O Meio: Entre Nádegas

O trecho que segue abre o segundo volume do livro Passa lá em casa

“Deixou o ímpeto da mudança avançar. Os traços de seu rosto começaram a se derreter e a se esparramar, até se transformaram uma massa de pão inchada. A forma esbelta entrou em colapso, a graça e a elegância lhe foram arrancadas. Com uma velocidade que, por sua vez, se transformou em fumaça que simplesmente desapareceu sem deixar rastros. Em seguida, as poltronas, as almofadas, os tapetes e as obras de arte – tudo foi eliminado. As lâmpadas se apagaram, depois deixaram de existir e a escuridão reinou” Naguib Mahfouz

Deixou o ímpeto da mudança avançar. Os traços de seu rosto começaram a se derreter e a se esparramar, até se transformaram uma massa de pão inchada. A forma esbelta entrou em colapso, a graça e a elegância lhe foram arrancadas. Com uma velocidade que, por sua vez, se transformou em fumaça que simplesmente desapareceu sem deixar rastros. Em seguida, as poltronas, as almofadas, os tapetes e as obras de arte – tudo foi eliminado. As lâmpadas se apagaram, depois deixaram de existir e a escuridão reinou – Naguib Mahfouz

Não era o que queria, mas fazer o que. Vamos às perguntas

Sem gravador ou papel vou recorrer exclusivamente pela memória, acredite, ela é uma vampira. eu e sei que você não acreditava nessas palhaçadas, mas aqui estamos…

Augusto Gerônimo Martins: Como se transformou em vampira?

Marquesa Lucrezia C: Assim na lata?

AGM: Sim.

Marquesa Lucrezia C: Vamos falar sobre alguns acontecimentos antes disso.

AGM: Ok.

Marquesa Lucrezia C: Ok. Beatrice estava num corredor de nosso castelo.

AGM: Nosso castelo?

Marquesa Lucrezia C: Ele me levou para morar com eles. Bom, ela definhava. Beatrice era muito sensível, eu diria tão sensível quanto Catarina de Aragão.

AGM: Conheceu Catarina de Aragão?

Marquesa Lucrezia C: Não tive o imenso prazer. Mas voltemos a Beatrice. Ela estava no corredor onde podemos avistar a passarela sobre o fosso que Ludovico tanto usava para chegar de batalhas ou visitar uma amante. Preparava-se para visitar o tumulo de Bianca, sua filha adotiva que morrera há quase um ano. Beatrice estava grávida e vi de longe as lágrimas fazerem seu rosto brilhar. Me aproximei e passei a mão em sua face para enxugá-lo. Beatrice seguiu pelo corredor. Apenas me olhou e foi. Senti pena dela. Nunca vi tanta tristeza. Tristeza causada por mim. Eu sinceramente não sei… Depois ela voltou e pediu para que a visitasse em seus aposentos a noite para jogarmos. Pode achar estranho, mas éramos quase amigas.

Ela me indicou a poderes maiores para minha transformação. Uma espécie de sabbath. Depois segui o curso normal da vida, fiquei doente e faleci Obra de Luis Ricardo Falero

Ela me indicou a poderes maiores para minha transformação. Uma espécie de sabbath. Depois segui o curso normal da vida, fiquei doente e faleci
Obra de Luis Ricardo Falero

AGM: Quase amigas não as torna amigas. Isso está mais para amigas falsas.

Marquesa Lucrezia C: Talvez fique contente em saber que nos tornamos amantes nesse dia.

AGM: Está mais próximo do real. Deitava-se com mulheres?

Marquesa Lucrezia C: Apenas uma vez. Perdi a virgindade com uma sereia. Ela parece que já teve experiências acredito que com uma criada. Sabia como fazer. Eu pobre de mim, fiquei apavorada – sorriu.

AGM: Então não gostou?

Marquesa Lucrezia C: Gostei! Foi maravilhoso! E eu era uma puta. Não podia ver homem. Ficava louca. Fiquei louca por Ludovico. Não me importava com Beatrice. Na verdade detestava. Mulher culta, tão inteligente. Eu apenas bonita – sorriu e jogou a cabeça pra trás.

AGM: E já é muito, afinal foi você que o cara quis pintar.

Marquesa Lucrezia C: Ah! O cara.

AGM: Nada nunca é o suficiente. Continue.

