Vampiras, Yvian não é Carmilla

Yvian não é Carmilla, mas foi em Carmilla que me inspirei para criar Yvian.

Yvian não é Carmilla, mas foi em Carmilla que me inspirei para criar Yvian.

Autor:  King in Yellow

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Carmilla – A primeira e mais transgressora vampira da História

Vampiros.

Os três livros que serviram de inspiração para a construção de alguns personagens fantástico do livro: Passa lá em casa A obra-prima, A morte amorosa de Théophile Gautier (1836), Carmilla de Joseph Sheridan Le Fanu (1871), Drácula de  Bran Stoker (1897)

Nas últimas décadas a cultura popular parece ter sido invadida por eles em todas as formas, cores e modalidades possíveis e imagináveis. De inúmeras versões de Drácula até as Crônicas vampirescas de Anne Rice, de Crepúsculo (argh!) a True Blood, os vampiros estão em todo canto, em filmes, séries, literatura, desenhos animados, quadrinhos… literalmente, em todo canto!

Retratados originalmente como monstros impiedosos e seres das trevas, os vampiros mudaram e se tornaram heróis românticos, então, figuras trágicas, para voltarem a ser rebeldes indomáveis e mais recentemente, namorados modelos (argh de novo!). A sede de sangue foi se dissipando. O desejo de abraçar a escuridão da alma – um presente questionável que vinha com a imortalidade foi se tornando menos denso. Vampiros deixaram de ser predadores assassinos e se tornaram indivíduos complicados e com problemas bem humanos.

Depois de tantas reviravoltas e interpretações, será que ainda vale a pena pensar em vampiros?

A resposta mais provável seria não.

Mas então, que tal buscar nas origens do vampirismo algo diferente? Particularmente em um romance vitoriano. 

Hmmm…. pode ser interessante!

Claro, quando pensamos em vampiros, o que vem na mente é Drácula, só que antes da obra de Bran Stoker ser escrita, outro autor já havia trilhado esse caminho obscuro… seu nome Joseph Sheridan Le Fanu. Provavelmente poucos tenham ouvido falar desse “outro autor irlandês” envolvido com vampirismo, mas a história não mente. Vinte e dois anos antes de Drácula (1897), lá estava Carmilla (1871).

Na época, Le Fanu era um autor relativamente popular, um escritor que explorava o sobrenatural e ficção de mistério com maestria. Seus trabalhos eram geralmente reunidos em edições especiais, antologias ao lado de contos de Mary Elizabeth Braddon e Wilkie Collins. Sua popularidade infelizmente decaiu no século XX. Mas muitos de seus trabalhos ainda estão por aí e continuam ótimos.

Le Fanu foi o pioneiro em explorar o mito ancestral dos vampiros e trazê-lo para o que então chamavam “tempos atuais”. Contudo, Carmilla era moderna demais para sua época, incrivelmente avant garde e transgressora. Ela era, afinal de contas, a primeira história protagonizada por uma Vampira Lésbica. O que, francamente, não é pouca coisa em pleno século XIX. 

O conto Carmilla é narrado em primeira pessoa por Laura, uma das vítimas da criatura. Ela começa relatando um estranho incidente de sua infância, no qual desperta e encontra uma jovem mulher ajoelhada ao lado de sua cama. Ela acaba adormecendo, apenas para acordar mais uma vez com a sensação de ter sido mordida. Anos mais tarde, a adolescente Laura e seu pai um General, acolhem uma estranha em sua casa, uma mulher que diz se chamar Carmilla. 

Laura acredita que ela é a aparição que surgiu em seu quarto e que ela acreditava ser parte de um sonho. Ela decide ignorar a suspeita e as duas acabam se tornando íntimas, dando início a uma forte amizade. Carmilla é uma criatura peculiar – dorme durante todo o dia, se recusa a falar de seu passado, e alterna períodos de incrível preguiça com outros marcados por explosiva energia e disposição. Ninguém parece especialmente incomodado pelo seu comportamento, exceto Laura, que oscila entre repulsa e atração no que diz respeito à sua nova amiga:

“É como o ardor de um amante; algo que me deixa embaraçada; algo que odeio e que me domina. Com seus olhos ela me atrai até ela, e seus lábios quentes viajam até minha face em beijos. E ela sussurra, quase em lamento: “você é minha, você será minha, nós seremos uma para sempre”.

Mas o conto é uma novela de terror gótica que, é claro, tinha de conter uma boa dose de tragédia. A medida que a amizade entre Carmilla e Laura se aprofunda, outras jovens mulheres da vizinhança acabam adoecendo e morrendo de forma misteriosa pelo que se acredita ser uma nova doença. Laura é frequentemente visitada em seus sonhos por um “gato monstruoso” e “duas estranhas presas que dardejam na escuridão até se enterrarem em seus seios“. Laura vai enfraquecendo, e seu pai teme que ela também possa ter contraído a misteriosa doença. Em desespero, o General pesquisa casos semelhantes e descobre o relato de um homem cuja sobrinha foi morta por um tipo de criatura das trevas que apareceu na forma de uma mulher chamada “Millarca“. 

