Augusto na Casa de Vênus

Se clico uma mulher pelada, é porque eu sei que vou tirar algo lindo dela. É uma comemoração[1]


[1] Autumn Sonnichsen

Por que para Platão, Safo era a décima musa. Como digo, nada é mais clássico que Jacques-Louis David. Aqui representando Safo

Por que para Platão, Safo era a décima musa.
Como digo, nada é mais clássico que Jacques-Louis David. Aqui o tema é a poetisa Safo

A ideia original do livro Passa lá em casa, era ter a mulher como principal pilar. No decorrer da historia ela acabou tomando outra forma reafirmando Augusto Gerônimo Martins como personagem principal. Cercando esse personagem, os mais variados tipos femininos compõe sua estrutura.

Da mãe alcoólatra, as tias independentes, as atrizes pornôs para sexo sem compromisso, as musas que permeiam a obra e sufocam Augusto, e Carmen Miranda que parece liberta-lo de tudo. Como não bastasse, Augusto é um importante empresário do ramo de lingeries de luxo. E tem mais, Augusto conhece uma vampira, uma “gênia da lâmpada”, uma sereia. Torna-se um grande amigo de uma princesa babilônica carregada através dos milênios pela djim. Trava amizade com a design de joias Abigail. Entre seus melhores amigos estão as drag queens Cosma e Damiana, que conhece desde a infância como Ananias e Adamastor. O livro mantém sua essência feminina através de um amante desse universo. A obra se concentra nele e se dispersa pelos mais variados tipos femininos.

A relação que Augusto tem com Carmen Miranda é quase mística, onde ela transpassa por sua mãe chegando a ele. Há um motivo, mesmo irreal, há um motivo que se encontra no passado de Dona Carmélia, mãe de Augusto. Mais especificamente em seu nascimento. Nascimento de dona Carmélia e morte de Carmen Mirando e um anjo da guarda displicente.

Para terminar esse ciclo, a morte por câncer do pai de Augusto, motivo esse que Dona Carmélia se tornou alcoólatra. Por fim a morte de Augusto por câncer e o suicídio da mãe onde retornamos ao anjo e a morte de Carmen Miranda. E tem mais…

Uma das tias de Augusto matou uma sapatão a tiros. Isso devido a violência domestica sofrida por umas das atrizes de Levy. Ela namorava a tal sapatão. As outras duas tias também atiram bem, fato esse que quase destruiu Lucrezia, a nossa vampira. Jurema, Zilá e Inês, irmãs de seu pai raramente erram o alvo.

Levy, um dos melhores amigos de Augusto que o acompanha desde a infância. Ele, o amigo, tem uma produtora de filmes pornôs e frequentemente apresenta uma linda atriz para gozar de Augusto cama.

Os homens da vida de Augusto não são menos importantes. O que está no topo do Atlas, é seu pai que morreu quando ele ainda era criança.

“Amava meu pai acima de qualquer coisa. Se você lembrar os clichês de pai herói, era o meu, talvez também o seu. Fato, o meu era. Aconteceu de repente, um curto espaço de tempo. Muito magro e sumiu. A última vez que o vi estava no caixão entre flores. Ele não estava sereno e sim cadavérico. Não, não foi essa imagem que quebrou minha infância e me arrastou para as mãos do lúdico numa tentativa de remendar minha bolha. Foi outra”.

Tem os gêmeos que já citei Ananias ator dublador, Adamastor, advogado que na noite paulistana são as drag queens Cosma e Damiâna.

Pequeno Carvalho, detetive particular e às vezes ator pornô conhecido pelo membro avantajado para um anão. Mas ele é negro e carrega a fama do pau grande.

Frango, outro ator pornô que frequentemente trabalha para o Levy.

Mas voltamos às mulheres.

Jordâna a arquiteta da qual ainda não falei, foi apresentada por Elvira à Augusto que decidiu fazer uma decoração neoclássica, afinal o edifício é neoclássico, ou não?

Jordâna, Abigail e Elvira tem em suas miras mulheres muito peculiares que acabaram se misturando a vida do empresário das calcinhas.

Quando Jordâna prepara o lay out acaba se inspirando no Château de Chenonceau, também conhecido como o Castelo das Sete Damas. Jordâna acaba percorrendo o Renascimento, O clássico e tenta entender o que realmente foi o Neoclássico. Acaba descobrindo que ao contrario de todo preconceito que carrega, ele teve um fundo histórico tão importante quanto o Renascimento.

Pausa:

Nesse castelo as sete damas referia-se a Catherine Briconnet, Catarina de Médici e suas duas filhas e três noras,  Margarida de Valois, a Rainha Margot (esposa de Henrique IV), Isabel de Valois (esposa de Filipe II de Espanha), suas filhas, e Mary Stuart (esposa de Francisco II), Isabel da Áustria (esposa de Carlos IX), Louise de Lorraine (esposa de Henrique III), suas noras.

Na minha opinião uma das mais bonitas fotos de mulher pelada. Autumn Sonnichsen fotografa a ex-atriz pornográfica (na torcida pra ela voltar aos filmes adultos) Sasha Grey

Na minha opinião uma das mais bonitas fotos de mulher pelada. Autumn Sonnichsen fotografa a ex-atriz pornográfica (na torcida para que ela volte aos filmes adultos) Sasha Grey

Estas sete mulheres são substituídas por sete musas, são elas:

Maysa Monjardim;

Carmen Miranda;

Greta Garbo;

Marilyn Monroe;

Savannah;

Barbara Hutton;

Anna Nicole Smith;

É irrelevante a contribuição artística/cultural de tais mulheres. Esse não é o ponto. O que temos aqui são mitos, que em algum momento da historia do livro Passa lá em casa são citadas, homenageadas, lembradas, tornado-se assim uma espécie de mito de passagem. O que me levou a crer que o texto é na verdade, referente ao MITO.

