Passa lá em casa na Amazon

Em outubro de 2009 depois da tentativa fracassada em ler um romance vampiresco fui desafiada pela minha irmã mais nova, K. Luthién Farias a escrever um livro melhor. Foi quando juntei algumas notas, observações e desenhos que vinha acumulando nos 2 anos anteriores. Era minha ideia em fazer um livro sobre um grande amigo que infelizmente desenvolvera linfoma. Fazíamos faculdade de arquitetura na mesma sala e quis homenageá-lo com um livro. Alexandre Augusto Martins foi uma das almas mais bondosas, generosas, de caráter excepcional, justo, alegre, inteligente que conheci ao longo de minha vida. E olha que o que eu mais conheci na vida foram pessoas com tais características. Tempos antes tinha lido uma matéria sobre morar em um condomínio de luxo sobre um shopping e ri muito. A segurança era coisa para o FBI, as lojas chiquérrimas, as madames bizarras, os homens de negócios caricatos, as crianças enjoadas e os cães parecendo tapete escovado. Ora, no ano de 2009 também era aniversário de nascimento de Carmen Miranda uma de minhas cantoras favoritas. Naquele ano se estivesse viva seria 100 anos.

No ano anterior estava em projeto 4 e tínhamos que desenvolver uma casa para uma família que deveríamos criar. Nasce assim a seguinte família:

Biografia da cantora de radio e seus filhos drags queen Cosma e Damiana

Elvira de Oliveira Prudêncio: é fumante, ex-cantora de rádio e pesquisadora na área de música para uma grande gravadora, foi quem construiu a casa e tem por empregada Aurélia;

Adamastor de Oliveira Prudêncio: irmão gêmeo é advogado e é a drag-queen Damiana;

Ananias de Oliveira Prudêncio: irmão gêmeo dubla desenhos animados e drag-queen Cosma; 

Elizete Prudêncio: irmã de Elizete, dançarina de ventre, morou um tempo em Marrocos. Quando sua irmã Elvira, os gêmeos e seu irmão Élcio foram visita-la, resolveu voltar para o Brasil com eles. Trabalha com a irmã na pesquisa. É budista;

Élcio Prudêncio: é fumante, irmão mais velho das duas e paraplégico por poliomielite. Professor aposentado de filosofia pela USP. Costumava praticar corrida com cadeira de roda junto a Cosma. Foram proibidos de frequentar a estação Barra Funda do metro por atropelarem um usuário. No caso a arquiteta Jordana;

Nasce assim a personagem Augusto Geronimo Martins. Lembro que Geronimo veio depois de assistir o TFG de Leandro Gomes, ele tem Geronimo no sobrenome. Perguntei ao Alexandre se ele gostava da ideia. Ele aprovou.

Para homenagear Carmen Miranda e um pouco da música brasileira, Augusto decide fazer uma peça onde seus amigos de infância, Ananias e Adamastor irão representar a Cantora.

Em 2013 finalmente acabei. Depois de muita leitura, pesquisa, filmes, música, desenhos animados, gibis, HQs, o livro ficou pronto. Inúmeros personagens desfilam por mais de 900 páginas. É um livro de aventura, entretenimento, crítica, arquitetura, música, fantasia. Nesse ano em março fiz esse blog para ser suporte para quando o livro fosse publicado.

Minha irmã leu. Perguntei a ela se meu livro de vampiros ficou melhor.

Para acessar a página do livro na Amazon clique aqui.

Resumo:

Após comprar um apartamento em um condomínio de alto luxo, construído sobre um shopping, Augusto não satisfeito contrata uma arquiteta. Pensando que o estilo do edifício é neoclássico, pede a ela que a decoração siga a mesma linguagem. Porém suas preocupações logo são substituídas por uma peça e um imprevisto.

A peça de teatro é em homenagem a sua musa, Carmen Miranda. Para tal chama seus amigos de infância, Levy, Adamastor e Ananias. Levy é dono de uma produtora de filmes pornô. Ananias e Adamastor são ator-dublador desenhos animados e advogado, respectivamente. Ambos são as drags queens Cosma e Damiana, na noite paulista e interpretaram Carmen Miranda e Maria do Carmo.

O imprevisto Augusto terá que lidar de forma amarga, junto as mulheres que ama e com um pouco de humor.

