Cunha se deu bem. E o Brasil, otário, se deu mal

Texto de André Forastieri, acesse na página do Autor aqui.

cunhadoido23 11 Cunha se deu bem. E o Brasil, otário, se deu mal
Cunha foi preso. É ladrão de galinha. Quis voar alto demais. Caiu rápido. Sua trajetória pode servir para a gente melhorar nosso país em duas coisas muito importantes. É duvidoso que isso aconteça.
A acusação mais clara e letal contra Cunha é ganhar propina nos esquemas da Petrobras e mandar para o exterior, para a Suíça. Quanto? Ninguém sabe. Falam de R$ 52 milhões na Suíça. Para quem chegou a presidente da Câmara, é dinheiro de pinga. Deve ter muito mais dinheiro em outros lugares.
Até porque só amador ainda tem dinheiro na Suíça. Os super ricos do mundo sabem faz tempo que é melhor colocar seu dinheiro desviado em outros paraísos fiscais. Segundo a organização não-governamental Global Financial Integrity (GFI), entre 2004 e 2013 os milionários brasileiros mandaram para o exterior ilegalmente uma média de U$ 22,6 bilhões por ano. Em português claro: setecentos e setenta bilhões de reais. Todo esse dinheiro foi para paraísos fiscais. Por quê? Porque era dinheiro ganho limpo no Brasil? Não, porque era dinheiro sujo. Os ricos brasileiros pagam pouquíssimo imposto. As grandes empresas brasileiras pagam pouquíssimo imposto. No Brasil o Caixa 2 é sempre a primeira opção, nunca a segunda.
A Suíça é um destino cada vez menos popular para recursos do crime, da corrupção, do narcotráfico, ou simplesmente dinheiro de Caixa 2, escamoteado por ricaços. Quem diz é o próprio Banco Central da Suíça. Segundo eles, no ano 2000, os correntistas brasileiras chegaram a ter US 6,2 bilhões depositados em bancos suíços. Em 2015, tinham “só” US 4,3 bilhões. Continua sendo muito dinheiro, mas é uma queda enorme. A razão é porque a Suíça vem sendo pressionada para aumentar a transparência financeira. Outros países seguem sem pressão nenhuma e viraram os destinos prioritários do dinheiro sujo do planeta.
A prisão de Cunha poderia ser um bom começo para o Brasil entrar a fundo na questão dessa dinheirama nossa que está no exterior. Afinal, é dinheiro que foi mandado ilegalmente para o exterior, sem pagar imposto, e deveria estar aqui sendo útil para a população. Esse dinheiro que o GFI identificou, R$ 770 bilhões, para pagar 28 anos de Bolsa Família, que em 2016 é um investimento de R$ 27 bilhões por ano. Ou, alternativamente, fazer uma revolução na nossa saúde, educação, segurança. Mexer com esse vespeiro é coisa que está bem longe da pauta da Justiça. Da Receita. E da Lava-Jato. Seria arrumar uma treta com a elite da elite, os 0,1% que de fato dão as cartas no Brasil.
A segunda maneira de fazer da prisão de Cunha algo importante é ser extremamente, brutalmente rigoroso com ele com os que o cercam. Apertar, apertar, apertar. Para forçar ele a abrir o bico sobre os grandes esquemas de corrupção, de todos os partidos. E para forçar ele a nos contar o que sabe sobre a movimentação que derrubou Dilma Rousseff. Sem a participação de Cunha, Temer jamais teria ascendido à presidência. É evidente que ele sabe de todas as negociações, todas as movimentações, todos os acordos que levaram ao impeachment. Mas se Cunha conta 10% do que sabe sobre a corrupção, ou 10% dos bastidores do impeachment, não fica pedra sobre pedra.
Essa seria a hora dos brasileiros, tanto os que foram a favor como os que foram contra o impeachment, se unirem com um objetivo maior. Que é fazer a prisão de Cunha representar uma grande mudança no nosso país. Sonhar é grátis… Infelizmente, e o brasileiro comum na rua sabe disso, a real é que Cunha tem 99% de chance de se dar bem.
O mais provável é que Eduardo Cunha fale pouco, entregue gente sem importância, pague algum dinheiro, pegue alguma cadeia. E só. Vamos continuar pagando de otários dos poderosos. Sem impacto no dinheiro sujo que os super ricos desviam para o exterior, sem impacto na corrupção institucionalizada, sem impacto no sistema político do Brasil, a prisão de Cunha será só um show de mídia, com cheiro de acordão. Uma história cheia

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Textos de André Forastieri

de som e fúria, significando nada.