Para exemplificar temos a cena em que Augusto encontra-se na galeria do Castelo das Sete damas apreciando três musas de Leonardo da Vinci. Savannah passa por trás dele, e ele segue seu traseiro. Simples. A passagem. Ele estende a mão para tocar em sua xoxota.

Olhando mais detidamente percebemos que nenhuma dessas mulheres teve morte tranquila. Morreram antes do tempo que imaginamos e/ou morreram em tormento. O que me levou a crer que o texto é na verdade referente a MORTE.

Sete damas, nove musas…

…mais uma.

Lembrei esse detalhe da vasta mitologia, e se transformássemos tais mulheres em nove musas? Mais aquela uma.

Fiz em nove conto com as fadas que não puderam fazer muito diante da tragédia, as fadas. Retornamos ao Clássico grego.

“Consolidou-se em toda a Grécia o número de nove musas. Homero menciona algumas vezes uma musa e outras vezes várias musas, mas somente uma vez a Odisseia cita que eram nove. No entanto, não menciona nenhum de seus nomes. Hesíodo, na Teogonia, é o primeiro que dá os nomes das nove, que a partir de então passaram a ser reconhecidas. Plutarco afirma que em alguns lugares as nove eram chamadas pelo nome comum de Mneae (“recordações”)”.

A palavra “Mneae” abre um trecho do livro Passa lá em casa.

As nove musas canônicas são:

A qual dos mitos modernos nomeei tais atributos?

Não, não vamos olhar pra ele de forma tão seria, afinal como diz Augusto, estamos aqui pra esculhambar.

Ainda tem a tal vampira que nasceu no renascimento e temos ai mais um mito. Dessa vez a imagem roubada foi de Lucrezia Crivelli. Mas, falarei dela na página Leonardo. Uma oitava musa?

Vamos acrescentar a nona musa a imagem roubada de Beatrice d’Este, que também falarei na página de Leonardo.

Para finalizar, a décima musa é aquele que Platão determinou, Safo. Fiz de Cássia Eller a décima musa, mas ela passa rapidinho, mal é notada, afinal tem as sereias etc…

Continuamos em mortes trágicas para agora serem substituídas por uma princesa babilônica que simplesmente nunca morreu, graças a ifritah, que embevecida por sua beleza a mantém viva.

Augusto acaba tendo contato em diferentes fases e etapas com tais tragédias, se preparando para uma tragédia pessoal.

O cenário é perfeito?

Não, é neoclássico feito em São Paulo.

Nove torres, como o Castelo de Almourol se elevam margeado pelo Rio Tiete. Almourol é margeado pelo mítico Tejo.

Antes que ela, sua tragédia se consume, chama a arquiteta Jordâna. Quer redecorar o apartamento para suas tias ocuparem. Sem lembranças dele, mude tudo.

Deixo vocês com esse trecho do livro:

As nove musas gregas

As nove musas gregas

— Gostaria de preparar o apartamento para minhas tias.

— Acha que não consigo?

— Claro que consegue. É que minhas tias são básicas.

— Quem falou essa merda. Gostamos da merda do neoclássico, mas só porque foi ela quem fez – apontou para Jordâna com o cigarro.

— Então começamos por Inês, o que pensa?

— Eu? Não entendo nada de arquitetura, exceto que tem quatro paredes, janelas, portas e um teto.

— Que tal nos basear na Casa de Vênus.

— Vênus tinha casa? Pensei que fosse uma Deusa.

— E é. Me referi a casa que foi escavada pelos arqueólogos em Pompéia. Há painéis e um deles simula uma janela que se abre para o mar e Vênus repousa com dois querubins.

— Bom, aqui a janela se abre para o Rio Tiete e não há querubins lá e nem Vênus. Dê Venus para Zilá, das três, ela e quem mais gosta de sexo.

— Tem a casa das… – Jordâna se arrependeu imensamente.

Os cinco olhavam para ela, a mãe de Augusto visivelmente bêbada perguntou:

— Do que? Das putas? – Dona Carmélia sorriu.

— Sem prostitutas – cortou Augusto

— Quero algo romântico – disse Jurema.

— Romântico? Que tipo de romântico? – Augusto lembrou que isso podia significar mais de uma coisa.

— Como que romântico? Romântico, romântico ora – Jurema meio zangada.

— É que Drácula também é romântico. Explica pra ela Jordâna – pediu Augusto.

— Não sou tão boa em literatura assim.

— Drácula romântico? – Dona Carmélia não prestava muita atenção.

— Não quero Drácula no meu quarto.

— Vamos resumir assim, a Casa do Fauno – pensou um instante. – Branco, amarelo, preto, vermelho, o mosaico de Alexandre sem o Bucéfalos. A Casa de Vênus para Zilá, a Casa do Fauno para Inês e a Casa do Jardim de Hercules para Jurema.

— Parece romântico – Jurema apreciava.

— Pois lá morava um fabricante de perfumes.

— Como sabe? – Augusto desacreditava.

— Estudos paleobotânicos dizem isso. O plantio de ervas para fragrância.

— Ervas para fragrância – repetiu Carmélia. – Já esteve em Pompéia?

— No inicio do curso de arquitetura, para entender porque nunca devo fazer neoclássico – Suspirou.

Pintura em destaque: Reynolds Stephens William Vejam as outras páginas sobre as musas de "Passa lá em casa"

Pintura em destaque: Reynolds Stephens William
Vejam as outras páginas sobre as musas de “Passa lá em casa”

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