Para os filhos, Abigail, design de joias e Nicolas, empresário dono de uma funerária de luxo, Bartolomeu tem um terrível segredo. Durante muito tempo ele os observava de perto e chegava à conclusão de que estavam fora de perigo. Dá a cada um uma unidade no luxuosos condomínio, que pela segurança, considera um lugar ideal.

Leandro César considera que o lugar ideal é um condomínio sobre o mar. Em outras palavras um navio. Com apartamentos, restaurantes, teatro, casas de show, as surpresas em sua maioria são boas e caras. Na maioria das vezes…

Infelizmente para Lucrezia o passado a persegue. Médica na Santa Casa, ela tem em seu apartamento todo o inferno que a cerca há muito tempo. Buscando a paz sem jamais encontra-la, persegue de maneira instintiva uma das moradoras. Talvez nela encontre o que procura.

Frente ao Rio Pinheiros, da cobertura Zípora vê um falso estilo neoclássico de um edifício que se ergue sobre um shopping center. Ela traz trancada em um baú o passado, uma mulher que no curso natural da vida deveria estar morta a mais de 3 mil anos. Ela sorri para Zípora, ela é sua amante.

Uma equipe de cientistas busca pelo mundo provas e uma ligação consistente da existência de um dilúvio global. Seja no Mar Negro onde no passado fora um grande lago de água doce, em Gobero no Níger, estudando duas etnias distintas. Analisando o Bólido de Tollmann e a Corrente do Golfo Pérsico.

Lembrando os clássicos de vampiro como A morte amorosa de Théophile Gautier, Drácula de Bram Stoker e Carmilla de Joseph Sheridan Le Fanu. Não deixa de também de lançar um olhar cínico sobre a literatura de vampiros, a elite de um modo geral, a falta de memória do povo brasileiro e a descrição de um país claudicante, quase morto.

Categoria: Memórias póstumas de Cosma e Damiana Sobre: Textos que escrevi, escrevo e outros textos Imagem em destaque: Alexandre Augusto Martins

Categoria: Memórias póstumas de Cosma e Damiana
Sobre: Textos que escrevi, escrevo e outros textos
Imagem em destaque: Alexandre Augusto Martins

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A amante das xoxotas

Então não são mais vampiras?

Não.

Legal. Mas ainda são lésbicas? Que sacanagem

Oriunda do mal alimentado pelo odio dos homens e o amor das mlheres, seu nome Carmilla a rainha vampira

Oriunda do mal, alimentado pelo ódio dos homens e o amor das mulheres, seu nome, Carmilla, a rainha vampira

Estava com meu amigo Moredson quando vi o poster, numa vídeo locadora, do filme Matadores de vampiras lésbicas. Foi na Rua Martins Fontes e estava um dia lindo em 2009 ou 2010. Já tinha começado a escrita do livro Passa lá em casa e o tema me atraiu por questões obvias. Deveria ter toda forma de referencia no tema vampirismo, e se tem algo que não sai de moda, é vampiro. O tempo correu e no ano de 2012 após ver videos que não me lembro no You tube, me deparei com o filme. Ótimo! Vamos ver isso.

Quem me conhece sabe que sou um tanto lerda, e era uma comédia. Logo no começo tive que dar uma pausa, reconheci a voz do João Gordo, que certa vez nos idos dos anos 90 deu um autografo super fofo para minha mãe Izilda. Sim, era o João Gordo, tanto melhor. Essa é uma das poucas exceções que vale a pena ver dublado.

Adorei o filme logo de inicio. Segue a sinopse:

Posters do EUA, França e Grécia

Posters do EUA, França e Grécia

Fletch (James Corden) perdeu o emprego e Jimmy (Mathew Horne) a namorada. Com as férias chegando e sem planos de aonde ir a dupla decide passar um final de semana no campo tomando cerveja e respirando ar puro. Porém, nada acontece como planejado. Depois de muitas confusões a dupla se vê presa num vilarejo onde as mulheres são vítimas da lendária maldição das Vampiras Lésbicas. Muita diversão, dentes pontiagudos e lindas mulheres estarão no caminho destes amigos. Diante desta situação é preciso coragem para superar seus medos, e também seus sonhos, e tornar-se um dos Matadores de Vampiras Lésbicas.

Poster do filme no EUA, Inglaterra e Suécia

Poster do filme no EUA, Inglaterra e Suécia

O filme foi um dos 300 exibidos no Festival do Rio 2009. Na 11° edição do festival trouxe filmes do mundo inteiro incluindo Matadores...