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O golpe contra Dilma Rousseff – Página infeliz da nossa história

O afastamento da presidenta é sem dúvida o capítulo mais vergonhoso da história política brasileira

Apoiadores de Dilma Rousseff, nesta quarta em São Paulo. NELSON ALMEIDA AFP

Apoiadores de Dilma Rousseff, nesta quarta em São Paulo. NELSON ALMEIDA AFP

O afastamento definitivo de Dilma Rousseff da Presidência da República é sem dúvida o capítulo mais vergonhoso da história política brasileira. Acusada de praticar uma manobra contábil, as chamadas “pedaladas fiscais”, contra ela não foram levantadas quaisquer suspeitas de enriquecimento ilícito ou aproveitamento do cargo em benefício próprio, ainda que sua vida, privada e pública, tenha sido vasculhada com lupa por seus adversários. Se ela cometeu crime de responsabilidade, também o fizeram e deveriam perder o cargo 16 dos 27 atuais governadores, que usaram o mesmo artifício para fechar as contas em seus estados.

Mas, evidentemente, a presidente Dilma Rousseff não foi levada a julgamento por isso. As manifestações de rua contra seu governo, orquestradas por defensores dos mais diversos interesses, muitos deles espúrios, levantavam bandeiras anti-corrupção porém alimentavam-se de ressentimento. Parte da população, acostumada historicamente a usufruir dos mais amplos privilégios, nunca aceitou dividir espaço com a camada mais pobre, destinada, em sua invisibilidade, a manter-se apenas como uma espécie de reserva técnica de mão de obra desqualificada. As poucas, mas importantes, mudanças nesse quadro, patrocinadas pelos governos petistas, fermentaram uma reação de ódio e intolerância.

Assim, com o claro objetivo de arrancar a qualquer custo o poder das mãos da presidente Dilma Rousseff, as oposições, lideradas nas sombras pelo vice-presidente Michel Temer, passaram a articular demonstrações de força. Por trás dos protestos “espontâneos” contra o governo havia entidades como o Movimento Brasil Livre (MBL), financiado pelo DEM, PSDB, SD e PMDB; Vem pra Rua, criado em 2014 por um grupo de empresários para apoiar a candidatura do senador tucano Aécio Neves à Presidência da República; e Revoltados On-Line, gerenciado pelo empresário Marcello Reis, que não esconde sua simpatia pela ideia de intervenção militar e que possui ligações com o deputado fascista Jair Bolsonaro (PSC-RJ), pré-candidato à Presidência da República.

O passo seguinte foi dado pelo então presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atualmente afastado por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), alçada na qual é réu por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Cunha tinha interesse em negociar a manutenção de seu mandato, em perigo desde a instauração, no dia 3 de dezembro, de um processo por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética da Casa. Indignado com a retirada de apoio do PT à sua causa, Cunha deu andamento ao pedido de admissibilidade do impeachment contra a presidente Dilma Rousseff. No dia 17 de abril, o plenário da Câmara, que entre seus 513 membros conta com 53 réus na Suprema Corte, enquanto outros 148 parlamentares respondem a inúmeros crimes em diversas instâncias, antecipou o destino inglório da nação.

Baseado em um relatório de Antonio Anastasia (PSDB-MG), burocrata tornado político pelas mãos do candidato derrotado em 2014, Aécio Neves, o Senado cassou o mandato da presidente Dilma Rousseff. Do total de parlamentares que a julgaram, 60% são suspeitos ou acusados de crimes que vão desde falsidade ideológica até abuso de poder econômico. Um terço da Casa – 23 parlamentares – responde a inquérito em ação penal no STF, entre eles nomes bastante conhecidos como Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), Fernando Collor (PTB-AL), Jader Barbalho (PMDB-PA), Lobão Filho (PMDB-MA), Renan Calheiros (PMDB-AL) e Romero Jucá (PMDB-RR).

Com uma coragem e altivez poucas vezes vistas na política brasileira, a presidente Dilma Rousseff enfrentou 14 horas de interrogatório nas dependências do Senado. Inutilmente, ela sabia, porque o resultado daquela farsa já havia sido decidido muito antes, nos bastidores, envolvendo as mais inconfessáveis negociações. Sentada em frente ao presidente do STF, Ricardo Lewandowski, Dilma não enfrentava somente o rancor da elite contrariada, mas também todos os preconceitos existentes contra as mulheres, principalmente aquelas que não aceitam submeter-se ao poder patriarcal. Blindada por uma força extraordinária, Dilma ousava afirmar que, como ser humano passível de equívocos, errou algumas vezes durante o exercício de seu mandato. Assentada em utopias, Dilma ousava afirmar que continua acreditando na luta por um Brasil mais justo. Somos medíocres, não atrevemos sonhar; somos hipócritas, não admitimos assumir nossas falhas. Cassar arbitrariamente o mandato da presidente Dilma Rousseff significou um ato de cinismo covarde contra o desejo manifestado nas urnas por 54.501.118 brasileiros. A isso se chama golpe de estado.