Marquesa Lucrezia C: Depois durante alguns dias não aconteceu mais e eu fiquei louca. Foram poucos dias. Meu corpo ardia em desejo. Queria mais e ela fazia como se nada tivesse acontecido. Daria tudo para beijá-la milhares de vezes. Eu a queria mais que a qualquer homem que me possuiu. Ela apenas sofria por Ludovico. Foi como se tivéssemos trocado de dor. Fiz tudo para que percebesse. Nos amamos outras duas vezes. Rodeava sua porta como um cão sentindo o cheiro do cio. Entrei em seu quarto como um animal feroz. Estava disposta. Desde então o sexo era frequente. Eu queria, ela queria.

AGM: Ele nunca percebeu.

Marquesa Lucrezia C: Nunca!

AGM: Ficaram muito tempo amantes?

A maioria dos especialistas confirma a obra como sendo de autoria de Da Vinci. Compararam as impressões digitais com outro trabalho do gênio no Vaticano. Alguns estudiosos puseram em dúvida sua autoria, mesmo a frente da pesquisa Martin Kemp um dos maiores especialistas de da Vinci. O professor aposentado de Oxford nesse caso foi auxiliado pelo professor aposentado por uma Universidade da Florida, D. R. Edward Wright, que a resposta estava na Biblioteca Nacional da Polônia. No livro Sforziada-Lucrezia Crivelli por Leonardo da Vinci

A maioria dos especialistas confirma a obra como sendo de autoria de Da Vinci. Compararam as impressões digitais com outro trabalho do gênio no Vaticano. Alguns estudiosos puseram em dúvida sua autoria, mesmo a frente da pesquisa Martin Kemp um dos maiores especialistas de da Vinci. O professor aposentado de Oxford nesse caso foi auxiliado pelo professor aposentado por uma Universidade da Florida, D. R. Edward Wright, que a resposta estava na Biblioteca Nacional da Polônia. No livro Sforziada. Lucrezia Crivelli por Leonardo da Vinci

Marquesa Lucrezia C: Não. Foi rápido. Ela morreu rápido. Do dia para noite. As vezes acredito que começou a morrer quando Bianca morreu. Ia todos os dias em seu tumulo.

AGM: Bianca filha de Ludovico?

Marquesa Lucrezia C: Sim. Estava grávida e eu também estava.

AJM: Imagino duas grávidas fazendo sexo.

Marquesa Lucrezia C: Não imagine. Não era sexy.

AGM: Como conseguiu que Isabelli aceitasse as amantes do cunhado?

Marquesa Lucrezia C: Por meio de um segredo.

AGM: Posso saber qual?

Marquesa Lucrezia C: Essa parte também é engraçada. Quando morri me esqueci de completamente. Sinceramente não sei. Mas é engraçado, Beatrice sempre lembra. Sabe qual é. Ela me contou. Sempre me contam e vejo isso como uma prova de minha busca.

AGM: E você esquece.

Marquesa Lucrezia C: Não consigo lembrar. Yvian sabe.

AGM: Então essa e a prova que as duas são Beatrice.

Marquesa Lucrezia C: Não, Yvian é Beatrice, Beatriz é um engano. É algo que chega perto e me adormece.

AGM: Difícil de entender.

Marquesa Lucrezia C: Não há muito que entender ela apenas flui pelo tempo e vai sumindo conforme passa. A Yvian foi à primeira em quem se fixou.

AGM: E você chegou tarde.

Marquesa Lucrezia C: Sim. Sim – gritou furiosa.

AGM: Beatrice morreu.

Marquesa Lucrezia C: A bolsa estourou, a criança nasceu morta e ela morreu algumas horas depois. Ludovico enlouqueceu e me repudiou. Eu enlouqueci, pois era para mim apenas o começo.

AGM: Você morreu?

Marquesa Lucrezia C: Vivi muito tempo como se nada tivesse acontecido. Apenas uma pequena diferença, eu me tornara forte e minha aparência pouco mudou até minha morte. Levantei quando fui enterrada.

Então elas se beijavam demoradamente e juntas brincaram de mil brincadeiras, e Haiat-Alfenus se espantava com todos os detalhes de beleza que encontrava em Sett Budur. Ela segurava-lhe os seios e dizia: “Ó minha irmã, como teus seios são belos! Olha são muito maiores que os meus! - Livro As Mil e uma Noites Pintura de Paul S Brown

Então elas se beijavam demoradamente e juntas brincaram de mil brincadeiras, e Haiat-Alfenus se espantava com todos os detalhes de beleza que encontrava em Sett Budur. Ela segurava-lhe os seios e dizia: “Ó minha irmã, como teus seios são belos! Olha são muito maiores que os meus!Livro As Mil e uma Noites
Pintura de Paul S Brown

AGM: E suas amantes?

