Luz Halógena

O texto que segue é de André Forastieri.

Porque o Brasil não ganha o Prêmio Nobel de Literatura

Todo ano quando é anunciado o Nobel de literatura, duas palavras pipocam: nunca li. Quando vou me informar sobre o vencedor, outras duas se repetem com incrível frequência: nunca lerei. Os vencedores de 2013 e 2014, Alice Munro e Patrick Modiano, bem, parei em um estágio anterior, e, admito, muito comum: nunca ouvi falar.
Imperdoável? Jornalista tem esse cacoete de posar de sabichão. A gente pode nunca ter lido, assistido, ido ou vivido, mas tem que fazer de conta que sabe de tudo. Pior que nosso vício privado virou virtude das massas. Com a internet, somos todos pseudo-especialistas instantâneos em tudo, com direito a opinião sobre tudo, e acalorada e radical sempre faz mais sucesso.
O prêmio é entregue desde 1901. Li 29 dos vencedores – li alguma coisa dos 29, para ser preciso, não “a” obra. Para pegar uma amostrinha recente, no século 21 os vencedores foram:

2014 – Patrick Modiano

2013 – Alice Munro

2012 – Mo Yan

2011 – Tomas Transtromer

2010 – Mario Vargas Lllosa

2009 – Herta Muller

2008 – Jean-Marie Gustave Le Clézio

2007 – Doris Lessing

2006 – Orhan Pamuk

2005 – Harold Pinter

2004 – Elfriede Jelinek

2003 – John M. Coetzee

2002 – Imre Kertész

2001 – V.S. Naipaul

2000 – Gao Xingjian

Se sentiu ignorante? Eu sim. Devemos estar perdendo um monte de coisa boa. Mas a academia sueca também perdeu. Porque quase nenhum dos meus autores favoritos de todos os tempos ganhou o prêmio.

A maioria dos vencedores do Nobel escrevem no gênero “drama realista contemporâneo”. Já leio muita não-ficção, ensaios, jornalismo. Quando leio ficção, é exclusivamente por prazer. Que também encontro neste gênero, que domina premiações e atenção da crítica. Mas encontro mais em outros cantos.

Previ dois anos atrás que pela crescente estatura internacional do país, na próxima década o prêmio anos não nos escapa, e mantenho. Se um autor brasileiro vencerá por merecimento, ou porque simplesmente chegou a hora do Brasil levar o prêmio, é outra história.
O Nobel não premia “o melhor escritor do mundo do ano”. No caso de nomes consagrados que escrevem em inglês, o habitual é premiar pelo conjunto da obra – vide Pinter, Lessing e Naipaul (os únicos deste século que li, com Vargas Llosa).
Quando a obra é em língua “exótica”, o Nobel premia um tanto o autor, e muito a literatura daquela cultura, país, continente. Você não vai ver autores africanos ganharem três anos seguidos, ou asiáticos, ou latino-americanos. O que nos leva à eterna questão: e o Brasil, porque nunca ganhou, e quando vamos ganhar?

Adoraria encontrar um autor conterrâneo que abrace nossa complexidade social. Meio Naipaul e meio Philip K. Dick.  Com ginga e humor.  Nem precisa tanto: alguém que não faça feio do lado de Pinter e Vargas-Llosa. De cabeça, não me ocorre ninguém. Ninguém que dê conta do mundo além de nossas fronteiras; ninguém que dê conta de nossa realidade única, radical, improvável. Talvez sejamos melhores biógrafos, ensaístas, cronistas, piadistas e tuiteiros que romancistas e, aliás, contistas.
A melhor explicação é a mais simples: o escritor brasileiro é um chato. É homem, branco, tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, e uns 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, tem diploma universitário, mora em metrópole etc. etc.
Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. Pois as profissões mais comuns dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. E a maioria das histórias se passam no presente, ou no máximo dos anos 80 para cá.
O assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho. É um coroa diletante e seu tema é a própria juventude e meia-idade, reimaginadas dramaticamente. Este é o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Ela analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, de 1997 a 2012, de editoras variadas. É mostra significativa.
Regina conclui que não há na literatura nacional o que chama de “pluralidade de perspectivas sociais”. Nossos livros não incluem brasileiros de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. Não há gays, velhos, deficientes, umbandistas e tal nos nossos livros.

A ausência mais escandalosa em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta. Não há negros nas redações, na universidade, nas posições de comando do País. O típico escritor brasileiro simplesmente não convive com negros de igual para igual. Mas há mais discriminação nos nossos livros que no Brasil não-ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. Negro, quando aparece, é miserável, bandido e, principalmente, coadjuvante.
Faz sentido que 36% dos nossos escritores sejam jornalistas. Tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Jornalista não sabe grande coisa, mas aprende a encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas.
Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu! Bem, sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, jornalista, 50 anos, branco etc., e passo muito bem sem ler sobre mim. Nem em versão romantizada, e muito menos realista…
A pesquisa de Regina explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, raríssimas exceções.
O problema não é o País de origem nem a profissão dos autores. É o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Poucos leitores se interessam pelos problemas dos brasileiros letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades.

