Transformação de Lucrezia

Foto de Nick Knight

Foto de Nick Knight

Meu príncipe assustado

Meu príncipe queimado

Corta a noite escura desta floresta

Mata o fogo do dragão

Trás da lenda os jogos de nossa festa

Pra eu brincar e sorrir[1]


[1] Cadê – Milton Nascimento (1942) e Ruy Guerra (1931);

Obra de William-Adolphe-Bouguereau 1884

Obra de William-Adolphe-Bouguereau 1884

Exemplo de fonte incandescente de lava

Deitada na cama, é acordada por um farfalhar nas cortinas. Mantinha-se atenta.

Abertas, postas a cada lado da janela o tecido pesado suspende cautelosamente as bordas e ele acorda com objetivo quem dorme.

Foto de Nick Knight

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Acorde!

Acorde!

Chegou sua hora.

Acorde!

Sonolenta sentiu medo. A sonolência foi e ela sentiu repulsa pelo medo e sentou na cama. Direcionou a janela e a cidade dormia. Pensou ser uma brincadeira de uma das suas anfitriãs. Qual das duas?

Foram convidadas para uma festa que Lucrezia organizou para Lucrécia B. que durante um dia foi papisa. Convidou a Arquiduquesa Maria Antonella que segundo sabia, tinha uma das mais importantes coleções de amantes do renascimento. A fama que andava de boca em boca serviu apenas para que fugisse de um canto a outro com a santa inquisição a seu encalço. Junto com a arquiduquesa, três marquesas irmãs. Quatro vampiras que de muitas formas tentavam sobreviver às caças que tinha em suas cabeças o prêmio. Se uma bruxa valia tanto para quem as caçavam, imagina vampiras.

Foto de Nick Knight

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Lucrezia convidou para entrar. Nunca passará pela sua cabeça.

Os dedos ossudos finalizados com unhas compridas e finas nas pontas davam arrepios nas mulheres. Pediam sempre que suas refeições fossem servidas nos dormitórios.

Durante dias se hospedaram no castelo da marquesa Lucrezia C. que não imaginava que existissem. Muitas vezes vira morcegos sobrevoando a janela. Antes deu uma olhada atenta para ver se um desses bichos havia entrado em seus aposentos. Não encontrou nem rato.

Pegou uma vela do lado de fora no corredor.

Sentiu mãos femininas agarrar-lhe a cintura.

A jovem ruiva!

A mulher desejou a cama, a vampira sugeriu a madrugada.

Ela nua, conduziu Lucrezia para fora.

Foto Nick Knight

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Sem uma ponta de vexame, frio ou sensatez foi à frente sem nunca soltar sua mão. Na relva deitaram e as duas se afagaram em beijos e mãos. Onde estavam ficaram as roupas de Lucrezia que sentiu na outra o corpo frio. Esta roubava o calor de seu corpo arredondado e opulento que saciava a vampira.

A lua amedrontou por parecer irreal. Nunca vira uma lua daquele tamanho. Uma bola enorme de luz amarela que parecia engolir a noite. Na verdade convidava sair.

Iluminou as duas cegas em desespero.

— Para floresta – indicou Constanza Devereux.

— Não é perigoso, madona? – Lucrezia tinha medo.

— Não precisa se preocupar. Ande.

— Não! Prefiro ficar – sorriu e foi beijada.

— Temos que ir. Quero te mostrar uma coisa.

Foto Nick Knight

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Lucrezia foi. O tempo fechava e a noite parecia abocanhá-las. Sem sombras entre arvores ou o mínimo de luz que fosse tornava impossível distinguir. Apenas o som dava alguma orientação. Caminharam durante algumas horas e as ancas e pernas da Marquesa exigiram que parassem.

— Vamos Lucrezia. Estamos perto. O ponto de luz é logo à frente.

— E os lobos logo atrás.

Continuaram andando. Ouviram vozes que se tornavam mais nítidas. A visão que teve a horrorizou de forma que desfaleceu.

Num virar de olhos, Lucrezia percebeu que estava sozinha deitada nua na relva em pouco tempo lembrou-se da outra.

De longe ouviu cães uivarem. Sem medo seu corpo ainda tremia. Levantou procurou a saída de uma mata fechada onde as luzes das estrelas e luas voltaram a seu posto. Sem vozes.

Sua vestimenta flutuava em campo aberto. Mesmo a lua a sua frente ela não via nada além de árvores, copas e a sombra que projetavam frente à lua. O som era humano. Viu três luzes pequenas que pulava de um lado para outro. Ela continuou, seguiu e adentrou na escuridão

Sua vestimenta flutuava em campo aberto. Mesmo a lua a sua frente ela não via nada além de árvores, copas e a sombra que projetavam frente à lua. O som era humano. Viu três luzes pequenas que pulava de um lado para outro. Ela continuou, seguiu e adentrou na escuridão

A entrada do palácio caminhou e a lua parecia segui-la. Não era um objeto estático no céu forrado de estrelas. Percebeu que estava nua e voltou para pegar as roupas e daria uma boa surra na sua convidada. Sentia mal-estar, a pele ardia, o estômago embrulhava, a boca seca rachava os lábios, os olhos lacrimejavam. Estava furiosa. E se a vissem assim? A lua a seguia e os papeis se inverteram. Ela seguiu a lua que parou sobre as roupas. Caminhou orientando-se pelo astro luminoso.

Postou-se frente a uma mata fechada e ouviu gritos e choros parecidos com os que ouviu antes de ver…

Sua vestimenta flutuava em campo aberto. Mesmo a lua a sua frente ela não via nada além de árvores, copas e a sombra que projetavam frente à lua. O som era humano. Viu três luzes pequenas que pulava de um lado para outro. Ela continuou, seguiu e adentrou na escuridão.

O tempo que passou durou dias.

Retornou como era antes, adoeceu e foi enterrada. Abriu os olhos e as mãos tocaram madeira e veludo. Empurrou e cedeu. Encontrava-se num mausoléu e percebeu que era a morte - Obra de Ana Elisa Egreja

Retornou como era antes, adoeceu e foi enterrada. Abriu os olhos e as mãos tocaram madeira e veludo. Empurrou e cedeu. Encontrava-se num mausoléu e percebeu que era a morte – Obra de Ana Elisa Egreja

Quando saiu da floresta tudo que vira é particular. Não trouxe para fora e não soube explicar nada. Nem para os outros e nem para ela. Inclusive uma sensibilidade aguçada. Sentia animais chegarem perto. Ordenava. Sua visão tornou-se como das corujas, seus sentidos foram aguçados até o insuportável e ela caminhou em direção ao monte não muito elevado de onde via parcialmente a cidade. Os cães a rodearam e sua contorno foi desenhada por uma lua minguante. Os cabelos muito longos dançavam e seus dentes podiam dilacerar e se projetavam da boca.

Retornou como era antes, adoeceu e foi enterrada. Abriu os olhos e as mãos tocaram madeira e veludo. Empurrou e cedeu. Encontrava-se num mausoléu e percebeu que era a morte. A sede de sangue era insuportável. Durante a noite em sua primeira saída foi ao palácio que lhe pertencia.

Nos corredores encontrou a outra que procurava o mesmo que ela.

Trecho do livro: Passa lá em casa Imagem em destaque: David Lane

Trecho do livro: Passa lá em casa
Imagem em destaque: David Lane

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