na vanguarda européia. A contradição é utilizar, sem o menor critério, fachadas tecnologicamente de ponta cuja estampa são elementos de ordens clássicas. Trata-se de apropriação fora de época, sem propósito nem caráter, que nada acrescenta à cultura e à construção tupiniquins. Uma ofensa à arquitetura, tanto à estética clássica – de Vitruvius, Ledoux, Alberti ou Palladio – quanto ao desejo de industrialização do moderno – de Walter Groupius e Mies van der Rohe.

Pós-modernismo

Analisando a superficialidade dos projetos e dos discursos dos arquitetos, a possível conexão entre essas construções e a pós-modernidade revela-se um delírio. Contudo, do ponto de vista do desejo do consumidor, parece evidente o desencanto com a modernidade, não do ponto de vista funcional, mas em relação à estética. A imensa massa de edifícios modernistas produzidos na cidade – principalmente no boom de construções entre 1964 e 1978, resultado dos financiamentos do BNH -, a maior parte sem qualidade, pode ter gerado um desejo de renovação que, misturado à aspiração por status, materializou-se em balaústres, pináculos e mansardas.

Não seriam os novos projetos a produção em massa de signos de poder, utilizando a linguagem clássica como recurso? Os consumidores desses edifícios são capitalistas que, ao que tudo indica, não estão desiludidos com a técnica. Não se está diante de discípulos de Leon Krier, que, ao pregar a volta da cidade pré-industrial européia do século 18 e se basear no anticapitalismo de Ruskin e Morris, tenta a todo custo levantar qualidades na obra de Albert Speer, arquiteto e ministro do Terceiro Reich.

Poder absolutista

Com Speer, chega-se ao quarto ponto: no século 20, a utilização de elementos clássicos em arquitetura é associada a regimes de força. Adolf Hitler e Benito Mussolini apreciavam a cultura clássica, e os edifícios-ícones de seus regimes repetem lições do passado, seja com o auxílio do próprio Speer, na Alemanha, ou de Marcello Piacentini, na Itália. Ironicamente, em São Paulo, grande parte dos neoclássicos são construídos, projetados e consumidos pela comunidade judaica, que deveria ser a primeira a recusar essa estética.

A cidade

A propósito da falta de democracia, o quinto ponto é a relação (ou a falta de) desses edifícios com cidade. Potencializada pela insegurança dos grandes centros, a ausência de gentileza desses projetos com o espaço urbano é gritante: altos muros, ausência de espaços semipúblicos ou mesmo de permeabilidade espacial, entre outros. Os empreendedores, por falta de visão, tratam o espaço privado de forma radicalmente egoísta.

Nesse ponto, entra a perversa figura do marketing imobiliário, que, ignorando qualquer noção histórica, trata o projeto como mero produto. Os profissionais envolvidos na chamada consultoria imobiliária ignoram a história da arquitetura, não sabem avaliar uma boa implantação, não querem saber de aspectos ambientais, muito menos de relações urbanas. E decidem a feição que a cidade vai ganhando.

A profissão

O sexto ponto é fundamental, e diz respeito à relação atual entre arquitetos e sociedade. Esses edifícios vão contra todos os princípios que regem a boa arquitetura: na universidade não se ensina tal cinismo; ali, os arquitetos são treinados para executar projetos que tenham compromisso com o espaço urbano. Para piorar, grande parte da elite arquitetônica local atuante formou-se, politicamente, como militante ou simpatizante da esquerda, o que a afastou das questões do mercado. Essa ruptura entre arquitetura e mercado tem conseqüências gravíssimas, como esta com que nos defrontamos.

Atualmente, os arquitetos, apesar de mais envolvidos no processo do que no passado (eles fazem os projetos, trabalham na construtora, na incorporadora, na obra, na aprovação, na imobiliária etc.), perderam poder de decisão. Em última instância, há pouca conexão entre a realização imobiliária e o saber arquitetônico. Por parte da universidade, perdeu-se o contato com o mercado. E o mercado, por sua vez, não aproveita o saber da universidade. Resultado: os profissionais, ainda hoje educados para estar à frente do processo, como nos anos 1950, sentem-se impotentes ao ver a cidade ser construída a sua revelia.

É importante que a arquitetura entre na ordem do dia, em jornais, livros, exposições e debates

Que fazer?

Os arquitetos têm pela frente uma tarefa inglória: convencer a sociedade de que são necessários para o bem-estar urbano, para a construção de uma cidade mais humana. Para isso, é necessário esclarecer a vantagem de contratar um bom profissional. É importante que a arquitetura entre na ordem do dia, em jornais, revistas, exposições, livros, debates etc. É preciso tornar mais exigente o público – de todas as classes sociais -, que deixaria de consumir esses edifícios-fantasmas e teria consciência da cidade desejada. Para isso, a crítica arquitetônica é fundamental. “Na literatura, na música ou no cinema, se o crítico acha que a obra é boa, compramos o livro ou assistimos ao filme. Em arquitetura seria útil se existisse julgamento favorável ou desfavorável quando se procura comprar uma moradia, um local para o trabalho”, sentenciou o crítico Roberto Segre (leia mais).

A construção da cidade possui lances simbólicos, como o caso que envolve esses edifícios. O San Paolo e o Plaza Iguatemi Business Center, por exemplo, na avenida Brigadeiro Faria Lima, são ladeados por prédios desenhados por Gian Carlo Gasperini e Salvador Cândia, dois dos principais articuladores de uma arquitetura de qualidade ligada ao mercado: juntos, foram responsáveis pelo desenho da Galeria Metrópole.

Com sua imponente iluminação, à noite os neoclássicos da Faria Lima parecem edifícios-fantasmas, que apavoram a cidade. E é preciso encarar a realidade: infelizmente eles lá estão, edifícios-fantasmas que, com seus ornamentos delinqüentes, assombram a boa arquitetura paulistana.

Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 290 Abril de 2004

Notas:

1 Paulo Bruna, em “Jacques Pilon”, texto do Catálogo de desenhos de arquitetura da Biblioteca da FAU/USP,1988.
2 Entre eles, Carlos Lemos, Benedito Lima de Toledo e Abílio Guerra.