É interessante notar uma das mais fortes referencias ao tema vampiro, ou uma das melhores estórias de vampiro já escrita, no caso Carmilla. Aqueles que pesquisam sobre vampirismo logo se depara com essa obra que é anterior a Drácula. Para a maioria dos estudiosos em literatura, trata-se de obra superior a de Bram Stoker.

Sobre a obra, Cris Rangel comenta o seguinte:

“A maior referência, em ambos os casos, ainda é o famoso Drácula, do irlandês Bram Stoker, publicado em 1897 e escolhido como base para uma infinidade de filmes, roteiros e séries de TV. Talvez seja esta a obra literária que teve o maior número de adaptações em toda a história do cinema.

O que pouca gente sabe é que, mesmo tendo se tornado um ícone vampiresco para a realização de diversas obras, antigas e recentes, Drácula não foi o primeiro vampiro da literatura.

O primeiro vampiro foi, na verdade, uma vampira. Carmilla, nome que dá título ao conto do também irlandês Sheridan Le Fanu, foi publicado em 1871, dois anos antes da morte de seu autor e quase três décadas antes de Drácula.

A obra de Le Fanu teria, à época, influenciado diretamente a de Stoker. A comprovação disso é possível com a leitura de “O Convidado de Drácula”, um esboço do início do romance de Stoker, preservado e postumamente publicado e que traz nuances que demonstram claramente a inspiração em Carmilla.

No conto original Le Fanu usa metáforas que deixam clara a influência e o fascínio que a jovem Carmilla Karnstein causa nos homens e mulheres de uma família aristocrática, sugerem o erotismo e sedução da personagem, além de uma beleza incomparável”.

Leia a matéria sobre Carmilla, na integra aqui.

Ao retornar o barão descobriu que os encantos de Carmila tinham seduzido sua linda esposa Eva e a transformado em uma amante das vaginas

Ao retornar, o barão descobriu que os encantos de Carmilla tinham seduzido sua linda esposa Eva, e a transformado em uma amante das vaginas

Uma das questões, ditadas acima, que permeiam a novela, é uma tênue trama do amor lésbico. Apesar que, a maioria dos estudiosos tratam esse tema com pouca importância. Lembrando, para sair um beijo gay em novela, é feita uma pesquisa antes. Pela resposta negativa da maioria das donas de casa, não da para exigir de um texto escrito em meados de 1870 uma relação mais explicita que a sugerida. O texto não apenas deixa claro a intenção amorosa da vampira, como a impressão que ocorreu outras vezes. A personagem que mais tentei aproximar da figura gótica de Carmilla, é Yvian. Sobre essa questão, discorrerei mais tarde na página: Vampiras, Yvian não é Carmilla.

O trecho que abre esse post, encabeça uma das histórias finais de Passa lá em casa. Um momento decisivo e angustiante que amenizo com o diálogo acima.

Recomendo o filme, despretensioso e descaradamente trash. Vale assistir a versão dublada, coisa que recomendo pouco. Com a voz do inconfundível do João Gordo, fica melhor.

e com isso ele arrancou a cabeça da vaca.

Categoria: Sereias, Vanuccia não é Ariel Sobre: Cinema, vídeo e audiovisual

Categoria: Sereias, Vanuccia não é Ariel
Sobre: Cinema, vídeo e audiovisual

André de sapato novo

O chorinho André de sapato novo nasceu de uma circunstancia bastante dolorida do compositor André Vitor Correia (Rio Bonito, RJ, 18/06/1888, Rio de janeiro, 4/03/1948).  Ele dançou em um baile com os tais sapatos novos que apertavam seus calos e fazia outros. Compositor. Saxofonista. Clarinetista. Funcionário da Imprensa Nacional. Solteiro, deixou um filho de nome Sebastião. Músico de prestígio, foi diretor de harmonia do rancho Ameno Resedá, em 1925. Em 1931, seu choro “Comigo é no beiço” foi gravado na Odeon pelo Trio T. B. T. Em 1936, dirigiu uma jazz

André Vitor Correia (Rio Bonito, RJ, 18/06/1888, Rio de janeiro, 4/03/1948)

André Vitor Correia (Rio Bonito, RJ, 18/06/1888, Rio de janeiro, 4/03/1948)

band, época em que trocou o clarinete pelo saxofone, passando a ser conhecido como André Saxofonista. Dentre suas composições, destaca-se o choro “André de sapato novo”, obra das mais populares no ambiente. No ano de falecimento desse musico e compositor, Almirante, que apresentava um programa de radio chamado O pessoal da velha guarda, tinha por convidado Pixinguinha e Benedito Lacerda. Nesse programa Almirante contou como nasceu uma das mais importantes musicas do cancioneiro brasileiro. Difícil encontrar alguém que nunca tenha ouvido essas notas.