Eventualmente, o pai de Laura forja uma aliança com um vingativo caçador de vampiros. Os dois acabam rastreando os passos de Carmilla e descobrem que ela faz parte de uma espécie de predador sobrenatural que se alimenta do sangue dos inocentes – um vampiro!

Encurralando a criatura em sua tumba oculta, eles conseguem cravar uma estaca em seu coração, a decapitam e queimam seus restos, só por precaução. Mas o romance termina de forma inconclusiva: Será que Laura está salva ou a memória de Carmilla continuará a atormentá-la para sempre?

Infelizmente, a novela Carmilla jamais foi um sucesso de crítica ou consenso entre os leitores. A razão para isso é simples. 

Ela foi escrita no auge da Era Vitoriana, um período conhecido pela sua estrita moralidade e pela severa repressão sexual. Apresentar como protagonista uma vampira charmosa, sedutora, com um inegável sex-appeal e desejo por uma jovem britânica de boa família, era incrivelmente ousado. Quando a história foi publicada causou furor e despertou a reação de editores. Muitos taxaram o livro como subversivo e detestável. É provável que isso tenha contribuído para que Le Fanu fosse preterido, fazendo com que sua fama declinasse consideravelmente. 

Carmilla, no entanto, teve enorme influência para a criação de Drácula e lançou as bases para o mito do vampirismo.

É possível traçar na história de Bran Stoker vários acenos positivos, sobretudo na construção da mitologia dos vampiros, na ambientação e até mesmo em alguns personagens. Stoker parece ter tomado emprestado vários conceitos, ao mesmo tempo que criou outros tantos. 

No entanto, Stoker foi mais cuidadoso. Ele tratou de apresentar seu vampiro como um monstro bem menos agradável que a sensual Carmilla. Em Drácula, o vampiro é um horror que tenta desestabilizar os pilares da bem construída Sociedade Britânica, um elemento exterior indesejado e aterrorizante. Ele se planta no seio da Capital do Império, em plena Londres, e começa a criar caos e confusão, ao mesmo tempo que perverte a ordem estabelecida. Embora o Conde Drácula seja uma figura fascinante, ele é claramente um monstro e visto desde o início como o vilão pelo qual não se deve sentir simpatia e menos ainda torcer. A premissa do romance é que para sobreviver ao exótico Conde, seria preciso ter um coração puro e fibra moral. Já em Carmilla não há como resistir à sedução sobrenatural encarnada na vampira, ela é poderosa demais, mesmo para uma moça de coração puro como a jovem Laura.

Críticos podem argumentar que Le Fanu usa a homossexualidade de Carmilla como um símbolo de monstruosidade aberrante. Os sentimentos “não naturais” colocariam lesbianismo e maldade num mesmo patamar. Entretanto, a complexidade da personagem nega essa interpretação. A vampira é inegavelmente um monstro e uma assassina impiedosa, mas ela também parece querer desesperadamente o amor da amiga. Ainda que seu amor seja pervertido pelo desejo de sangue, ela não quer destruir Laura e sim se tornar uma com ela. Ao longo de toda história, as duas demonstram sentimentos uma pela outra, incompreensivo é bem verdade, por vezes repleto de repulsa, vergonha e claro, inegável desejo.

Hoje em dia, Carmilla pode não chocar. Os tempos são outros, mas no final do século XIX, aquilo era inusitado e perigoso.

Filme, comédia, inspirado em Carmilla

Carmilla é frequentemente citada como o protótipo de um subgênero do horror gótico tradicional, as histórias de Vampiras Lésbicas, que se tornaram populares sobretudo nos anos 1970 através de produções britânicas. O mais conhecido desses filmes foi “Carmilla – a Vampira de Karstein” (The Vampire Lovers) estrelada por Ingrid Pitt e Kate O´Mara. Mas é difícil reconhecer esse filme como uma adaptação fiel do que Le Fanu tentou discretamente construir com sua personagem. 

Com apenas 70 páginas, o conto Carmilla é uma obra estranha, repleta de cenas sinistras, uma narrativa complexa e plena de ambiguidade moral. Confesso que ele tem um certo bolor do romantismo do século XIX, mas ainda é poderoso. Trata-se de uma leitura interessante para quem deseja saber onde os vampiros surgiram originalmente e como eles foram mudando para se ajustar a cada público.

Hoje com quase 150 anos, Carmilla continua confinada em sua tumba esperando o momento de despertar.

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