E pior ainda quando o livro vira policial noir de butique, com direito a uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura! Va de retro, safo repórter de jornal popular! Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade. Hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos.
Em todo lugar o gênero “problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada” tem longa tradição. É um gênero, como livros de vampiro ou histórias de detetive. Nos Estados Unidos, é o que garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina…

Não, sacanagem. Tá cheio de professor por aí que manda muito bem nas mal traçadas. A desgraça é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e isso vale também para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).
No Brasil literatura é segunda profissão ou hobby. Um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Pouco importa sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem: meia dúzia vai ler. E ele não vai ganhar dinheiro nenhum com isso. Pelo menos impressionar os amigos tem que poder, pô!

Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. O problema é quando a profissão do escritor não é escrever, é “ser escritor”. Cobrar cachê pela participação. Cavar verbinha do diretor de marketing. Preparar a palestra para a o próximo festival corporativo. É como esses roqueiros picaretas que pegam dinheiro público via Lei Rouanet para gritar contra o sistema.
Cada um se vira como pode? Escritor não tem esse direito. Sardinha na brasa: escrever está acima de qualquer outra atividade artística. Aprender a escrever é aprender a pensar. Ter o que dizer é o melhor do humano. Dizer de maneira poderosa é divino.
Escritor que depende do poder político e econômico se assume subalterno. O que nossos romancistas dizem sobre nós? Pouco ou nada. O que perdemos com esse silêncio? Muito, tudo. As exceções reforçam a regra. A cultura do Brasil é dominada pelo consenso que compensa.
Graham Greene cravou: “A Itália, durante trinta anos sob os Bórgias, conheceu a guerra, o terror, o assassinato e o derramamento de sangue. Mas produziu Michelangelo, Leonardo da Vinci e o Renascimento. Na Suíça, eles têm o amor fraternal e quinhentos anos de democracia e paz – e o que produziram? O relógio de cuco.”
Falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulisses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, casado com uma mulher que zoava suas veleidades de artista e dois filhos pequenos pra criar. Na ponta oposta da respeitabilidade crítica, igual. A fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie, seu primeiro sucesso, quando labutava como zelador e morava em um trailer, datilografando até altas horas, os nenês chorando.

Podemos e devemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor. Mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. Ainda que no formato de um romance histórico, ficção científica, horror ou humor ou o que for.
Escrever sobre a realidade não é escrever sobre a minha vida. E muito menos um livro é melhor ou pior porque se passa na São Paulo de hoje, e não em Saturno no século 30. O que existem são livros mais e menos ambiciosos, e mais e menos bem-sucedidos, em relação ao tema, à trama, à linguagem, ou na criação de ambientes e personagens. Alta e baixa literatura é papo de crítico cretino.

A pesquisa de Regina explicita que o assunto central da ficção brasileira é o umbigo do seu autor. Não é problema localizado. Em todo lugar, cada vez mais os escritores estão caraminholando sobre seu mundinho particular, reciclando fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e ícones culturais prediletos. “Influence is Bliss”, resume Michael Chabon, que faz isso melhor que a maioria.
A possibilidade de celebridade propiciada pelas redes sociais acentua a tendência. Todos vivemos escrevendo e lendo devaneios narcisistas. Boa parte do que passa por literatura é tão verdadeira quanto essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que colocamos em nossos perfis no Facebook.

A ambição da ficção, e da ficção brasileira, pode e deve ser maior. Escritores são faróis na neblina. Vivem na escuridão. Tateiam. Tropeçam. Mas apontam rumos. Sinalizam um norte. E sem eles, nos perdemos. A vencedora do Nobel de literatura de 2015 é jornalista e das boas, Svetlana Alexievich. Vive no mundo, não em seu mundinho. Repórter, lhe importa mais a voz dos outros que a sua. Seu tema é a dor de parto de um mundo pós Guerra Fria, uma Rússia pós soviética, num continente quietamente deflagrado. Nunca tinha ouvido falar. Li umas linhas dela hoje, pela primeira vez.
Onde estão nossas Svetlanas? Cadê os escritores de que o Brasil precisa? Nossos guias, intérpretes, espelhos? Cadê o grande romance sobre nossa miséria e nossa fortuna? A Itália do século XV é um nada de sacanagem perto do Brasil do século 21.

Hammett estava errado. A literatura que importa não é sobre o autor, é sobre o leitor. Quero, exijo, um livro que me hipnotize, e me leve para outro lugar, e para dentro de mim mesmo. O que importa em literatura é fitar o desconhecido. E não conseguir desviar o olhar.


Prêmio Nobel de Literatura – Quando será a nossa vez?


Por que o Brasil nunca ganhou o Nobel da literatura? Mas ele merecia um?