Almirante:

“Poucas músicas terão o privilégio de poder ser identificadas por uma nota, hein? E entre estas poucas está o grande choro “André de Sapato Novo”. Basta que Pixinguinha extraia do seu saxofone este Mi grave para que todos reconheçam logo que música vem por aí. Aquele grave, como todos sabem, representa a parada que faz a todo momento o indivíduo que calça o sapato novo que lhe aperta o pé. O calo está gritando dentro do calçado, e o jeito é fazer umas paradas para ajeitar os dedos comprimidos. O choro “André de Sapato Novo” do saxofonista André Victor Corrêa, falecido recentemente, segura as agonias do autor num dia em que calçou um sapato novo. A execução estará a cargo de Benedito na flauta e Pixinguinha no saxofone. Cada nota assim (Pixinguinha toca um Mi 2) no saxofone do Pixinguinha representa uma daquelas paradas providenciais. Ouçam”.

Mas a melhor parte da história é a seguinte, uma linha no Wikipédia. Você pode pegar o artista mais chulé, de um EUA por exemplo, e dificilmente vai encontrar apenas uma linha escrita. Muitos dizem que esse portal não é de confiança, porém pode apenas ser o começo. Uma fina linha condutora para uma pesquisa maior e ampla. Por que não? Assim chegamos a conclusão da importância dos artistas brasileiros, de qualidade, para esse belo povo. Se não gostou da expressão “música de qualidade” leia o que este jornalista, Regis Tadeu fala sobre pseudointelectuais com suas “filosofias” Rede Globo.

Resumindo, nem eu e nem você saberemos mais que algumas linhas sobre esses músicos, especialmente aqueles da primeira metade do seculo XX.

O livro Passa lá em casa tenta lembrar um pouco desses artistas e digo: conseguir material para cita-los é tentar tirar coelhos de uma cartola sem fundo.

Deixo vocês com o trecho do livro que tem por subtitulo, uma ínfima homenagem a música, abaixo A música:

AUGUSTO DE SAPATO NOVO [1]

O Rei-concierge Mopir foi com Augusto perto do grande fosso. Chupavam um chica-bom. Um criado vinha atrás com uma bandeja em ouro, cravada de pedras preciosas e picolés. Os picolés eles devoravam um atrás do outro.

Viram, era um monte de crianças se debatendo sobre dragões de inúmeros tamanhos e tipos.

Pareciam em sua maioria ter seis anos não mais que oito. Todas albinas e muito parecidas. Os cabelos brancos escorridos secavam logo que emergiam.

Altamiro Aquino Carrilho foi um músico, compositor e flautista brasileiro. Altamiro gravou mais de cem discos, compôs cerca de duzentas canções, tendo se apresentado em mais de quarenta países difundindo o Choro brasileiro.

Altamiro Aquino Carrilho foi um músico, compositor e flautista brasileiro. Altamiro gravou mais de cem discos, compôs cerca de duzentas canções, tendo se apresentado em mais de quarenta países difundindo o Choro brasileiro.

— Meu súdito, elas são melhores que câmeras.

— Mas estão atacando dragões! Eles não são nossa proteção?

— Não quando são muitos. Chegue mais perto de uma delas.

Pela ponte caminharam passando por serpentes e animais inenarráveis. Uma criança caiu a seus pés.

— Rei, ela não tem pupila. É tudo branco.

— Chegue perto.

Filamentos brilhantes. A criança rosnou e se debateu. Fugiu e se precipitou para o lamaçal. Não dava para distinguir o sexo. Apenas alguns traços não as faziam iguais.

Voltaram para o grande salão do rei e nem as pedras de Aladim se comparavam com a riqueza daquele reino. Uma escrava postou-se ao lado de Augusto para abanar com uma longa pluma Augusto no recamier. O Rei-concierge era abanado por duas beldades.

— Qual a natureza das crianças?

— Crianças perversas que estão no limbo. Nem Padim Ciço[2] pode fazer algo por elas.