Marquesa Lucrezia C: Nunca consegui me recuperar da morte de Beatrice. Todo ano quando não havia guerra, visitava seu túmulo. Muitas vezes avistara o homem chorando e rezando sobre seu mausoléu. Esperava que saísse então ia restar minhas homenagens. Quando Ludovico morreu se tornou para mim um desconhecido. Mesmo antes. Ele deixou de fazer sentido para mim antes de Beatrice morrer.

AGM: E quando você morreu?

Marquesa Lucrezia C: Num ciclo natural da vida. Sem desconfianças. Abri a porta do mausoléu e lá estava ele. O homem cadavérico com a mesma aparência de décadas atrás. Não mudara nada nem um fio de cabelo.

AGM: Você não falou do homem cadavérico que presumo ser Albert.

Marquesa Lucrezia C: Lembro de uma hospede no castelo de Isabelli. Afeiçoamo-nos e tínhamos relações com frequência. Em pouco tempo éramos amantes ávidas. Uma jovem de rosto frágil e delicado com longos cabelos loiros sempre envoltos em uma capa vermelha. Tinha mais duas irmãs tão jovens quanto ela. O homem de aspecto horrível era seu criado. Sinceramente não lembro com exatidão como aconteceu apenas lembro-me dela e o desejo que tinha. Desejo que tenho e nunca tem fim.

AGM: Ela a transformou?

Marquesa Lucrezia C: Não. Ela me indicou a poderes maiores para minha transformação. Uma espécie de sabbath. Depois segui o curso normal da vida fiquei doente e faleci.

AGM: Engraçado conversar com alguém que diz faleci.

Marquesa Lucrezia C: Se quiser passar por isso? – arreganhou os dentes como um animal.

AGM: Acho que pretendo ir só até a morte. Foi enterrada?

Marquesa Lucrezia C: Sim.

Com luar e lobos. Albert trazia uma jovem desmaiada. Ilustração de Kagaya Yutaka

Com luar e lobos. Albert trazia uma jovem desmaiada. Ilustração de Kagaya Yutaka

AGM: E levantou-se no terceiro dia?

Marquesa Lucrezia C: No mesmo dia. Com luar e lobos. Albert trazia uma jovem desmaiada. “Vai precisar dela marquesa, se quiser permanecer existindo. Caso contrário se abstenha de sangue e o fim vem rápido”. Corri para o corpo e suguei até a última gota. Ele sumiu com o cadáver. “Serei seu servo, meu nome é Albert”. Perguntei a ele se iria precisar de um servo? Que pergunta idiota. Ele sorriu e disse: “A mínima suspeita e a destruição será infinitamente mais dolorosa que a morte”. Cínica, perguntei: “E sua linda protegida?” Encarou-me: “Minha linda protegida aproveitou que a senhora dormia na morte e resolveu voltar para França. No caminho, ordenou que parássemos, desceu da carruagem e pediu para diminuirmos a marcha, pois queria dormir. Não imaginava que éramos seguidos. Também não sabia que trazia consigo uma garota. Enquanto faziam amor, uma tropa se posicionava frente a carruagem. Eu consegui fugir. A carruagem foi queimada e sem olhar para trás sentia o cheiro de fogo. Os gritos das duas mulheres. Um erro que custou sua existência”. Eu perplexa preferi não comentar.

AGM: E depois?

Marquesa Lucrezia C: Passado anos após minha morte, soube que Isabelli estava nos últimos dias. Fui visitá-la. Horrorizada expeliu sua vida num grito agudo. Dei a ela a tristeza que a prosseguiu durante sua vida, que em nenhum momento houve qualquer interesse real do mestre em pintá-la. Meu rosto jovem foi a última coisa que viu.

AGM: Incrível! Onde foi morar?

Marquesa Lucrezia C: Albert percebeu a minha pouca disposição para continuar. Disse que poderia reencontrar a mulher amada. Viajamos para o leste europeu. Encontramos ciganos e estes disseram que ela poderia retornar, retornaria sempre na pele de outra. Durante um ano toda sorte de conhecimento foi experimentado até tirar sua alma de um descanso tranquilo. Por fim os ciganos vangloriaram-se do feito e Beatrice existia no corpo da Duquesa Yvian de P.

