Por que “Vai ser pra mim”?

ROSINHA (Heber de Bóscoli e Mário Martins )

Silvio Caldas

Silvio Caldas

Ciro Monteiro&Linda Batista

Ciro Monteiro&Linda Batista

Onde é que está
A tal Rosinha que me fez chorar?
Só quero ver
A tal Rosinha que me fez sofrer.
Não quero saber da Aurora.
A Helena deu o fora
E com a Rosinha é que vai ter!
(bis)

A Helena era malvada

Orlando Silva&Carmen Costa

Orlando Silva&Carmen Costa

Me deixou de madrugada
A Aurora deu o fora
Desprezou o meu amor,
Mas a Rosinha eu encontrei, enfim
Eu vou voltar,
Vai ser pra mim!

Música gravada em 1941 pelo trio Ciro Monteiro (1913-1973), Orlando Silva (1915-1978), Silvio Caldas (1908-1998).


Eis o trecho do livro Passa lá em casa onde a música é citada:

O Criado Mudo, O Pudim de Tapioca, A Rosinha…

Mas a Rosinha eu encontrei enfim

Eu vou voltar,

Vai ser pra mim![1]

As três tias apareceram tapando o sol e ao mesmo tempo.

— Advinha? – disse Jurema.

— As chances? – perguntou Augusto.

— Nulas – disse Zilá.

— Então é perda de tempo. Vocês estão obstruindo o sol e eu estou congelando.

O amarelo do outono intensificava o desejo de Augusto em viver.

— Advinha mesmo assim – insistiu Inês.

— Ok. Manda.

— Advinha Augustinho o que tem para o lanche da tarde?

Voltou à leitura e voltou para as tias.

— Tapioca?

As tias escancararam a boca.

— Como sabia?

— Não sabia. Adivinhei?

— Sim – Jurema revoltada.

— Ganhei alguma coisa?

— Não! – sentenciaram.

— Mas eu acertei.

— Devia ter perguntado antes, agora é tarde – disse Jurema.

— Você ganhou o lanche da tarde – falou Inês.

— Lanche da tarde com ódio? A Bíblia diz: antes um prato de legumes dado com amor a uma tapioca dada com ódio.

— Que besteira, a Bíblia não fala nada disso.

— Vocês são ateias, lembram?

— Não somos ateias.

Emburradas foram tomar café. Na cozinha ele desconfiava do perplexo delas. Inês virou a fita k7 do rádio gravador e apertou play. Ouviam Ciro Monteiro[2], Sílvio Caldas[3] e Orlando Silva[4].

— Como acertou na lata? – perguntou Inês.

— Apenas adivinhei – um tranquilo Augusto. – Por que não esquecem o ocorrido e me dão pedaços maiores de tapioca?

Deram de má vontade.

— Nunca comi uma tapioca dada com raiva. Nem os índios fariam isso com seus assassinos, os bandeirantes.

Ressonava tranquilamente no sono dos justos. Não viu ou percebeu a porta ser aberta muito devagar. Num espaço onde apenas um corpo magrinho passa a sombra esgueirou-se para o quarto.

A ideia era…

— Ele estava lendo algo. Impossível ele ter adivinhado – disse Inês.

— Ainda bem que não apostamos nada – retrucou Zilá.

— A resposta deve estar no que estava lendo – falou Jurema. – Quem entra no quarto?

— Você! – as duas irmãs.

— Eu?

— É a mais magra. Abrirá pouco a porta.

A lanterna iluminou o criado-mudo com inúmeros remédios, um abajur, celular. A cena a deixou tão comovida que quase esqueceu o livrinho.

“Pobre Augustinho! Deus podia ter um pouco de misericórdia”.

Percebeu que era claramente observada por um par de olhos vermelhos. Vermelhos como as portas do inferno. Ela não titubeou deu um sonoro berro. As outras invadiram armadas e apontaram para o Augusto.

— Deus! O que está acontecendo? – Augusto perplexo.

— Eu vi! – gritou Jurema.

— Viu o que mulher de Deus? – gritou Zilá.

— Um par de olhos ali – apontou para a parede do quarto onde repousava em paz uma imagem da Nossa Senhora.

— Que estúpida! Você quase despachou o Augustinho.

— Vocês me odeiam! Tudo por causa de uma porra de tapioca. Querem me ver morto é isso? Não se conformam por eu ter acertado?

— O pobre Augustinho. Achei que tinha ouvido um barulho no quarto e entrei para ver se estava tudo bem.

— Entramos para saber se não estava dormindo na cama de Procusto[5] – sem jeito Jurema deu um sorriso nervoso.

Saíram depois de muitas desculpas.

Correu para sala das espingardas como elas chamam.

— Leia Zilá – disse Inês.

— Por que eu?

— Porque não usa óculos.

Ficou um tempo absorta pela leitura. Uns bocados minutos depois.

— Ah! – num triunfo de Zilá.

— Achou? – as duas irmãs.

— Ouçam.

Reza:

Bom dia… sou nova nesta escola… devo agora me apresentar… meu nome é Pudim de Tapioca. Com o meu nome os cabelos loiros e o meu sorriso, meu pai disse que podemos ganhar um milhão de dólares[6]


[1] Rosinha – Heber de Bôscoli (? – 1955) e Mario Martins;

[2] Ciro Monteiro (Rio de Janeiro, 28 de maio de 1913 — 13 de julho de 1973) foi um cantor e compositor brasileiro;

[3] Sílvio Antônio Narciso de Figueiredo Caldas (Rio de Janeiro, 23 de maio de 1908 — Atibaia, 3 de fevereiro de 1998) foi um cantor e compositor brasileiro;

[4] Orlando Garcia da Silva (Rio de Janeiro, 3 de outubro de 1915 — Rio de Janeiro, 7 de agosto de 1978) foi um dos mais importantes cantores brasileiros da primeira metade do século XX;

[5] Procusto era um bandido que vivia na serra de Elêusis. Em sua casa, ele tinha uma cama de ferro, que tinha seu exato tamanho, para a qual convidava todos os viajantes a se deitarem. Se os hóspedes fossem demasiados altos, ele amputava o excesso de comprimento para ajustá-los à cama, e os que tinham pequena estatura eram esticados até atingirem o comprimento suficiente. Uma vítima nunca se ajustava exatamente ao tamanho da cama porque Procusto, secretamente, tinha duas camas de tamanhos diferentes.

[6] Penauts – Charles Schulz;

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