Que tipo de perversão teria uma criança? A gente vê sempre a tal pureza. Essas transmitiam uma visão fantasmagórica, infernal.

Augusto reclama:

— Com essa brisinha não tem como aplacar meu calor. Que tal o ar-condicionado?

— Meu caro e exigente súdito, pois lhe digo que seu calor é proveniente do que trás entre as pernas. Pegue a escrava e a conduza a seu bel-prazer a um dos cômodos. Seus canais estão obstruídos Augustinho. Nada que uma ou duas

trepadas não resolvam.

Sentiu vergonha e era verdade. Conduziu a escrava e foi.


[1] Referencia ao chorinho “André de sapato novo”, de André Victor Corrêa (1888-1948);

[2] Cícero Romão Batista (Crato, 24 de março de 1844 — Juazeiro do Norte, 20 de julho de 1934) foi um sacerdote católico brasileiro. Na devoção popular, é conhecido como Padre Cícero ou Padim Ciço. Carismático, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará bem como do Nordeste;

Categoria: Espaço Carmen Miranda Subcategoria: Augusto de sapato novo Sobre: Música brasileira - MPB

Categoria: Espaço Carmen Miranda
Subcategoria: Augusto de sapato novo
Sobre: Música brasileira – MPB

Um arquiteto nervoso

Porcelana Sèvres um dos elementos importantes no estilo Neoclássico. No livro Passa lá em casa, este é um dos elementos da decoração do apartamento de Augusto

Porcelana Sèvres um dos elementos importantes no estilo Neoclássico. No livro Passa lá em casa, este é um dos elementos da decoração do apartamento de Augusto

Estaria muito alem dos limites dos poderes de qualquer individuo tentar reunir ilustrações das inúmeras e tão diversas fases da arte ornamental. Seria um trabalho minimamente possível se empreendido por um governo e, mesmo assim, seria volumoso demais para ser útil de modo geral. Assim, tudo que me propus a fazer, ao formar a coleção que arrisquei chamar de Gramática do ornamento, foi selecionar os tipos mais proeminentes em alguns estilos intimamente ligados

Castelo di Sammezzano

Castelo di Sammezzano

uns com os outros e em que algumas regras gerais pareceram reinar independentemente das peculiaridades de cada um.

Eu me aventurei a desejar, a fazer uma justaposição imediata das muitas formas de beleza de cada estilo de ornamento, poder ajudar deter a infeliz tendência do nosso tempo de nos contentar com a copia, enquanto dure a moda, de forma peculiares a qualquer década passada sem tentar averiguar – e geralmente ignorando completamente – as circunstancias peculiares que tornaram um ornamento belo porque era apropriado e que revela outras deficiências ao ser transplantado, fracassando completamente.

E mais que provável que o primeiro resultado de lançar para o mundo esta coleção seja o considerável aumento dessa tendência, e que muitos se contente em tomar emprestado do passado essas formas de beleza que ainda não tenham sido utilizadas ad nauseam. É meu desejo deter essa tendência e fazer despertar uma ambição mais nobre.

Se o estudante empenhar-se em pesquisar as idéias empregadas em tantas línguas diferentes, ele seguramente pode esperar encontrar uma formula de fluxo continuo em lugar de uma reserva parada e cheia até a metade.

Nos capítulos a seguir tentei estabelecer os seguintes fatos principais:

Primeiro: Sempre que um estilo de ornamento desperta admiração universal, ele esta invariavelmente de acordo com as leis que governam a distribuição da forma na natureza.

Aubusson

Aubusson

Segundo: Não importa quão variada sejam as manifestações em cumprimento dessas leis, as principais idéias que se baseiam são muito poucas.

Terceiro: que as modificações e desenvolvimentos ocorridos de um estilo para outro foram causados pelo descarte súbito de algum impedimento fixo que libera o pensamento por um tempo, até que a nova ideia, assim como a antiga, se torne novamente fixa, dando a luz, por sua vez, a novas invenções.

Porcelana de Sèvres

Porcelana de Sèvres

Ultimo: tentei mostrar, no vigésimo capitulo, que o progresso futuro da arte ornamental pode ser mais bem segurado enxertando na experiência do passado o conhecimento que possamos obter de um retorno a natureza para renovar a inspiração. Tentei elaborar teorias da arte, ou formar um estilo independente do passado, seria um ato de extrema

tolice. Seria, ao mesmo tempo reeitar as experiências e o conhecimento acumulado de milhares de anos. Ao contrario devemos considerar todos os trabalhos bem-sucedidos dos passado nossa herança, sem segui-los cegamente, mas apenas empregando-os como orientações para encontrar o verdadeiro caminho.