Lembro-me de andar na rede subterrânea de túneis que uniam muitos hospitais por aquela parte de Toronto, (Canadá) e algumas partes estavam muito velhas: quartos com incubadoras anciãs e pulmões de aço do passado... Lembro da coleção de itens retirados dos estômagos das crianças: uma vasta série de alfinetes, botões e não tão pequenos soldados de brinquedos. Dezessete anos depois, lembro-me das lágrimas rolando por meu rosto no dia em que deixei aquele edifício... Existem pessoas que entraram naquele edifício e nunca mais saíram - Ray Caeser

Lembro-me de andar na rede subterrânea de túneis que uniam muitos hospitais por aquela parte de Toronto, (Canadá) e algumas partes estavam muito velhas: quartos com incubadoras anciãs e pulmões de aço do passado… Lembro da coleção de itens retirados dos estômagos das crianças: uma vasta série de alfinetes, botões e não tão pequenos soldados de brinquedos. Dezessete anos depois, lembro-me das lágrimas rolando por meu rosto no dia em que deixei aquele edifício… Existem pessoas que entraram naquele edifício e nunca mais saíramFrase e pintura de Ray Caeser

AGM: Onde foi morar?

Marquesa Lucrezia C: No mausoléu até Albert achar que o melhor era tirar o caixão de lá. Muitas mulheres, homens e crianças desapareciam. Nunca tinha prestado atenção nisso. Pessoas que simplesmente desaparecem.

AGM: Nunca me perguntei sobre isso. Por que tantas pessoas somem?

Marquesa Lucrezia C: Augusto, por muitos motivos. Poucos são por causa do sangue que carrega. Não há muitos vampiros no mundo. Eu e a maioria preferimos matar. Transformá-los em vampiros, pra que? Você quer ser um vampiro?

AGM: Não.

Marquesa Lucrezia C: Nem eu queria. Mas aqui estou atravessando séculos em busca da minha querida Beatrice que tirei do conforto que estava para existir em tormento. A cada corpo que morre procuro outro como uma parasita.

AGM: Mas, Yvian não morreu. Ela é Beatrice e tem outra Beatrice no Brasil e você quer as duas. Quem é Beatrice afinal?

Lucrezia parecia uma vela derretida. Durante o tempo em que conversávamos não notara sua mudança. Apenas agora que emudeceu. Tenho certeza que se fosse humana choraria. Cadê Gautier que não me auxilia com as palavras? Vejamos… Seu olhar está perdido… Baboseira… É isso? Não sei. Estou mais perdido que ela e então, blá, blá… Que porra, cadê o dicionário. Tenho que tirar o cadê, Gautier jamais usaria palavra tão vulgar. E ela retorna…

Marquesa Lucrezia C: Beatrice é apenas a mulher que amo.

Poderia terminar minha entrevista com essa vampira gostosa, melhor, agora ela não está gostosa. Como disse antes, parece vela derretida, por que o dia é claro, que pena. Nem pensem que vou terminar com frase tão bonitinha. Não sou Capote, mesmo assim prossigo. Ele faria o mesmo no meu lugar. Percebi. Repeti a palavra “mesmo” duas vezes com essa três provocando uma cacofonia.

AGM: Onde foi morar depois que tirou seu caixão do cemitério na Itália?

Marquesa Lucrezia C: Já foi a Itália?

AGM: Sim, algumas vezes.

Marquesa Lucrezia C: Onde?

AGM: Veneza. Costumo ir a Burano por causa das rendas.

Marquesa Lucrezia C: Por causa do “merletto di Burano”. Trabalho excepcional. Você é um homem de bom gosto.

Neve no cemitério 1817 de Friedrich Cloister

Neve no cemitério 1817 de Friedrich Cloister

AGM: Onde foi morar?

Marquesa Lucrezia C: Acha isso importante?

AGM: Acho que uma das coisas que mais me chama atenção é justamente o lugar que um vampiro reside. Os objetos que o cercam, a história, o passado…

Marquesa Lucrezia C: Tudo bobagem. O mais importante da história de um vampiro é o antes de sua transformação e o hoje.

Imagem em destaque: Roberto Ferri

Imagem em destaque: Roberto Ferri

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