O jornalismo barnabé e a derrubada de Dilma

Na ruptura institucional de agora, o papel da mídia foi mais relevante que o de Eduardo Cunha

por Mario Vitor Santos
Porto Alegre - Milhares de pessoas tomaram as ruas em protesto contra o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff ( Daniel Isaia/Agência Brasil)

Porto Alegre – Milhares de pessoas tomaram as ruas em protesto contra o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff ( Daniel Isaia/Agência Brasil)

Este golpe não aconteceria sem a liderança da mídia. Ela foi a protagonista de primeira hora. Desde cedo, os jornais se incomodavam com o que consideravam “fraqueza” da oposição aos governos petistas e se dispuseram assim a substituí-la.

Para a ruptura institucional de agora, a mídia foi mais importante do que Eduardo Cunha. Antes de Cunha reunir as condições para desatar o impeachment, a mídia já tinha cerrado fileiras, engatado o revezamento de esforços complementares.

Foi a mídia que, afinal, fustigou o governo na sucessão das manifestações de 2013, orientou seus desdobramentos cada vez mais contrários às motivações iniciais, amplificou e convocou a reação à Copa, encorpou a sublevação contra o resultado das urnas de 2014 e sepultou o período de trégua pós-eleitoral.

Para isso, foi preciso relativizar preceitos capitais do jornalismo, como o de dar voz a todos os lados e, portanto, o da presunção de inocência. Foi nesse ambiente  que necessárias apurações anticorrupção, um tema jornalístico, descambassem para a derrubada do governo eleito, com base em pretextos.

De duas uma, ou a mídia estrutura o golpe ou faz jornalismo, cuja essência, como se sabe, é a reportagem. Faz jornalismo quem tem repórteres para apurar notícias. O trabalho dos repórteres nutre-se da obtenção de informações por meio de investigação independente, desligada de interesses de poderes oficiais e privados.

O trabalho exige a checagem prévia, autônoma e ponderada de informações por meio do confronto com outras informações, chocando e registrando versões muitas vezes contraditórias. Demanda o veto de informações suspeitas ou apressadas, extirpando especialmente as que podem estar contaminadas por viés político.

É por isso que o bom jornalismo é o jornalismo da dúvida. O bom jornalismo se vale de fontes plurais, segue diferentes linhas de investigação, tenta construir um retrato dos acontecimentos e suspeita sempre do que os poderosos, de todos os lados,  pretendem trazer ou ocultar do conhecimento geral. O bom jornalismo age com contenção e toma cuidados.

Não foi isso o que aconteceu no Brasil, como registraram veículos da mídia internacional. Os “furos”, informações exclusivas e inéditas, que são a razão de ser do jornalismo investigativo, não existiram. Os meios de comunicação foram veículos de “vazamentos”, ou seja, de informações obtidas, recortadas e liberadas por três fontes principais, todas oficiais: o Ministério Público Federal, a Justiça Federal e a Polícia Federal.

Em estratégia assumidamente calculada de uso da mídia, eles comandaram o noticiário. O ritmo da cobertura foi ditado pelas autoridades que também regulavam a dosagem, os personagens em foco, o sentido e o contexto.

Para os jornalistas, o grosso do trabalho chegava pronto. Não havia esforço maior de checagem. Repórteres e editores procuravam mostrar-se confiáveis aos fornecedores, que realizavam verdadeiros leilões de vazamentos entre os veículos. Ouvir o outro lado passou a ser um preceito muito subversivo no jornalismo atual. O grande jornalismo brasileiro rebaixou-se. Não é à toa que inexistem profissionais  homenageados na cobertura dessa operação.

Contribuiu ainda para esse desfecho um outro poder tão poderoso como desconhecido do grande público: as empresas de estratégias de comunicação consorciadas ou não com as associações de classe. Ambas constituem em seu conjunto máquinas de influenciar cada vez mais a agenda dos veículos, impor seus temas, agir sobre a temperatura das redes sociais, ditar os humores do país. A busca pela verdade teve diante de si obstáculos inéditos. Fracassou, e o país fica então com as consequências de um jornalismo transfigurado em seu oposto: mera ideologia.

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Categoria: Fogus Factus Sobre: Assuntos relacionados ao Brasil e Mundo Fonte: El País e Carta Capital Mario Vitor Santos é jornalista, Knight Fellow da Universidade Stanford (EUA). Foi ombudsman e secretário de Redação da Folha.

Categoria: Fogus Factus
Sobre: Assuntos relacionados ao Brasil e Mundo
Fonte: El País e Carta Capital
Mario Vitor Santos é jornalista, Knight Fellow da Universidade Stanford (EUA). Foi ombudsman e secretário de Redação da Folha.