Ao encerrar o tema e finalmente submetê-lo ao julgamento do publico, estou totalmente ciente de que a coleção está longe da completude; existem diversas lacunas que cada artista pode, no entanto, prontamente preencher por conta própria. Meu principal objetivo, apresentar exemplo desses estilos lado a lado da melhor maneira para torná-los marcos ou apolos para o estudante em seu próprio caminho, foi, acredito cumprido.

Assim, resta-me oferecer meu reconhecimento a todos os amigos que gentilmente me auxiliaram nessa tarefa.

Na formação da coleção egípcia, recebi a ajuda bastante valiosa de J. Bonomi e de James Wild, que também contribuiu com os materiais para a coleção árabe; sua longa residência no Cairo lhe deu a oportunidade de formar uma coleção bastante grande de ornamentos cairotas, cuja a porção contida nesse trabalho não fornece nada além de uma ideia imperfeita, e espero que um dia ele se sinta estimulado a publicá-la de forma completa.

Azulejo da Quinta dos azulejos - Portugal

Azulejo da Quinta dos azulejos – Portugal

Devo a T. T. Bury a placa de vidro colorida. De C. J. Richardson obtive a parte principal dos materiais da coleção elisabetana; de J. B. Waring, os matérias da coleção bizantina, bem como o ensaio tão valioso sobre os ornamentos bizantinos e elisabetanos. Ao dispensar atenção especial aos ornamentos dos celtas, J. O. Westwood ajudou a formar a coleção desse povo e escreveu a tão impressionante historia e a exposição do estilo.

Trabalho de Owen Jones feito em Alhambra

Trabalho de Owen Jones feito em Alhambra

C. Dresser da Marlborough House, forneceu a interessante ilustração do numero 8 do vigésimo capitulo exibindo a organização geométrica das flores naturais.

Meu colega no Crystal Palace, M. Digby Wyatt, enriqueceu essa obra com artigos admiráveis sobre os ornamentos italianos e do período da Renascença.

Sempre que o material reunido de fontes publicadas, elas foram creditadas no corpo do trabalho.

O restante dos desenhos foi executado principalmente por meus discípulos Albert Warren e Charles Aubert, que com Stubbs, reduziram o tamanho dos desenhos originais e os prepararam para publicação.

O desenho sobre pedra de toda coleção foi confiado aos cuidados de Francis Bedford, que, com seus hábeis assistentes H. Fielding, W. R. Tymms, A. Warren e S. Sedgfield, com ajudas ocasionais, realizou as cem ilustrações em menos de um ano.

Devo agradecimentos especiais a Bedford pelo cuidado e pela preocupação por ele revelados, independente de toda consideração pessoal em realizar seu trabalho tão perfeitamente quanto o estagio avançado de que a cromolitografia exigiu; e sinto-me convencido de que seus valiosos serviços serão reconhecidos por todos aqueles que de alguma maneira, estão familiarizados com as dificuldades e incertezas do processo.

William Morris

William Morris

Os senhores Day e filho, editores executivos e, ao mesmo tempo, tipógrafos dessa obra, envidaram todos esforços para sua concretização, e, não obstante o cuidado necessário à sua execução dessa tarefa e a enorme quantidade de impressões a serem realizadas, os recursos de seus estabelecimentos permitiram a eles não apenas que o trabalho fosse oferecido com perfeita regularidade aos leitores, mas inclusive que fosse completado antes do prazo estabelecido.

Owen Jones

9 Argill Place, 15 de dezembro de 1856

Quando Owen Jones resolveu escrever A Gramática do ornamento, o fez por estar indignado com a mistura de estampas e símbolos usados pela burguesia sem qualquer critério ou conhecimento. Esse texto foi extraído do livro.

Categoria: Pilares da Criação  Subcategoria: O menos é mais, CHATO!  Sobre: Artes ornamentais e decorativas  Imagem em destaque: Porcelana japonesa do século XVIII

Categoria: Pilares da Criação
Subcategoria: O menos é mais, CHATO!
Sobre: Artes ornamentais e decorativas
Imagem em destaque: Porcelana japonesa do século XVIII