O Início: Bolha de Segurança

Trecho de introdução do primeiro volume do livro Passa lá em casa

Era um glorioso mês de Maio, desses que a gente vê apenas três vezes na vida e que têm o esplendor, o sabor e o perfume de lembranças da infância - George Simenon Dia nublado por Fernando Calamari

Era um glorioso mês de Maio, desses que a gente vê apenas três vezes na vida e que têm o esplendor, o sabor e o perfume de lembranças da infânciaGeorge Simenon
Dia nublado por Fernando Calamari

Certa vez escutei que uma criança forma a base de sua personalidade aos seis anos. Não sei, mas foi o que ouvi. Tipo, se ela será egoísta, autoritária, agressiva, bondosa, paciente. Sei que todas essas qualidades e defeitos fazem parte do ser humano em pequenas ou muitas doses. Porem algumas dessas e outras características ficam de base. São já traçadas na infância.

Jonny Quest em quadrinhos

Jonny Quest em quadrinhos

Mas não é sobre isso que quero falar. Quero discorrer sobre outra característica infantil. Também escutei isso num dado momento de minha vida, não sei de quem e nem onde, nem quando. Na verdade nem sei se posso afirmar se li ou realmente escutei. A questão é: uma criança tem uma bolha de segurança. Algo que a protege de um “estupro” mental e moral, mas nem sempre a protege de um ato físico. No físico quando a bolha estoura ela fica imune, o que fatalmente lhe acarretara sérios problemas na fase adulta. Mas a bolha existe e é para onde ela corre e essa se torna impenetrável.

D'Artagnan, D'Artagnan, é um valente forte, D'Artagnan, D'Artagnan a enfrentar a morte. D'Artagnan, D'Artagnan, sempre em defesa dos mais fraco e oprimido, D'Artagnan, D'Artagnan, de todos é amigo... Trem da Alegria

D’Artagnan, D’Artagnan,
é um valente forte,
D’Artagnan, D’Artagnan
a enfrentar a morte.
D’Artagnan, D’Artagnan,
sempre em defesa do mais fraco e oprimido,
D’Artagnan, D’Artagnan, de todos é amigo…
Trem da Alegria

Se essa criança tem a tutoraria de um adulto em completo desequilíbrio, cedo ou tarde a bolha estoura. Falo sobre o “estupro” mental, moral e físico, daí não há bolha que resista. Claro, sem esquecer a violência sexual sofrida por uma criança, aí nada pode retornar, é o fim. Mas essa parte é obvia. Quero dizer que minha bolha estourou, não lembro que idade tinha, mas ela estourou. Talvez por não lembrar qual idade tinha posso afirmar que era muito pequeno. Apenas uma imagem que ficou na minha mente e eu descobri que era câncer.

Amava meu pai acima de qualquer coisa. Se você lembrar dos clichês de pai herói, era o meu, talvez também o seu. Fato, o meu era. Aconteceu de repente, um curto espaço de tempo. Muito magro e sumiu. A ultima vez que o vi estava no caixão entre flores. Ele não estava sereno e sim cadavérico. Não, não foi essa imagem que quebrou minha infância e me arrastou para as mãos do lúdico numa tentativa de remendar minha bolha. Foi outra.

Foi quando entrei no dormitório de meus pais. Minha mãe, pequena e franzida tinha despido o homem e o arrastava para o banheiro. Segui pela sombra os dois e observei minha mãe banhando meu pai. Via todas as costelas e ele gemia baixo. Minha mãe chorava rios e ao mesmo tempo tentava se conter. Ele me chamou e minha mãe mandou eu sair. Sem saber a qual dos dois obedecia, fiquei parado. Estendeu a mão e fez sinal. Eu fui. Não lembro com exatidão o que ele me falou, apenas frases soltas que carrego desde então, mas nunca as juntei e cataloguei.

Agora o câncer me corrói.

Peninha e Bicudinho

Peninha e Bicudinho

Umas das coisas que ele disse foi, justamente em criar um mundo para onde eu pudesse correr e viver uma outra vida. Eu corri para a Casa dos Sete Fantasmas. Estória criada por Floyd Gottfredson em 1936. A derradeira estória que ele leu para mim. Dele herdei uma respeitável coleção de gibis Disney e comprei outros tantos. Minha bolha. Eu ligava a TV e assistia Snoopy, minha bolha. Assistia o que passei a chamar de Lado B Hanna-Barbera, que ia de Brasinhas do espaço passando por Urso do cabelo duro e Os Muzzarelas. Scooby Doo, Os Jetsons e Josie e as Gatinhas. Isso sim é a mais pura Bolha psicodélica.

Você não acredita na minha Bolha destruída?

Augusto tem 14 anos e é o inicio. Inicio para o Buggy à jato. O televisor, assim vamos nos referir a ele, muito velho com seu tubo preso a uma caixa de aglomerado exasperava Augusto. Nessa época, Levy, os gêmeos e Augusto moravam nos Campos Elíseos, na mesma rua. A casa dos três era parecida, pois fora projetada pelo mesmo arquiteto.

Augusto tem 14 anos e é o inicio.
Inicio para o Buggy à jato.
O televisor, assim vamos nos referir a ele, muito velho com seu tubo preso a uma caixa de aglomerado exasperava Augusto. Nessa época, Levy, os gêmeos e Augusto moravam nos Campos Elísios, na mesma rua. A casa dos três era parecida, pois fora projetada pelo mesmo arquiteto.

Então digo que graças a essa bolha salvei uma garota de algo horrível.

Nessa época morava em Campos Elíseos, mais especificamente na Vitorino Carmilo num lindo casarão que foi do pai de meu pai, em estilo eclético como a maioria. Meus melhores amigos que carrego até hoje e vem me visitar no hospital, moravam em outros casarões ecléticos. Incluindo a vitima que salvei, o dela era o mais conservado. Seu nome era Dafne, lembrou de algo?

Era muito tarde e eu deveria ter uns nove anos. Lembro porque nessa época já tinha um pai morto e algo na cachola. Ela andava pela calçada de triciclo, ou como preferir, tonguinha. Enfim, uma dessas motinhas de plástico com pedalzinho. Tinha não mais que quatro anos. Usava uns óculos grossos e tinha cabelinhos louros encaracolados. Eu avistava do primeiro andar de casa, do meu quarto. Esse casarão não existe mais. Estudava para prova e resolvi dar uma olhada para a noite.

Um andarilho parou perto dela. Magro, velho e encardido. Ele ficou um tempo conversando com ela, até aí enfim…

Quando ela se levantou e fez que seguiria o tal homem vi um perigo. Corri pelo corredor, derrubei a Quitéria, atravessei a sala, minha mãe gritando, invadi o jardim e em pouquíssimo tempo estava entre ela e o velho. O homem disse:

— Preciso ir numa rua assim, assado e pedi para ela me levar – tranquilo.

— Você quer? Você quer… Os pais dela podem levar o senhor na tal rua – segurei a menina pelo bracinho.

Arrastei para frente da casa dela e chamei a irmã.

— Chame seus pais, há um homem… – ele havia sumido.

Snoopy e Woodstock

Snoopy e Woodstock

Depois de alguns anos perguntei a ela sabendo que não lembraria. E realmente, não lembrou. Se algo ruim acontecesse esse fato faria parte da vida dela inconscientemente. Seria a base que ela carregaria por toda vida.

Eis a bolha.

Imagem em destaque, o mestre Walt Disney

Imagem em destaque, o mestre Walt Disney

Augusto Gerônimo Martins

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